Tratamento de toxicodependência: a ibogaína | Por Juarez Duarte Bomfim

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A iboga é uma misteriosa raiz africana a qual se atribui fortes propriedades terapêuticas.
A iboga é uma misteriosa raiz africana a qual se atribui fortes propriedades terapêuticas.
A iboga é uma misteriosa raiz africana a qual se atribui fortes propriedades terapêuticas.
A iboga é uma misteriosa raiz africana a qual se atribui fortes propriedades terapêuticas.

A iboga é uma misteriosa raiz africana a qual se atribui fortes propriedades terapêuticas. Trata-se de uma raiz subterrânea que chega a atingir 1,50m de altura, pertencente ao gênero Tabernanthe, composto por várias espécies. A que tem mais interessado a medicina ocidental é a Tabernanthe iboga, encontrada sobretudo na região dos Camarões, Gabão, República Central Africana, Congo, República Democrática do Congo, Angola e Guinea Equatorial. Estas informações e outras a seguir estão disponíveis em: www.neip.info/downloads/Eboka.doc.

O arbusto cresce em áreas de floresta tropical, solos pantanosos ou savanas molhadas. Ela floresce e produz frutos durante todo o ano. O seu principal alcaloide (princípio ativo) é a ibogaína, extraída da casca da raiz e que representa 90% dos 30 alcalóides encontrados nas raízes desta espécie. A iboga pertence a família dos alucinógenos clássicos, entre eles o peyote, os cogumelos, a ayahuasca e o LSD.

Em 1962, Howard Lotsof, um jovem viciado em heroína em busca de uma nova droga, acaba descobrindo a iboga. Após uma viagem de 36 horas, relata que perdeu totalmente o desejo de consumir heroína e não sentiu nenhum sintoma de abstinência. Administrou a substância a sete amigos também viciados, e em cinco casos o resultado foi o mesmo.

Em 1983 Lostsof reportou as propriedades anti-aditivas da ibogaína e em 1985 obteve quatro patentes nos EUA para o tratamento de dependências de ópio, cocaína, anfetamina, etanol e nicotina. Fundou o International Coalition for Addicts Self Help e desenvolveu o método Endabuse, uma famacoterapia experimental que faz uso da ibogaíne HCl, a forma solúvel da ibogaína. Através da administração de uma única dose, cujo efeito dura dois dias, haveria uma atenuação severa ou completa dos sintomas de abstinência, permitindo que o dependente se desintoxique sem dor. Em segundo lugar, uma retirada ou perda do desejo de consumir drogas por um período mais ou menos longo de tempo.

Atualmente a iboga é utilizada por curandeiros tradicionais dos países da bacia do Congo e na religião do Bouiti na Guinea Equatorial, Camarões e sobretudo no Gabão, onde membros importantes das hierarquias políticas e militares do país são adeptos. No Gabão, a raiz e a casa da raiz são encontradas facilmente nas farmácias tradicionais e nos mercados das principais cidades. Existe aí uma ONG dedicada inteiramente a iboga. Se mantida a tendência atual, a coleta da espécie selvagem está colocando-a em risco de extinção. A iboga pode ser utilizada sozinha ou em combinação com outras plantas. Ela é empregada no tratamento da depressão, picada de cobra, impotência masculina, esterilidade feminina, AIDS e também como estimulante e afrodisíaco. Na crença dos curandeiros locais, é eficaz também para as “doenças místicas” – como é o caso da possessão.

Atenção: pode ocorrer morte nos rituais de iniciação do Bouiti. Segundo Calvin, isto pode acontecer devido a diversos fatores. Um deles é a incompetência ou falta de capacidade do guerriseur. Outro é que a eboka não pode ser administrada para um doente que esteja demasiado debilitado fisicamente. Finalmente, “se o doente que faz a iniciação é um bruxo, durante viagem astral o seu espírito quer ir para a zona da obscuridade. Ele pode se perder no caminho e não conseguir voltar, causando a morte do corpo físico”. Os Fang (etnia) conhecem um antídoto, uma folha que anula o efeito da eboka, a qual chamam Ebebing.

A Versão científica

A literatura científica sobre o tema é controversa. Sabe-se que a ibogaína produz ataxia (perda do equilíbrio corpóreo), tremores, aumento da temperatura corpórea, da pressão e da frequência cardíaca. Ela é diferente de outros medicamentos na medida em que é a única substância conhecida que age diretamente sobre o mecanismo da dependência no corpo humano. Entretanto, não se sabe ao certo exatamente o seu grau de eficácia: há casos de recuperação e de fracasso do tratamento. Não existe nenhum estudo científico que comprove que a ibogaína cura dependência, apenas evidências anedóticas – que não são poucas. Porém, assim como há relatos de morte nos cultos de iniciação Bouiti com iboga, houve três mortes no tratamento não controlado de toxicodependentes com ibogaína na Holanda, França e Suíça. Mas não faltam entusiastas das suas virtudes e num rápido passeio pela internet é possível encontrar diversos relatos de cura de dependência com a ibogaína.

Os tratamentos com ibogaína não são autorizados nos Estados Unidos, Reino Unido, França ou Suíça. Mesmo assim têm sido usados clandestinamente em quartos de hotéis e apartamentos. Em Israel a iboga está sendo pesquisada para uso no tratamento da “síndrome do pós-guerra” que afeta soldados.

