A última locomotiva, síntese do livro ‘O último playboy: a vida louca de Porfirio Rubirosa’

Zsa Zsa Gabor e Porfirio Rubirosa Ariza, em 1954.Zsa Zsa Gabor e Porfirio Rubirosa Ariza, em 1954.
Zsa Zsa Gabor e Porfirio Rubirosa Ariza, em 1954.

Zsa Zsa Gabor e Porfirio Rubirosa Ariza, em 1954.

Na primavera de 1970, uma locomotiva francesa, dourada e a todo vapor – com muita lenha para queimar – invadiu o hi-society carioca: chamava-se Odile Rubirosa. Linda, a viúva de Porfírio Rubirosa – cuja biografia, O Último Playboy, acaba de ser lançada – foi muito bem recebida: hóspede do casal de jet setters Regina Rosemburgo e Gerard Lecléry. E também pela imprensa da época. Notas e mais notas nas colunas sociais, entrevistas e festas sem ter fim. Logo virou atração da revista Manchete, que se deleitou com sua presença. No dia das fotos não fez por menos: caras, bocas, saia com fendas – e muito jogo de pernas – além de blusa marrom, transparente.

Já com mais de 30, Odile mal sabia que nas areias cariocas começaria a escrever o maior capítulo de sua vida, onde viveu muito, amou, provocou, brilhou, casou novamente, descasou, sofreu – calada – e, mais tarde, protagonizou escândalos. De montão.

Odile Lèonie Marie Josèphe Berard nasceu em Lyon, França, em meados dos anos 30. Filha de família conservadora, seu avô paterno era um grande médico da região. Aos 5 anos, órfã do pai – também médico – mudou-se com a mãe para Paris. Sua mãe teve outra filha, que sofria de problemas psicológicos, viveu tempos internada e anos mais tarde veio a suicidar-se.

Na adolescência a beleza e o charme de Odile já chamavam a atenção – era a típica mademoiselle da Rive Gauche. Mocinha, foi capa da Paris Match. Independente – desde sempre – estudou interpretação no Conservatório Nacional de Arte Dramática, onde os colegas, entre eles Jean-Paul Belmondo, babavam com a beleza da jovem.

Por suas curvas prefeitas adotou o nome artístico de Odile Rodin, numa “homenagem” ao famoso escultor. Com esse nome, atuou em dois filmes Futures Vedettes (1955), com Brigitte Bardot, e Si Paris Nous Était Conte (1956), com Danielle Darrieux, o rosto mais bonito da época. Nesses tempos dividia um pequeno apartamento com uma outra aspirante a atriz: Ursula Andress. No teatro, Odile teve um papel de destaque na peça Fabien. Além de bonita, era talentosa e parecia ter uma promissora carreira pela frente.

Rubirosa: O Último Playboy

Foi numa festa, depois de um torneio de pólo, ainda nos anos 50, que ela conheceu o dominicano Porfírio Rubirosa, um dos maiores playboys de todos os tempos. Não muito depois já estavam namorando e, apesar da diferença de idade – ele era 28 anos mais velho – a paixão foi inevitável. Amor, mesmo.
Logo Odile trocaria a carreira de atriz pela de jet setter. O casamento foi em uma cerimônia discretíssima, para poucos convidados – com direito a uma aliança de ouro, salpicada de rubis. “Adoro quando dizem que fui feita por ele. E fui mesmo”, revelou ela ao jornalista Daniel Más na revista Status. “Rubi, para os íntimos, fez Odile Rubirosa, mas uma coisa ele encontrou pronta, e facilitou muito o trabalho: Odile Rodin”, completou.

Rubi a tratava como a uma bonequinha de festa: não deixava que pintasse os cabelos – originais mais para o castanho – e até no penteado ele influenciava: muito coque na boneca. Era ele que escolhia o que ela deveria vestir: tailleur e jóias discretas. De ousadia, nada. Um dia, quando ela chegou em casa com um vestido bordado – que tinha comprado sozinha e por vontade própria – ele não gostou e o picotou todo.

Nunca lhe deu um talão de cheques, sempre dinheiro, em notas, e a cobriu com jóias, peles, viagens e tudo do bom. Do melhor. Passeavam por Paris a bordo de um Mercedes cujas portas abriam para cima. Rubi era louco por carros.

Em agosto de 1958 Porfírio Rubirosa chegou a Cuba como embaixador da República Dominicana, no fim do mesmo ano chegava Fidel Castro. Ficaram meses. Depois da embaixada ser bombardeada, deixaram Havana, de vez.

