Por que Turquia se opõe à entrada de Finlândia e Suécia na OTAN e o que Rússia tem a ver com isso?

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Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan e presidente dos EUA, Joe Biden.
Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan e presidente dos EUA, Joe Biden.

As objeções turcas à entrada da Suécia e Finlândia na OTAN levaram a uma semana de intensa atividade diplomática em Washington, Ancara, Estocolmo e Helsinque. A Sputnik explica por que a Turquia não quer os escandinavos na aliança militar ocidental.

Nesta quarta-feira (18/05/2022), durante reunião de embaixadores da OTAN, a Turquia bloqueou o debate sobre a adesão da Finlândia e Suécia na aliança militar do Atlântico Norte, relatou o jornal Financial Times. De acordo com o secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg, a posição turca pode atrasar o processo de adesão em uma ou duas semanas.

Membro da OTAN desde 1952, a Turquia alega que a Finlândia e Suécia garantem abrigo a organizações consideradas terroristas por Ancara, como o Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK na sigla em curdo) e o movimento Gulen.

“Nós explicamos aos países-membros da OTAN […] que há apoio por parte da Suécia e Finlândia a organizações terroristas. Elucidamos nossa posição abertamente, em especial em relação ao envio de armas por parte da Suécia”, disse o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, a repórteres neste domingo (15).

De acordo com a agência turca Anadolu, sistemas antitanque de fabricação sueca AT-4 foram encontrados em poder de grupos curdos durante operações antiterroristas conduzidas por Ancara entre 2017 e 2021.

“As declarações do ministro das Relações Exteriores da Suécia até agora não têm sido construtivas, mas provocadoras”, disse Cavusoglu.

O imbróglio gerou intensa atividade diplomática entre Turquia, EUA, Suécia, Finlândia e OTAN nesta semana.

Na quarta-feira (18), o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, se reuniu com seu homólogo turco às margens de um encontro das Nações Unidas em Nova York.

Apesar de o diálogo ter sido classificado como “extremamente positivo” por Cavusoglu, a declaração conjunta emitida pelas partes não cita a entrada da Suécia e Finlândia na OTAN.

No mesmo dia, o ministro da Defesa da Suécia, Peter Hultqvist, se encontrou com o seu homólogo norte-americano, Lloyd Austin, no Pentágono, para discutir a adesão de Estocolmo ao bloco.

“Precisamos lembrar que essas são Forças Armadas que não são estranhas para nós”, disse o porta-voz do Pentágono, John Kirby, após o encontro dos ministros da Defesa. “Nós os conhecemos bem, operamos e conduzimos exercícios militares com eles.”

Nesta quarta-feira (18), o conselheiro de Defesa Nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, se mostrou otimista quanto à possibilidade de um acordo entre Finlândia, Suécia e Turquia.

“A Finlândia e a Suécia estão trabalhando diretamente com a Turquia para isso, mas nós também estamos em contato com os turcos para facilitar”, disse Sullivan.

Movimentos curdos

Para o pesquisador em Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) Jonuel Gonçalves, o momento é propício para a Turquia minar o apoio de países europeus aos movimentos pró-curdos.

“O problema do governo turco não é a entrada de mais dois países na OTAN, mas sim a entrada de um país que dá apoio a um grande adversário interno desse governo, que é o movimento curdo”, disse Jonuel Gonçalves. “A impressão que ficamos é que o governo turco está aproveitando a situação para negociar através da OTAN uma redução desse apoio da Suécia aos movimentos curdos.”

O pesquisador aponta que o Partido Social Democrata sueco tradicionalmente fornece apoio a grupos que buscam a autodeterminação ou lutam em favor da democracia.

“O Partido Social Democrata sueco tem apoiado os curdos não só na Turquia, mas também no Iraque e na Síria”, aponta o pesquisador.

De fato, em 27 de abril deste ano, por exemplo, membros do partido sueco se reuniram com apoiadores do PKK para debater a possibilidade de retirar a organização curda da lista de movimentos terroristas da União Europeia.

Para Gonçalves, será difícil garantir um recuo do apoio aos curdos por parte das forças políticas suecas.

“Pelo que conheço do Partido Social Democrata sueco, não acho que eles vão abrir mão de nada. Para eles, estes assuntos são questões de princípio”, considerou Gonçalves.

De acordo com o jornal turco Sabah, Ancara teria elencado uma série de demandas aos países escandinavos, como designar os PKK como uma organização terrorista, interromper apoio financeiro e encerrar atividades do PKK e do movimento Gulen em território finlandês e sueco.

Posição no Ocidente

Na quarta-feira (18), o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, expressou ressentimento em relação a seus aliados militares, que não seriam sensíveis aos interesses e demandas turcos.