Depoimento de Bia Labate (fevereiro de 2001): “Participei de uma prière e comi uma colherinha de iboga. O efeito foi fortíssimo, durando 24 horas. Não posso dizer que entendi muita coisa, além do que achei o ritual bem cansativo. A sensação foi de que os Fang tem razão, a iboga é qualquer coisa que não tem a ver com este mundo, mas diz respeito ao mundo dos mortos. Ficou apenas uma enorme curiosidade – e medo – de me submeter a iniciação. A África, por si mesma, já é bastante inebriante.”

Depoimento da jovem Camila

Conheço pessoalmente o drama desta moça e de sua perseverante mãe, que nunca a abandonou.

“Eu me chamo Camila, tenho 32 anos e desde os 14 anos venho me tratando da minha dependência química. Aos 14 anos eu comecei fumando maconha, álcool, solventes, até então pra mim era só uma diversão, pois não sabia de minha doença da dependência química. Comecei na forma recreativa e com o tempo fui aumentando a quantidade, já estava fumando e bebendo todos os dias.

“Com 17 anos comecei a usar cocaína, senti que eu era poderosa, achei aquela droga o máximo, comecei devagar… a cada 15 dias, depois uma vez por semana e… depois… todo dia. Mas aqueles efeitos do começo já não tinha mais, usava só para não ficar depressiva e me acalmar.

“Nesse momento a família começou a perceber que minhas atitudes começaram a ficar diferentes e me mandaram para o psiquiatra. Eu já fazia terapia desde os sete anos de idade, devido à separação dos meus pais eu precisei de um auxilio. Este psiquiatra me encaminhou para o daime com 17 anos.

“Com 19 anos eu comecei a usar o crack e esta foi a minha droga de escolha, tinha sido amor a primeira a vista, parecia que ali todos os meus problemas se resolveriam, mas com o tempo percebi que foi ali que a doença se mostrou de verdade, que eu faria coisas para conseguir a droga que em sã consciência não faria.

“Nesse mesmo ano eu entrei na Faculdade de Pedagogia na PUC-SP, consegui conciliar a faculdade com o uso, pois estava empenhada em outro grupo do daime, no Caminho do Coração. Ao término da Faculdade senti um vazio profundo, sem saber o que fazer. Com aquilo me afundei no crack, antes eu usava e voltava para casa, mas a partir desse momento eu ficava dois dias fora de casa, só voltava quando acabava o dinheiro, a quantidade aumentou muito.

“Percebi que sozinha eu não ia conseguir. Com 24 anos tive a minha primeira internação no Padre Haroldo, fiquei seis meses e lá tive um pouco de noção do que eu vinha fazendo. Era uma comunidade terapêutica, acordava cedo, aprendi a ter disciplina e limites. Fiquei um ano limpa, mas tive uma frustação e logo voltei ao uso, e várias outras internações vieram, em psiquiatrias, clinicas.

“Com 27 anos fui morar no Acre, em uma comunidade do vegetal, meu uso em São Paulo estava cada vez pior, ficava até seis dias fora de casa, só voltava por que ouvia minha mãe rezando para eu voltar.

“Nessa comunidade eu bebia o vegetal todos os dias, comecei a ter maior clareza de minhas atitudes e me responsabilizar, a ser mais verdadeira. Após quatro meses bebendo todos os dias o vegetal, eu pedi para beber menos. Fiquei nove meses limpa e tive recaídas por lá mesmo, como não tinha crack, fiz o uso da merla, da pasta base e eu mesma fazia o crack. Com 29 anos, ainda morando no Acre eu tinha um trabalho bom, mas estava usando 10 gramas de cocaína por dia, cheguei a pesar 47 kg, sendo que meu peso hoje é de 62 kg.

“Voltei para São Paulo e comecei mais um tratamento, penso que já era o sétimo. Fiquei mais 10 meses limpa e tive a pior recaída, tive convulsão, o uso foi demais que meu corpo não aguentou. Fui levada a força para uma clinica e lá eu tomava 14 remédios por dia, de lá fui transferida para a décima internação que foi em Curitiba e foi aí que tive meu primeiro contato com a ibogaína, com o Dr. Bruno, mas este não deu efeito algum.

“Em setembro de 2012 saí desta clinica e continuo fazendo a minha recuperação com a Elza no Espaço Sol Lua. Com muita força de vontade continuo limpa, mas ainda não satisfeita com o resultado da Ibogaína fui atrás de outro tratamento e em julho de 2013 eu tomei outra dose com o Dr. João no Acre.

“Hoje me encontro um ano e quatro meses limpa e a ibogaína me auxiliou a não ser mais impulsiva, a me concentrar mais, tive uma experiência incrível e hoje trabalho com esta planta que é aplicada em capsulas em um tratamento de quatro dias em São Paulo, com diversos profissionais.”

A Camila é também uma talentosa artista plástica, no seu trabalho com mosaicos. Sucesso na batalha, Querida Amiga.

Ibogaína é o princípio ativo da raiz da iboga. Trata-se de um alcalóide indólico enteogênico capaz de antagonizar e anular a ação de uma série de alcaloides ou compostos orgânicos nitrogenados de intensa bioatividade sobre o cérebro, como a cocaína, heroína e morfina, dentre outros.
Ibogaína é o princípio ativo da raiz da iboga. Trata-se de um alcalóide indólico enteogênico capaz de antagonizar e anular a ação de uma série de alcaloides ou compostos orgânicos nitrogenados de intensa bioatividade sobre o cérebro, como a cocaína, heroína e morfina, dentre outros.
Sobre Juarez Duarte Bomfim 745 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]