Bombardeios à parte, o que não faltava ao casal era glamour – e coloca glamour nisso: passeios no iate de Stavros Niarchos, jantares com os Rothschild e cruzeiros com os Kennedy e seus amigos, entre eles Frank Sinatra e Dean Martin.

No início dos anos 60 estiveram no Brasil duas vezes: para um torneio de pólo e depois para o carnaval. Numa recepção, na casa de Martha Rocha e Ronaldo Xavier de Lima, num almoço de verão, não na piscina, mas dentro da cobertura, Odile apareceu com um microbiquíni, Rubi ficou furioso, mas – não adiantava – ela já começava a ter asas próprias. No carnaval, quando voltaram em determinado momento do baile do Municipal, Odile sumiu e só foi encontrada horas depois numa boate em Copacabana em que os cariocas estavam babando com a “mulata brésilienne”, como o mestre Ibrahim Sued a chamava.

Uma coisa Rubi não pensava e nem pretendia fazer: trabalhar. Gostava era de gastar, de viver bem, muito bem. Era um latin lover, e com fama de bom amante.

Em 1965, em Paris, após uma bem sucedida partida de pólo que seu time venceu, organizou uma festa no New Jimmy’s – para comemorar a vitória. Odile foi em seu próprio carro, ele na sua Ferrari conversível. Muita comemoração e bebidas sem ter fim. Naquela noite Rubi bebeu demais e ainda queria esticar até o Calavados, tradicional restaurante entre os boêmios franceses. Odile foi para casa. De manhã, sozinho e em alta velocidade, a 130 km, Rubi bateu o carro numa árvore, no Bois de Boulogne. Ainda foi tirado com vida do automóvel e sua última palavra teria sido: “Odile”.
No dia do funeral, chovia a cântaros, a imagem de Odile, aos 28 anos, era de pura dor. O fato é que, os dois anos seguintes, ela ficou desnorteada sem Rubi e trancou-se em seu apartamento em Paris. Não queria saber de nada nem de fazer nada. Só comer e comer, o que sempre gostou. Nessas, engordou 10 quilos.

Lá vem a viúva!

Quando reapareceu, linda, magra e exuberante – como nunca – uma coisa era certa: todos os europeus queriam ter a viúva de Rubirosa. Mas agora era ela quem decidia cada passo, decote, salto e homem de sua vida.

O porto seguro da bela viúva era seu apartamento situado num prédio moderno de frente para o Bois de Boulogne, com um guarda-roupa que transbordava Dior, Saint Laurent e Ossie Clark. A locomotiva tinha saído da toca de vez e, com algumas doses de inconseqüência, vivia o seu dia-a dia, desfilando pelo grand monde.

Em 1972, Odile estaciona mais uma vez por aqui, para o lançamento do livro de seu amigo Ibrahim Sued – e mais uma vez provocou: foi com um grande decote e sem lingerie. Da imprensa brasileira ganhou um apelido: “Viúva Alegre”.

“Preciso do amor dos homens e da minha liberdade. Amo, sim, ao mesmo tempo, três, quatro”, disse ao jornal O Globo e ainda soltou o que achava do brasileiro: “Ele é fascinante. Mas nunca para casar. Como flerte é alegre, divertido, dança bem e ama bem. Como marido é excessivamente latino”. Mal sabia que, mais tarde, iria pagar – e bem – a língua.

Aqui as matildes e linguarudas de plantão detonavam com a viúva: boatos de que ela tinha fisgado Porfírio como manicure, tirando as cutículas dele. Pura inveja.

No carnaval de 73, surpresa: lá vem ela, lá vem ela, Odile desfila pela Portela, no chão, em trajes para lá de sensuais: a fantasia, uma idéia dela, era um pequeno biquíni azul, todo bordado de pedras e véus caindo pelos lados. Saiu na Ala dos Demolidores, e veio que veio: detonando. A idéia de convidá-la foi de Jorge, caseiro de Maurício Leite Barbosa, que tinha casa na Joatinga, onde ensaiava o refrão: “Tim Tim Tim… o destino é assim…”

Paulo Marinho – O destino é assim

Paulo Roberto Franco Marinho era o típico garotão de Copacabana, conhecido pela sua turma da rua como “Coelho”. O apelido – muitas vezes confundido – foi inspirado no tamanho de seus dentes.

