Manuel Hipólito de Araújo (10.06.1921 – 17.08.2000), o Velho Pastor

Manuel Araújo, o Velho Pastor
Manuel Araújo, o Velho Pastor
Manuel Araújo, o Velho Pastor
Manuel Araújo, o Velho Pastor

Com dificuldades no seu casamento, problemas de alcoolismo, tabagismo e jogatina, Manuel Hipólito de Araújo muito sofria e desejava mudar de vida. Certa manhã, passando pela porta da Catedral de Nossa Senhora de Nazaré (Rio Branco-Acre), rogou a Deus por uma luz, um conforto, e quem roga com firmeza, amor e fé obtêm a resposta Divina.

Foi levado por um amigo de trabalho — Edson Castelo Branco — para conhecer Mestre Daniel Pereira de Mattos. No dia 3 de outubro de 1956 Manuel Araújo foi recebido pelo Mestre, a quem contou toda a sua situação, sendo encaminhado por ele até o Altar da Igrejinha para que rezasse a São Francisco das Chagas. Neste dia bebeu Daime pela primeira vez. Em miração recebeu esclarecimentos sobre a sua vida e ali começou o seu preparo para cumprir importante compromisso dentro da Missão de Frei Daniel. Nos mistérios da Santa Doutrina ele foi consagrado Frei Manuel (10.06.1921 – 17.08.2000), o nosso Velho Pastor.

Testifica Manuel Hipólito de Araújo:

— Eu trabalhei dois anos com o Mestre Daniel. Era um homem muito humilde, muito amigo, muito conselheiro. Um verdadeiro instrutor espiritual para toda a humanidade.

Do dia três de outubro de 1956 até o seu desencarne, Manuel Araújo dedicou todos os seus dias da vida de matéria a esta Casa Espírita — o Centro Espírita e Culto de Oração “Casa de Jesus — Fonte de Luz”, da qual foi vice-presidente entre 1959 e 1977; e presidente de 27 de abril de 1977 até 17 de agosto de 2000, quando aqui morreu para renascer na vida espiritual.

A seguir, o Velho Pastor Frei Manuel conta quando conheceu o Mestre e como recebeu o chamamento para se alistar neste exército de Jesus.

Depoimento de Manuel Hipólito de Araújo:

— Eu cheguei em Rio Branco no dia 3 de fevereiro de 1943. Vim do Ceará, por causa da guerra. Quando cheguei no Acre, fui convidado para trabalhar na Secretaria de Saúde para montar o primeiro laboratório de análise, onde trabalhei 37 anos. Durante esse período, eu andei fazendo extravagâncias e estava com a vida um pouco atrapalhada, tanto de saúde, como espiritualmente. Um colega de repartição me convidou para conhecer o Mestre Daniel, que fazia atendimentos espirituais com o Santo Daime.

“Eu fui lá conversar e ele perguntou se eu sabia rezar.

— Sei sim!

— Então, vá até a capela e reze um Pai Nosso e uma Ave Maria. Ofereça a Deus e à Virgem Maria, pedindo que abra seus caminhos nessa casa, para que aqui encontre tudo que está necessitando.

“Rezei e pedi a São Francisco, humildemente, que abrisse os meus caminhos, me mostrando a Luz da Verdade e me desse tudo aquilo que eu estivesse necessitando.

“Daniel me mandou sentar. Na hora do início do trabalho, ele me chamou e disse:

— Meu filho, você quer um pouco desta Luz?

“Eu tomei e ele me mandou sentar na capela. Pedi um lugar à mesa e o Elias (Kemel) me deu. Daí a pouco, comecei a sentir um calor e uma certa irradiação no meu corpo. Firmei o meu pensamento em Deus e logo em seguida abriu-se o meu olhar espiritual e me vi todo de branco (eu não estava de branco), sentado, com as mãos na perna. O calor era tão grande que eu estava pingando de suor. Aí começou a nascer do chão umas labaredas de fogo. Eu fiquei meio assustado com aquilo. O fogo começou a subir e uma voz, que veio do lado direito, disse:

— Meu filho, não tenhas medo. Isto que você está vendo é devido a sua situação espiritual, que está meio embaraçada, sua culpa, os seus pecados. O caminho que você está seguindo é como se estivesse numa fogueira, porque te afastastes dos caminhos de Deus.

“Eu me vali de Deus imediatamente… Pouco depois, folheei um livro que estava sobre a mesa. Dentro daquele silêncio, eu ouvi falar:

— A paz de Deus esteja convosco.

“Nesta hora, Daniel Pereira de Mattos cantou um salmo, o de São Francisco de Assis, que me deu uma alegria e um conforto muito grande. Aquela labareda que estava me queimando começou a baixar. Quando abaixou o fogo, começou a soprar uma brisa. A voz tornou a dizer:

— Não se assuste, isso é conforto de Deus que está chegando, o pedido que fizeste a São Francisco.

“Eu me vi dentro da Luz da Verdade e vi a situação que estava vivendo. Isso foi no dia três de outubro de 1956, véspera do trabalho de São Francisco.

