Tributo ‘Sans Adieu’ à embaixadora Marcela Nicodemos | Por Miriam de Almeida Souza

Publicidade

Banner da Gujão: Campanha com o tema ‘Tudo fresquinho é melhor’, veiculada em 3 de junho de 2022.
No registro de 18 de março de 2014, em Kigali, a embaixadora do Brasil Marcela Maria Nicodemos apresentava as credenciais à Paul Kagame, presidente de Ruanda.
No registro de 18 de março de 2014, em Kigali, a embaixadora do Brasil Marcela Maria Nicodemos apresentava as credenciais à Paul Kagame, presidente de Ruanda.

É motivo de orgulho, a missão honrosa de, na condição de Decana do Corpo Consular, neste Estado, prestar, neste momento triste, homenagem à queridíssima Embaixadora Marcela Nicodemos. Tivemos o privilégio de conviver com um dos faróis morais mais reluzentes do Serviço Exterior Brasileiro, aqui, nesta cidade do Salvador, primeira capital do Brasil colonial, onde Marcela encerrou sua brilhante carreira.

Marcela exerceu a função de Chefe da Representação do Itamaraty na Bahia (Erebahia) por pouco mais de quatro anos. Durante esse tempo, conquistou o respeito e admiração de todos os que tiveram o prazer e o privilégio de com ela conviver. Em primeiro lugar, seus assessores diretos no Erebahia, o Conselheiro André Misi e o Primeiro Secretário Amintas Silva, e os estagiários daquele escritório, com os quais fazia questão de manter uma relação absolutamente horizontal. Os representantes do Governo do Estado, da Prefeitura de Salvador, do Corpo Consular na Bahia, da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), da Associação Comercial da Bahia, da Universidade Federal da Bahia, das demais universidades desta cidade, da Fundação Pierre Verger, do Projeto Neojibá, do Olodum, do Ilê-Ayê e de muitas outras instituições e pessoas com quem manteve relações profissionais, que, em alguns casos, se tornaram de amizade.

Em sua belíssima mensagem, “Um Adeus a Marcela”, o diplomata Benoni Belli, e grande amigo de Marcela, escreve o seguinte:

— “Partiu prematuramente, no dia 9 de maio, a minha querida amiga Marcela Nicodemos, que estava chefiando o Escritório do tamaraty na Bahia. Marcela ingressou na carreira diplomática em 1976 e teve uma trajetória diversificada. Discreta, sempre evitou os holofotes. Mas quem a conheceu sabe que se tratava de uma diplomata excepcional, altamente capacitada e que deu contribuição decisiva para a defesa do interesse nacional por onde passou, sem nunca abrir mão de seus valores humanistas e do compromisso com a justiça social. Amiga leal, mãe amorosa, esposa dedicada, deixará muitas saudades. Perda irreparável para familiares e amigos. Perda irreparável para o Brasil.

— Marcela certamente merece ser mais conhecida, inclusive entre as novas gerações do Itamaraty. Ela serviu em diferentes continentes (Américas, Europa, África), atuou nas áreas política e econômica, chefiou setores de promoção comercial e administração em postos no exterior, mas foi sobretudo sua atuação nos foros multilaterais que a projetou. Ela, de fato, se sentia particularmente à vontade no multilateral. Negociadora habilidosa, todos a queriam ter como aliada. Desempenhou papel fundamental na área ambiental, atuando como representante governamental e perita em temas relacionados à Convenção sobre Diversidade Biológica e Protocolo de Montreal.

— Além disso, foi sem sombra de dúvidas a maior autoridade sobre direitos da mulher no Itamaraty. Chefiou por diversas ocasiões a delegação brasileira às sessões da Comissão sobre o Status da Mulher da ONU (CSW), escreveu uma tese pioneira e corajosa do Curso de Altos Estudos (CAE) em 2005 intitulada “As Nações Unidas e a Promoção dos Direitos da Mulher: retórica ou realidade?”, atuou como delegada na área de direitos humanos, assuntos sociais e assistência humanitária na Missão do Brasil junto à ONU. Mais recentemente, chefiou as Embaixadas do Brasil na Armênia e no Quênia. Em Nairóbi, além de cuidar das relações bilaterais, foi representante junto ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e ao Programa das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos (ONU-Habitat).