Teve uma infância abastada e do dia para noite viu seu pai, ao dissolver uma sociedade, mudar completamente o padrão de vida. Foram morar num apartamento na rua Miguel Lemos, em Copacabana, de dois quartos. Paulo dividia o quarto com três irmãos, em dois beliches. A mãe, dona Lourdinha, vendia roupas dentro de casa. O pai conseguiu um emprego público nos Correios.
Aos 14 anos, bateu na porta de Ronaldo Xavier de Lima, um amigo de bairro – muito mais velho que ele – e conseguiu seu primeiro emprego. Mais tarde foi o próprio Ronaldo que o mandou para Londres para fazer estágio na corretora de valores Sedgwick Forbes. Ao voltar, foi trabalhar com a família de corretores de valores Leite Barbosa. Foi num almoço, numa das exclusivas casas da Joatinga, que conheceu Odile.

“De repente eu vejo Odile, que estava com um short verde cavado atrás. Achei-a lindíssima, perfeita e disse ao jornalista Justino Martins. ‘Pô, eu vou comer essa loura’”, revelou Paulo em entrevista à revista Playboy. Rolou, como também almoços, passeios e um fim de semana na Bahia. No dia 3 de maio de 1973, seis meses depois, numa recepção fechadíssima para 20 pessoas, na casa dos Lecléry, Odile passava a assinar Marinho.
Fizeram um pacto nupcial em cartório: total separação de bens. Dessa vez a aliança era apenas de ouro, que ela não tirava por e para nada. O casamento foi capa da Manchete e notas de colunas por todo o mundo.

Lua-de-mel em Paris e os dois, apaixonadíssimos, adoravam dançar: a música do casal era “You Are the Sunshine of My Life”, de Stevie Wonder. A individualidade sempre foi mantida e esse era um dos segredos da relação. Paulo não fumava, não bebia, era carinhoso e, diz a lenda, não ficava nada a dever a Porfírio Rubirosa como amante. Só não era playboy, sempre foi trabalhador: esforçado e determinado, as contas da casa eram mantidas por ele. Já os luxos de Odile, por ela, que vendeu o apartamento em Paris, mas continuava indo de três a quatro vezes por ano, onde tinha sua suíte no St. Regis.

Pimenta pura

“Didile (o apelido dela) era um tesão andante. Todos os homens viravam a cabeça quando ela passava”, diz Jimmy Bastian Pinto. Odile se adaptou rapidamente ao Rio, sem frescuras, adorava uma batidinha, cervejinha, feijoada e pegar sol, de topless, na praia de Grumari.

Carioquérrima, tornou-se até flamenguista, roxa. Em 1974, ganhou do deputado Sant’Anna Filho o título de cidadã honorária do Rio de Janeiro. Merecia. Além da carioquice, era a hostess número 1 do Rio. De quem? Mick Jagger, Valentino, Michel Legrand, Rod Stewart, Bob Colacello, Marisa Berenson, Ursula Andress – então já famosérrima –, Alain Delon, Candice Bergen e, lógico, Elza Martinelli. As feijoadas do casal eram famosas, seja no apartamento de Ipanema ou no da Atlântica. No dia-a-dia, Odile usava muito jeans, camiseta. Basicona. À noite, nas badalações, se transformava numa estrela: “Ela era chique e sabia usar uma roupa como ninguém. Num vestido transparente que criei especialmente para ela, sugeri uma calcinha cor da pele, e ela respondeu: ‘Quem disse que Didile vai usar calcinhas?’”, conta o estilista Guilherme Guimarães.

Durante o casamento, uma vez ou outra a locomotiva se excedia em alguma festa, mas Paulo segurava a onda . Era o contraponto. Em Nova York, acompanhada do amigo Julio Rego, foram a um bar gay. Depois de minutos, subiu numa mesa e começou a dançar. Saiu de lá ovacionada e carregada pela turma. Odile era pura alegria, energia e humor.

Em fevereiro de 80, Frank Sinatra veio cantar no Brasil. Só ela e um pequeno grupo foram convidados para jantar com o cantor. Odile era internacional, até dizer chega! Sinatra era outro que a adorava.

Nos meados dos 80 uma bomba estoura: sete anos depois estava desfeito um dos casais mais charmosos e bonitos do hi carioca. Paulo começou a ser desatento com sua loura – assim que a chamava – e outra mulher, mais jovem, socialite que às vezes se fazia de modelo, apareceu em sua vida. A separação foi inevitável. O buraco no coração e na vida de Odile também.

Queda livre

Depois da separação ficou perdida, não sabia o que fazer, pensou inclusive em voltar a atuar, ligou até para sua amiga Ursula Andress. Não rolou nenhuma fita no cinema, mas cenas desagradáveis, sim. De montão.

