Baioneta não é voto, e cachorro não é urna

Ulysses Guimarães: baioneta não é voto, e cachorro não é urna
Ulysses Guimarães: baioneta não é voto, e cachorro não é urna

Estávamos lá, nesta emblemática data —13 de maio, dia da libertação —, jovens idealistas que lutavam contra o Golpe, a injustiça e a tirania dos generais. O inimigo hoje veste paletó e gravata. O Golpe e a injustiça são os mesmos. A tirania não passará!

Jorginho Ramos, jornalista cachoeirano, relembra desses fatos históricos, que se avivaram na minha memória.

Há 38 anos em Salvador Ulysses Guimarães enfrentou cães e baionetas da Polícia Militar para defender a democracia. Por Jorginho Ramos

No momento em que o Brasil vive um retrocesso muito grave em sua trajetória institucional e democrática, cabe lembrar de um fato histórico muito importante, para que possamos nele nos inspirar como exemplo de resistência. Era o ano de 1978 e vivíamos o auge da Ditadura Militar implantada em 1964 com a deposição (olha aí, um abraço Dilma Rousseff…) do Presidente João Goulart, Jango.

Neste 13 de maio de 2016 completou-se 38 anos desse que é um dos episódios mais simbólicos da luta contra a Ditadura Militar. E foi em Salvador. Naquele sábado, o presidente nacional do MDB e principal voz da Oposição, o deputado federal Ulysses Guimarães, enfrentou os cães e as baionetas da Polícia Militar baiana, rompeu o cerco e entrou na marra na sede estadual do partido, que ficava no Campo Grande.

A Polícia Militar, atendendo a uma determinação dos órgãos nacionais de segurança, proibiu a realização do Ato Político organizado pelo MDB baiano para ser realizado na própria sede do partido.

Acompanhado por Tancredo Neves (por ironia, o neto Aécio Neves não herdou-lhe a vocação democrática), Rômulo Almeida, Saturnino Braga e o ex-deputado Nestor Duarte, Ulysses , dedo em riste, avança contra os soldados e grita:

— Respeitem o presidente da Oposição!

E ante as armas apontadas contra si, com um gesto de mão empurra uma baioneta e avança. Paralisados diante daquele inesperado gesto de coragem, a tropa, atônita, nada pode fazer para impedir o acesso de dezenas de pessoas que seguem Ulysses Guimarães, aos gritos de

– Abaixo a Ditadura!

Eis um relato posterior, feito por Mora Guimarães, mulher de Ulysses :

— Depois de romper o cerco policial, Ulysses, Tancredo e outros bravos heróis do MDB conseguiram entrar na sede e, de uma janela, fizeram discursos inflamados para uma plateia de soldados com armas apontadas em suas direções.

Continua:

— Meu marido — só de lembrar, eu me arrepio toda —, com camisa rasgada e molhada de suor, posta-se na janela e discursa à PM da Bahia. A voz de Ulysses ecoa pela praça, provocando um impressionante silêncio naquela balbúrdia toda. Só se ouviam os latidos dos cães.

— Soldados da minha pátria!

Assim clamou solenemente o líder da Oposição brasileira, dirigindo-se à tropa, como se fosse seu comandante. E prosseguiu:

— Soldados da minha pátria que foram aqui convocados — contra a consciência de vocês, que são do povo — para impedir que o povo aqui chegasse. Mas agora vocês nos ouvem como assistência e são juízes de que quem defende vocês somos nós, porque a verdadeira autoridade não vem dos homens, vem da lei, que é igual para todos e não pode discriminar os brasileiros. Enquanto ouvíamos as vozes livres que aqui se pronunciaram, ouvíamos também o ladrar dos cães policiais lá fora! O que se falou aqui é a linguagem da nossa História, dos nossos Tiradentes, dos nossos mortos e dos nossos cassados, em cuja frente está o exemplo extraordinário de Alencar Furtado. O ladrar, essa manifestação zoológica, é do arbítrio, do autoritarismo que haveremos de vencer, não nós do MDB, mas o povo brasileiro. Meus amigos, foi uma violência, foi! Mas uma violência estúpida, inútil e imbecil. Saibam que baioneta não é voto, e cachorro não é urna.


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