“Esperamos que nossos aliados entendam, respeitem e apoiem as nossas sensibilidades. Temos uma sensibilidade em relação à proteção de nossas fronteiras do terrorismo. Nenhum de nossos aliados tem demonstrado o respeito que esperávamos em relação a essas sensibilidades”, disse Erdogan.

Para Gonçalves, além da questão curda, a Turquia tem interesse de renegociar a sua posição no Ocidente.

“A Turquia quer renegociar a sua posição em relação ao Ocidente de forma geral. Quer mais destaque e acredita que pode recuperar a sua função histórica”, apontou o pesquisador da UFF.

De acordo com a professora do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) Monique Sochaczewski, o contexto geopolítico atual devolve à Turquia a “relevância internacional que ela tinha perdido há muito tempo”.

“O primeiro intuito é fazer barulho, chamar a atenção para essa relevância internacional”, revelou a especialista. “Além disso, a Turquia quer deixar a sua marca, já que se ressente muito de dificuldades para aderir à União Europeia.”

Ancara tem várias arestas a aparar com seus aliados ocidentais, e em particular com os EUA, que impuseram sanções contra Ancara em função da compra de sistemas de defesa antiaérea S-400.

De acordo com a agência Bloomberg, a Turquia quer ser readmitida no programa avançado de operação de caças F-35 da OTAN, da qual foi retirada em função da compra dos S-400. Os turcos também demandam a entrega dos caças F-35 norte-americanos pelos quais já pagaram, mas nunca receberam.

“Por incrível que pareça, eu acho mais fácil garantir maior margem de manobra para a Turquia nos acordos ocidentais, sejam econômicos, políticos ou militares, do que garantir que a Suécia recue em relação ao apoio a movimentos curdos”, considerou Gonçalves.

Fator Rússia

Nesta segunda-feira (16), o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, disse que a estrutura de segurança europeia será prejudicada com a entrada da Finlândia e Suécia na OTAN.

“Em Washington, em Bruxelas e outras capitais da OTAN […] eles não devem ter nenhuma ilusão de que a gente vai simplesmente aceitar isso calados”, disse Ryabkov a repórteres. “O nível total de tensões militares vai aumentar e haverá menos previsibilidade na região.”

Gonçalves, autor do livro ‘”As Imposturas Identitárias”, aponta que a resistência turca em relação à entrada dos escandinavos na OTAN pode enviar um sinal positivo para Moscou e reforçar sua posição de mediadora no conflito ucraniano.

“A Turquia pode estar fazendo um gesto em direção à Rússia, dizendo que não assina sem questionamentos a ampliação da OTAN”, considerou Gonçalves.

Sochaczewski concorda, e diz que “esse tipo de movimento mostra alguma reticência que possa ser entendida pela Rússia como algo positivo”.

Nesta quinta-feira (19), a presidente do Senado russo, Valentina Matvienko, declarou que a reação russa à nova expansão da aliança militar ocidental vai depender das armas a serem instaladas em Estocolmo e Helsinque.

“A resposta das Forças Armadas russas será proporcional e de acordo com a presença da OTAN nesses países, com quais armas serão instaladas lá. Mas eu posso te garantir que a segurança russa será assegurada”, disse Matvienko ao jornal Izvestia.

Público interno

Apesar dos fatores geopolíticos estarem em alta, Monique Sochaczewski nota que retórica das autoridades turcas pode estar voltada para o público doméstico.

“Acho que esse barulho todo tem o intuito de desviar a atenção da grande crise econômica e social que existe dentro da Turquia nos últimos tempos”, declarou a especialista.

Segundo ela, “a partir do momento que você fala grosso e tenta chamar para si um papel importante”, acaba seguindo “aquele velho esquema de desviar a atenção das dificuldades internas”.

Homens negociam preço em mercado em Istanbul, na TurquiaAlém disso, a luta contra o movimento pela independência curdo pode consolidar o apoio do eleitorado nacionalista ao presidente Recep Tayyip Erdogan, que enfrenta eleições no ano que vem.

Apesar da barganha turca ser complexa, ela é natural e “faz parte do jogo político normal”, acredita Gonçalves. Sochaczewski concorda, lembrando que a Turquia tem “voz forte na OTAN e deve fazer uso dela”.

Nesta quarta-feira (18), os chanceleres da Turquia e EUA se reuniram em Nova York para debater as objeções turcas à entrada da Finlândia e Suécia na OTAN. Nesta quinta-feira (19), o presidente dos EUA, Joe Biden, se reunirá com seu homólogo finlandês, Sauli Niinisto, e com a primeira-ministra sueca, Magdalena Andersson, em Washington, para dar continuidade às negociações sobre a adesão da Finlândia e Suécia à OTAN.

*Com informações da Sputnik News.

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