— Marcela integrou a equipe que, sob liderança de José Augusto Lindgren Alves, deu início ao Departamento de Direitos Humanos e Temas Sociais, em 1995. Era uma época de grandes passos para a plena inserção do Brasil nos sistemas interamericano e universal de direitos humanos. Marcela foi figura de destaque, chefiando a Divisão de Temas Sociais. Eu a conheci naquela época e pude constatar em primeira mão sua competência e brilhantismo. Em 1996, participei como Terceiro Secretário da delegação brasileira à conferência da ONU sobre assentamentos humanos em Istambul. Marcela foi um dos pilares da organização da participação brasileira na conferência e peça fundamental nas negociações. Foi impressionante o reconhecimento que ela angariou junto a especialistas, acadêmicos, membros da sociedade civil, representantes eleitos e delegados de outros países. Ver Marcela atuando foi para mim uma grande escola de diplomacia multilateral.

— Tive ainda o privilégio de trabalhar ao lado dela entre 1999 e 2001 em Nova York. Atuávamos na mesma área, a Terceira Comissão, que é encarregada dos temas sociais e de direitos humanos. Marcela acabou se voltando mais para direitos da mulher e direitos da criança, entre outros temas, mas seu conhecimento extrapolava em muito o seu portfólio. Era uma referência obrigatória não apenas para os delegados de outros países, mas também para o secretariado da ONU, que não ousava escrever relatórios sem ao menos ouvir o que Marcela tinha a dizer. Certa vez, eu a apelidei de Rainha da Terceira Comissão, apelido que ela rejeitava por modéstia, mas que refletia o grau de projeção e reconhecimento que adquiriu junto a colegas na Missão do Brasil, diplomatas estrangeiros, burocratas da ONU, integrantes do governo brasileiro e organizações não-governamentais.

— Marcela era uma amiga muito especial. Trocávamos mensagens,rtigos interessantes, dicas de livros. Nunca deixei de aprender com as suas observações e análises geniais, ditas como de hábito em tom de simplicidade, de maneira despretensiosa. Em diversos momentos, contei com seus conselhos, inclusive quando tive de tomar decisões importantes sobre rumos a seguir. Generosa, sempre me elogiava além da conta e do razoável. Chorei quando despedi Marcela em Nova York, no dia de sua partida do posto para outra missão no exterior. Choro hoje com essa partida definitiva, irremediável. Mas a sua memória e seu exemplo permanecerão iluminando meu caminho, bem como de tantos outros que tiveram a sorte de com ela conviver. E, espero sinceramente, também de novas gerações de diplomatas, em particular mulheres, que devem ter nela uma fonte de inspiração e modelo de dedicação ao país. Um abraço solidário a Mario, seu companheiro de toda a vida, aos filhos Marcelo e Rodrigo, à nora Moraima e aos netos Sofia e Bruno.”

Na vida nos deparamos com pessoas comuns que se fazem especiais, não apenas por virtudes admiráveis. Especiais, também, por serem capazes de conquistar o outro com humildade. Assim é que uma legião de amigos e admiradores guardarão, para sempre, em suas lembranças, o exemplo de Marcela Nicodemos, extraordinária diplomata e cidadã brasileira, sempre agindo com espírito e compromisso cívico, em defesa de um Brasil mais socialmente justo.

Deste modo, os integrantes do Corpo Consular na Bahia, incluindo-se, também, a ex-Consul de Portugal em Salvador, atualmente exercendo funções em Bruxelas, Natalie Viegas, todos consternados nos solidarizamos com familiares e amigos, pela perda prematura da querida Embaixadora MARCELA NICODEMOS. Nesta oportunidade, então, nos unimos, fraternalmente, à família e aos amigos para oferecer amparo neste triste momento.

Parafraseando a bela mensagem, “Um Adeus a Marcela”, de Benoni Belli, rendemos “Tributo, Sans Adieu, a Marcela.”

Miriam de Almeida Souza, cônsul honorária da Grécia em Salvador, decana do Corpo Consular

Salvador, Bahia, 13 de maio de 2022.

Leia +

1ª Câmara Criminal da 2ª Turma do TJBA emite Moção de Pesar em memória da diplomata Marcela Maria Nicodemos, chefe do Itamaraty na Bahia

Banner do JGB: Campanha ‘Siga a página do Jornal Grande Bahia no Google Notícias’.
Sobre Redação do Jornal Grande Bahia 121811 Artigos
O Jornal Grande Bahia (JGB) é um portal de notícias com sede em Feira de Santana e abrange as Regiões Metropolitanas de Feira de Santana e Salvador. Para enviar informações, fazer denúncias ou comunicar erros do jornal mantenha contato através do e-mail: editor@jornalgrandebahia.com.br.