“Quando fecharam o trabalho, nós fomos para a salinha onde Daniel estava sentado numa rede. Sentei ao seu lado e ele me disse:

— Que tal, meu filho, o que você achou dos meus trabalhos?

— Muito bom! Gostei muito. Mas encontrei uma coisa que não sei explicar. Alguma coisa tocou meu coração, que eu não sei dizer o que é. Só se eu fizer a continuação do trabalho.

— Amanhã é o festejo de São Francisco, o dono da casa.

“Ele mandou servir um cafezinho e pegou o violão.

— Vou te oferecer uma canção.

Daniel dedilhou as cordas do seu pinho. Do perfume da Rosa Menina surgiu a Valsa das Valsas – a Valsa Rainha.

“Eu ainda estava sob o efeito do Daime. Concentrei e vi um salão de luz muito bonito e dentro daquele salão três pares de dançarinas. A coisa mais bonita do mundo. Cada par de uma cor: azul, rosa e verde. Eram três pares de ninfas encantadas, dentro do salão, dançando aquela valsa. Quando terminou, ele disse:

— Essa valsa é sua, meu filho. Depois, eu vou lhe dar por escrito.

— Obrigado, Mestre. Amanhã eu estarei aqui.”

A partir deste encontro com o Mestre, Manuel Hipólito de Araújo dedicou todos os dias da sua vida ao cumprimento da Missão fundada por Daniel.

Desde esta vida a hora da morte

Nos últimos anos de vida em matéria, o Velho Pastor Manuel Araújo passou por problemas de saúde que o abateram fisicamente, mas manteve a sua fé inexpugnável e continuou a se dedicar com afinco às atividades do Centro — quando a saúde permitia.

Ele sempre repetia: prefiro perder a vida e não a fé. Não tenhas medo meus irmãos. O medo é a sombra da dúvida e a dúvida é a falta de fé”. Dizia também que “se fosse para melhorar a Missão que Deus o levasse”.

Manuel anunciou a sua passagem para a vida espiritual sete dias antes, na data de aniversário de seu filho Francisco, que viria a ser seu sucessor.

— Pai, lembra que dia é hoje?

— Meu filho, você está chegando e daqui a sete dias eu estou partindo.

Foi a premonitória resposta do Velho Pastor.

Na véspera do seu passamento, pela manhã, já com muitos sinais de debilidade, chamou pela esposa:

— Minha velha!

Quando Maria Leopoldina entrou no quarto, próximo à cama, exclamou:

— Mamãe, mamãe!

— Não sou sua mãe, sou sua velha.

— Maria, chame meu padrinho.

Maria Leopoldina chamou por Frei Daniel, que se apresentou espiritualmente, e lhe perguntou como estava.

— Meu padrinho, não me deixe esmorecer, segure a minha mão.

— Você não vai esmorecer, você é servo do Senhor. Segure na mão do Senhor e deixe que Ele te leve.

Foram estas as palavras do Mestre Daniel ao seu discípulo dileto.

Santo Anjo de minha guarda
Vós me guiai com boa sorte
Preparai-me para Jesus
Desde esta vida à hora da morte.

Já à tarde, chorando, Maria Leopoldina lhe pergunta:

— Meu velho, você não está melhor?

— Não chore, está tudo bem — e virou para o lado. Foram as suas últimas palavras.

Às quatro horas da tarde de 16 de agosto de 2000, Manuel Hipólito de Araújo, Frei Manuel, nosso Velho Pastor, entrou em coma profunda; no dia seguinte, às cinco horas da manhã de 17 de agosto, morreu neste mundo e renasceu na espiritualidade, para de lá, do Monte do Castelo Azulado, prosseguir na Missão de guiar as nossas almas rumo aos Santos Pés de Jesus.

Santo Anjo de minha guarda
Vós me dê santa caridade
Guiai minha alma bem feliz
Desde este mundo a eternidade.

Frei Manuel, o Velho Pastor

— Eu represento nesta casa, nada mais nada menos que um pastor, arrebanhando este lindo grupo de irmãos, ensinando, procurando a preparar os meus queridos irmãos e arrebanhando as almas penitentes que em vida de matéria não souberam aproveitar o tempo que Deus lhe deu neste plano para fazer um compromisso sagrado… E os indígenas pagãos, os seres pagãos que ainda não têm o símbolo do cristão, que é o símbolo da Santa Cruz Bendita, eu arrebanho todos esses irmãos para um dia eu ir prestar contas dessas obras no julgamento final, entregando ao nosso Salvador Jesus Cristo o meu compromisso dentro dessas Santas Missões que cumpri junto com todos meus queridos irmãos. É isto aí, o significado da minha presença neste plano e nesta missão… Arrebanhando estas ovelhinhas para Jesus, pescando essas almas para Jesus. Esta é a maneira que eu fui identificado espiritualmente dentro da nossa missão.

Sou um Velho Pastor
Pastoreio as ovelhas
De Deus e as sigo
Em lindos rebanhos
No Santíssimo Caminho do Céu.

Juarez Duarte Bomfim
Sobre Juarez Duarte Bomfim 740 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]