Tragédia de Petrópolis ganha mais um capítulo; Há pessoas soterradas pedindo por socorro

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Equipes buscam quatro desaparecidos em Petrópolis.
Equipes buscam quatro desaparecidos em Petrópolis.

Cruzes brancas boiavam em uma violenta torrente de água, uma espécie de rio furioso que se formou no que costuma ser uma rua quando a cidade de Petrópolis (Região Serrana do Rio) é poupada das fortes chuvas e enchentes, o que não ocorreu na noite deste domingo (20/03/2022).

As cenas divulgadas pelas redes sociais eram chocantes: o que era para ser uma homenagem aos 233 mortos pela tragédia que castigou a cidade em 22 de fevereiro acabou sendo uma mórbida revisitação do desespero de uma cidade em luto e penalizada por fortes temporais seguidos de violentas inundações, desabamentos e deslizamentos.

Até o começo da tarde desta segunda-feira (21), bombeiros contabilizavam cinco mortos e outras quatro pessoas procuradas – somadas às que ainda são consideradas desaparecidas desde 15 de fevereiro, há um total de oito desaparecidos em decorrência das chuvas.

O número pode subir ainda mais. A previsão é que as chuvas se estendam até a madrugada de hoje (21).

Rua Teresa sob risco

A situação é desoladora, segundo relataram moradores da cidade turística erigida na época do Brasil Imperial de Dom Pedro I, após ele se encantar com a amenidade climática que contrastava com o Rio de Janeiro, então capital do país.

“Há pessoas presas dentro de casas soterradas, pedindo por socorro. Quase não há bombeiros ou Defesa Civil. São os petropolitanos que estão se ajudando nesse resgate”, narrou a dona de casa Elaine Pereira, de 36 anos,.

Segundo ela, depois da forte tempestade que abateu o município novamente ontem (20), há mais de 500 pessoas desabrigadas.

Ponto famoso no Centro de Petrópolis, a Rua Teresa – via turística que abriga diversas lojas de vestuário – está sob risco de ser completamente destruída.

“Há muito deslizamento de terra, há pedras descendo na enxurrada das águas. Ali na rua Teresa tem uma pedra enorme que está sendo monitorada, aí a sirene foi acionada ontem duas vezes. Ela corre o risco de desabar. Aí já era. Acaba a rua Teresa. Estão pedindo para as pessoas desocuparem as casas na região. A coisa está tensa aqui em Petrópolis”, desabafou a moradora da cidade.

Política, resgate e mortes

A crítica aos políticos é algo que permeou o relato de todos os ouvidos pela Sputnik Brasil.

O prefeito da cidade, Rubens Bomtempo (PSB) teve os direitos políticos suspensos em 2019 por improbidade administrativa.

Eleito em 2020, só assumiu o posto em dezembro de 2021, após uma extensa batalha judicial. Bomtempo já foi prefeito da cidade em outros três mandatos.

“Acho que o prefeito deveria, no mínimo, desentupir os bueiros da cidade. Para algumas pessoas o Aluguel Social sequer saiu. Ainda há muita gente desabrigada depois da tragédia de 22 de fevereiro. O prefeito tem que se preocupar menos com os turistas e percorrer bairro a bairro para ter contato com a realidade das pessoas”, criticou a dona de casa.

Assustados, muitos dos residentes de Petrópolis revivem uma tragédia anunciada desde o último dia 15 de fevereiro, quando o mecânico José Roberto dos Reis, de 50 anos, perdeu sua filha, Roberta Ribeiro dos Reis, de 27, e sua neta Allana Ribeiro de Lima, de apenas 4 anos.

“Uma pedra de mais de cem toneladas rolou, arrastou e destruiu completamente a minha casa e eu perdi tudo o que mais importava na minha vida: minha filha e minha neta, que moravam em Teresópolis e estavam passando uns dias comigo”, lamentou ele.

“A sensação é de impotência. Não tem o que fazer, não tem para onde correr. Passou a eleição e nós somos esquecidos. Foram 13 dias de desespero para resgatar o corpo da minha neta soterrada. Já nessa chuva de fevereiro tive muitos problemas quanto ao resgate. Veja bem, é uma cidade de 250 mil habitantes que só possui duas ambulâncias”, revoltou-se ele.

‘Perdi tudo’

A costureira Daniele Santos, de 40 anos, diz que perdeu duas casas: uma no Bingen (bairro da Zona Oeste da cidade de Petrópolis), mas sem perder os artigos domésticos.

“A casa foi interditada, mas eu já estava morando no Alto da Serra há um ano, no lugar que é conhecido como Morro da Oficina. Ali eu perdi minha casa totalmente, e não era a minha casa, era alugada. Ali eu perdi tudo. Tudo o que eu consegui conquistar ao longo dessa caminhada de tentar uma vida nova em outro bairro. Perdi tudo o que eu conquistei. Graças a Deus eu não perdi a minha vida, nem meu pai, nem minha filha – que são as pessoas que moram comigo. Mas perdi um pouco da minha história. Um pedaço de história de um ano e três meses que eu perdi. O que consegui conquistar se foi”, relatou ela, com a voz embargada, à Sputnik Brasil.

Em seguida, emendou um lamento misturado com revolta e tristeza.

“Queria saber se nossa conversa vai ajudar em alguma coisa. Você não é a primeira a me entrevistar. E até hoje não tive resposta de nada. Estamos abandonados.”.

*Com informações de Marina Lang, da Agência Sputnik Brasil.

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Sobre Carlos Augusto 10094 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).