No réveillon de 80, depois de algumas doses a mais, na casa do empresário Hélio Paulo Ferraz, conseguiu se desentender com metade dos convidados. No Chico’s Bar, na Lagoa, subiu no piano e começou a dançar can-can, sem calcinhas. No Regine’s, fez xixi na frente de todos, num balde de gelo e lá mesmo, numa outra balada, foi contida pelos amigos na tentativa de fazer um strip-tease. Já no Maxim’s, em Paris, levantou a saia e gritou: “Quem quer ver o bumbum de Didile?”

Mesmo assim continuava deslumbrante, cortou os cabelos curtinhos, tanto que em 1981 uma revista masculina a trazia abrindo o ranking das colunáveis mais sexies do Brasil. Na mesma lista, Charlene Shorto.

A locomotiva continuava a se perder dos trilhos e em ritmo acelerado. Aceleradíssimo. As pessoas começaram a se afastar, mais e mais – pessoas que ela antes recebia de coração e braços abertos, em casa. Virou persona non grata.

Menos três escudeiras: Kiki Garavaglia, Marilu Pitanguy e Gisela Amaral. Essas sabiam bem – muito bem – o que estava passando no coração da amiga. Mesmo com todos os escândalos, ela foi escolhida como cover girl da M. Chandon no Brasil.
E não é que, de repente, em 1982, Odile surge acompanhada de Luiz Carlos Marinho, irmão de Paulo, seu ex-marido? Seria para ter um pouco do calor de um Marinho mais próximo dela? Dizem que talvez.

Uma coisa é fato: quem via o casal, achava que não tinha nada a ver. Porém, foi ele quem apresentou uma pequena cidade serrana a ela: Visconde de Mauá. Foi lá que ela começou a construir uma grande casa, no Vale do Pavão. O romance com Luiz Carlos era tumultuado, brigas em público. Romperam.

Odile continuou aprontando. Uma locomotiva completamente desgovernada. Em 1985, conheceu o músico James Moss, que veio para o Rock in Rio. Cabeludo, 16 anos mais novo, tudo levava a crer que tinham juntado a fome com a vontade de comer, de beber e tudo mais.

Subiram a serra e foram viver em Mauá. Lá, no primeiro ano, ela se jogou nos alambiques de pinga e consta que chegou a desfilar nua sobre um carro num carnaval. Muita loucura para a pacata cidade alternativa. Depois, sumiram. Odile ficava em casa. Poucos, pouquíssimos amigos iam visitá-los.

Em 1986, casou-se no religioso no Maine e depois num cartório carioca. Mais tarde ela passaria – e revelava sem pudor – pelas mãos de Pitanguy. A amiga fiel Kiki sempre ao lado, na sala de espera.

“Quando eu e Jim nos conhecemos ainda fiz um ano de besteiras. Lembro-me que a última foi em Paris. Cheguei de manhã e já comecei bebendo kir royal, meu drinque preferido. Fui convidada para uma festa no Castel e aprontei tanto que tive que ser retirada. Paramos juntos de beber. Eu tinha pesadelos e consegui isso sem me internar”, disse ela ao jornal O Globo.

Foi o marido – homem totalmente do bem – que incentivou Odile a pintar. Ivo e Marilu Pitanguy também. Montaram no terreno do sítio uma casa de chá – sim ela chegou a botar a mão na massa. Em abril de 1997 anunciava-se que Odile estava colocando sua propriedade à venda. Mudaram-se para New Hampshire, onde atualmente moram numa confortável casa de campo. Em 2003, surpresa: Odile manda para a colunista Hildegard Angel uma foto dela de biquíni de oncinha, com mais de 60, corpão, tudo em cima e feliz. Bem feliz.

Nos últimos anos leva uma vida modesta, na propriedade em que residem. Há três anos não vai mais a Paris, até então nunca tinha deixado de ir. Encarou uma doença séria no fígado – nada que uma locomotiva não ultrapasse –, emagreceu muito, voltou a engordar, James sempre ao lado. Hoje ela passeia todos o dias ao redor da casa, lê muito, tudo o que nunca leu na vida, bebe apenas uma taça de vinho e se recusa a falar com a imprensa – seja qual for. Manda, porém, um recado pela amiga fiel Kiki Garavaglia, com exclusividade para esta revista: “Agradeço muito, mas não posso abrir exceção. Mande dizer que a bundinha de Didile continua a mesma.” Hoje ela assina as telas apenas como Odile Berard.

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Redação do Jornal Grande Bahia
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