Artistas visuais negros do Recôncavo da Bahia ganham destaque no projeto ‘Traço Negro’

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Através de live, a ação concebida pela multiartista Tina Melo, serão lançados Documentário, E-book e Exposição online.
Através de live, a ação concebida pela multiartista Tina Melo, serão lançados Documentário, E-book e Exposição online.

Período destacado de ‘Traço Negro – Negros Nas Artes Visuais do Recôncavo da Bahia’, livro cartográfico que conta vida e obra de artistas negros das duas cidades que margeiam as águas douradas do Rio Paraguaçu, berço e foco da pesquisa de mestrado da conterrânea e multiartista Tina Melo. Escrito em dois tempos, entre encruzilhadas e casarios, este escrito ganha formato e-book e será lançado pela Duna Editora, dia 13 de agosto de 2022, através de live no youtube do projeto.

Em ponte, conforme gira ancestral, Tina Melo lança também Documentário e Exposição On-line, de título homônimo. Todos os três produtos estarão disponíveis no sítio digital. No dia 13 de agosto, a partir das 16 horas, o evento totalmente virtual contará com os artistas e equipe técnica do projeto. O público/espectador poderá assistir a primeira exibição do filme e realizar uma visitação guiada à galeria virtual, além de bater um papo com Tina Melo e convidados.

Tracejados

O projeto Traço Negro seus produtos são conquistas de uma pesquisa de título homônimo iniciada em 2014 por Tina Melo, no Mestrado Profissional em História da África, Diáspora e dos Povos Indígenas – concluído em 2016 -, na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia em Cachoeira, que visa refletir sobre a invisibilização de artistas visuais negros em Cachoeira e São Félix, apresentando possibilidades de afirmação dessas histórias de vida e de produção.

O livro, o documentário e a exposição mergulham na trajetória desses homens e mulheres. A idéia é que cada produto do projeto possa apresentar um aspecto diferente da trajetória de vida e da arte dessas pessoas, de maneira poética e afirmativa. No livro, com subtítulo Narrativas Negras nas Artea Visuais de Cachoeira e São Félix, que ficará disponível para download por tempo indeterminado no site Traço Negro, traz uma linguagem poética que flui numa abordagem de inspiração biográfica, sem pretensões descritivas, que constrói imagens de vida e trabalho, em narrativas espiralares.

O documentário, com título TRAÇO NEGRO, um filme de depoimentos escreviventes, com falas em primeira pessoa, apresenta traços, caminhos e memórias desses artistas, suas inspirações, anseios, motivações e percepções do território, do fazer artístico, da vida e do olhar para o mundo. Um retrato descritivo a partir do lugar de e com a fala. Poderá ser assistido até 20 de agosto no Youtube e site do Traço Negro.

Já a exposição virtual, subtítulo Outras Histórias das Margens do Rio também disponível para visitação por tempo indeterminado, apresenta um pequeno recorte dessa vasta produção, que busca mais do que determinar um estilo ou tipificação de conceitos, mas sim apresentar a diversidade e complexidade de formas e ideias propostas por cada artista, em suas variadas linguagens. Esta vem num formato imersivo diferente.

Muito nos acostumamos a exposições presenciais, mas a exposição Traço Negro foi adaptada para o virtual, através da plataforma Artsteps, que possibilita a aproximação do público para a fruição das obras, sobretudo as esculturas, que configuram a maioria das peças expostas. “Escolhemos um software que possibilita a criação de um ambiente em três dimensões, que simula um espaço de galeria convencional, de modo que a pessoa que acessa pode percorrer toda a área com livre escolha por onde começar ou terminar a visitação, e a partir do seu toque na tela, aproximar-se de obras e visualizá-las a partir de outro ângulo”, explica Amanda Nascimento, webdesigner responsável pela montagem da plataforma.

Pluralidade

Aletícia Bertosa, Áydano Jr., Billy Oliveira, Biro, Diego Araújo, Deisiane Barbosa, Florisvaldo Ribeiro (Flor do Barro), Carlos Alberto do Nascimento (Fory), Gilberto Filho, Renato Kiguera, Celestino Gama (Louco Filho), Almir Oliveira (Mimo) e seu filho Ronald Oliveira, Eraldo Souza Jr. (Pirulito), Rita de Cássia, Jonilson Rodrigues (Sininho) e Tina Melo. São estes us artistes de Traço Negro, que levam no olhar, no toque, na voz e no corpo, a memória viva de antepassados atlânticos.

Ao todo, 17 artistas compõem este primeiro mapeamento Traço Negro. Há um décimo oitavo. No processos criativo desse traço visual recôncavo, num mergulho nas águas negras e douradas, em 2017, J. Cardoso, o Doidão, fez sua passagem para o plano ancestral. O grande escultor cachoeirano deixou um imenso legado, contribuição inquestionável para a produção escultórica da Bahia e do Brasil. Hoje, uma lembrança alegre, um nome a ser guardado e ao qual o projeto rende uma homenagem.

Encruzilhadas

Tina Melo conta que todo o material foi desenvolvido a partir de encontros, conversas, diálogos e trocas com os artistas, “processo intenso e fecundo, que alimenta a alma, o imaginário e as ideias”. As primeiras entrevistas que deram origem ao livro foram feitas entre 2016 e 2017 em Cachoeira, quando visitou o ateliê ou residência de cada artista e gravava o áudio da conversa, a fim de investigar um pouco sobre suas trajetórias e processos criativos. Desta documentação nasce uma primeira proposta do livro que foi apresentada à banca de defesa do mestrado, mas sem publicação.

Contente com o resultado, persistiu no desejo de desenvolver um projeto maior e poder publicar o material. Escreve no Edital Setorial de Artes Visuais, em 2019, aprovado. Após um longo período de aguardo, devido a pandemia do Covid-19, volta a Cachoeira e São Félix para realizar novas entrevistas em maio de 2022. 13 dias imersivos pelas encruzilhadas destas duas cidades que margeiam o Paraguaçu, com uma equipe de audiovisual e produção, para atualizar informações e finalmente conseguir um registro audiovisual para execução do documentário e registros fotográficos para livro e exposição.

Esculpir, pintar, escrever, performar, pontilhar, desenhar, bordar, costurar, restaurar, olariar, muitas outras são artes que compõem os artistas do Recôncavo da Bahia. Manuseios que influenciam a artista que é Tina Melo, que a levam a formar-se em artes, em produzir suas obras em vários campos artísticos e a fazem sempre retornar à cidade que margeia o Paraguaçu. “Não existe uma única palavra ou conceito que possa definir essa produção, creio que o mais importante é considerar sua diversidade”, aponta.

Em sua diversidade, Traço Negro faz um recorte na escultura e pintura, mas também a performance. “Se pensarmos nos campos artísticos de maneira mais abrangente, teríamos muitas outras linguagens e produções a acrescentar, mas este projeto não se encerra e nem deseja determinar todas as possibilidades para essa arte. O que posso declarar é que us artistas do Recôncavo da Bahia encontram formas de fabular sua gente, de reinventar o cotidiano e escrever a memória, e que reconhecem a importância de saber olhar o passado para tecer futuros”.

Tina Melo – A Inquieta

Traço Negro é resultado de uma inquietação a partir da falta de visibilidade de estudos que registrem e analisem a produção negra de arte. Traço Negro é um tipo de resposta, ou caminho que apresenta possibilidades de preenchimento de uma lacuna de referenciais negros nas artes visuais sentida pela Tina Melo. “Terminei a graduação em artes em 2014 e naquela época pouco se ouvia falar da produção negra na acadêmia. Porém, cresci em Cachoeira e já conhecia e convivia com obras, artistas e espaços em que essa arte se mostrava viva e pulsante”, conta Melo, que assume a curadoria e direção da exposição e documentário, respectivamente.

No traço que percorre para sua formação percebe que o problema estava na visibilidade, nos registros e na forma de reconhecer e abordar essa produção, que há muito é desvalorizada, distantes dos livros e registros mais conhecidos, e do grande mercado. Desta inquietude nasce a pesquisa de mestrado citada acima, que investiga os mecanismos de invisibilização e possibilidades de um contra movimento que pudesse apresentar o protagonismo desses artistas negros, suas histórias e poéticas.

Quando Tina Melo conta que vivenciou a arte negra do Recôncavo desde a infância, ela quer dizer que viveu mesmo, dentro de casa. “Cachoeira me formou como artista, educou meu olhar desde muito cedo. A convivência doméstica com minha avó bonequeira e minha mãe costureira, que despertaram em mim o gosto pelo desenho. Nas ruas, as grandes esculturas nas portas dos ateliês, que fazem parte do cotidiano de quem transita ali. As experimentações da Bienal do Recôncavo, os encontros com artistas no Pouso da Palavra, as exposições que realizávamos de maneira independente, a efervescência cultural durante as festas da Boa Morte e D’Ajuda, as trocas de referências, tudo começou ali. Sou atravessada por essa terra e pela arte que dela emana, e sinto orgulho de fazer parte dessa história”.

Traço Negro não se encerra aqui, é tracejar que traz consigo ruas artísticas encruzilhadas e negros de Cachoeira e São Félix, a reafirmação do povo preto pela e com as artes visuais. O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda, Fundação Cultural do Estado da Bahia e Secretaria de Cultura da Bahia.

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