Operação secreta com patógenos de laboratórios biológicos militares dos EUA chegaram à Ucrânia; Governo da Rússia levanta suspeita de envolvimento do filho do presidente Joe Biden

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Presidente Joe Biden promete defender os interesses dos EUA e, na prática, atua em defesa dos interesses do filho Hunter Biden.
Presidente Joe Biden promete defender os interesses dos EUA e, na prática, atua em defesa dos interesses do filho Hunter Biden.

O Ministério da Defesa da Rússia revelou novas informações sobre os laboratórios biológicos financiados pelos Estados Unidos no leste da Ucrânia. A revelação tem ainda mais peso diante do fato de que uma companhia ligada ao centro de pesquisa de alto risco foi fundada por Hunter Biden, filho do presidente norte-americano, Joe Biden.

Uma operação de US$ 2,1 bilhões (cerca de R$ 9,96 bilhões) explorando vírus considerados perigosos em pelo menos 30 laboratórios — patrocinada pelo Pentágono e três empresas privadas: esse é o programa de laboratórios biológicos dos EUA. Operando em diversas regiões, o programa emprega civis sem o escrutínio do Congresso norte-americano e que podem passar ao largo das leis devido à falta de supervisão.

O programa teve a existência confirmada por ninguém menos que a subsecretária de Estado para Assuntos Políticos dos EUA, Victoria Nuland, durante audiência em um Comitê do Senado norte-americano, em 8 de março de 2022. Apesar disso, os principais órgãos de imprensa dos EUA trataram a questão como “conspiração”.

Operação secreta com vírus mortais

Os laboratórios biológicos são operados pelo programa militar norte-americano da Agência de Defesa para a Redução de Ameaças (DTRA, na sigla em inglês). Além disso, funcionários civis dessas companhias privadas podem operar pelos EUA e pelo governo norte-americano sob disfarce diplomático — prática utilizada pela CIA.

Há três empresas como essas em operação na Ucrânia — Metabiota Inc., Southern Research Institute and Black & Veatch, com postos-chave ocupados por ex-militares e ex-funcionários da inteligência. Em alguns casos, essas pessoas continuam na ativa.

Além do Pentágono, essas empresas operam projetos de pesquisa biológica para a CIA e outras agências de governo. De acordo com diversas fontes, a DTRA financia cerca de 15 laboratórios biológicos na Ucrânia, com dados acumulados em dez deles:

  1. Laboratório Regional de Ternopol.
  2. Laboratório de Diagnótisco de Kherson (Laboratório Regional de Kherson).
  3. Instituto de Medicina Veterinária da Academia Nacional de Ciências Agrárias da Ucrânia.
  4. Laboratório de Diagnóstico de Vinnitsa (Laboratório Regional de Vinnitsa).
  5. Laboratório de Diagnóstico da Transcarpátia.
  6. Laboratório de Diagnóstico de Dnepropetrovsk.
  7. Laboratório Regional Estatal de Medicina Veterinária de Dnepropetrovsk.
  8. Instituto de Pesquisa Epidemiológica e de Higiene do Ministério da Saúde da Ucrânia em Lvov.
  9. Laboratório Regional Estatal de Medicina Veterinária de Lvov.
  10. Laboratório de Diagnóstico de Lvov (Laboratório Regional de Lvov).

Empresas dos EUA ganham contratos robustos

De acordo com um acordo de 2005 entre o Departamento de Defesa dos EUA e o Ministério da Saúde da Ucrânia, o governo de Kiev está proibido de divulgar qualquer informação “sensível” sobre o programa norte-americano. Enquanto isso, a Ucrânia tem a obrigação de transferir patógenos perigosos dos laboratórios em seu território ao Pentágono para pesquisas biológicas adicionais. Em troca, os militares dos EUA têm acesso aos segredos de Estado da Ucrânia relacionados aos projetos em andamento.

No entanto, uma certa organização financiada pelos EUA, o “Centro de Ciência e Tecnologia na Ucrânia” (STCU, na sigla em inglês), foi criada no país antes mesmo do acordo em questão. Com seus funcionários dotados de status diplomático, o centro apoia oficialmente os projetos de cientistas que trabalharam anteriormente em programas soviéticos para a criação armas de destruição em massa.

Nos últimos 20 anos, a SCTU canalizou US$ 285 milhões (cerca de R$ 1,3 bilhão) em financiamento e administrou cerca de 1.850 projetos ao redor do mundo. O trabalho foi oficialmente realizado em linha com o programa lançado em 1991 para prevenir a proliferação de armas de destruição em massa. O objetivo seria garantir a segurança e a destruição de armas nucleares, químicas e biológicas, assim como seus meios de lançamento, nos países da antiga União Soviética.

Tendo em vista que a Ucrânia, Belarus e o Cazaquistão destruíram seus arsenais de armas nucleares, o programa teria terminado em 2013. No entanto, em 2021, uma lei foi introduzida nos Congresso dos EUA para renovar o programa de forma ostensiva para a “renovada ameaça de proliferação de armas de aniquilação em massa”. Apesar disso, de acordo com o site do governo norte-americano sobre contratos públicos federais, o programa nunca encerrou suas atividades.

Em 2013, uma das empresas contratadas da DTRA para a execução do programa era a Raytheon Technical Services Company LLC, com um contrato no valor de US$ 43,9 milhões (cerca de R$ 208 milhões). Em 2016, a STCU recebeu um contrato de cinco anos com a DTRA para providenciar serviços técnicos e científicos na quantia de US$ 10 milhões (cerca de R$ 47 milhões). Atualmente, não há clareza sobre o tipo de atuação da STCU na Ucrânia.

Surtos mortais na Ucrânia: coincidência preocupante

Enquanto nem toda a pesquisa é rastreável, o surgimento de laboratórios biológicos dos EUA na Ucrânia e o financiamento norte-americano de projetos da SCTU coincidiram com diversos surtos de doenças infecciosas no país.

Em janeiro de 2016 pelo menos 20 soldados ucranianos morreram de um vírus semelhante à gripe em um período de duas semanas na Carcóvia, onde ficava um dos laboratórios administrados pelos EUA. À época, mais de 200 pessoas foram hospitalizadas. Já em março de 2016, 364 casos fatais foram reportados em toda a Ucrânia. A causa de 81% das mortes foi o vírus influenza A (H1N1) pdm09 — o mesmo que gerou uma pandemia em 2009.

Recentemente, outro surto repentino de uma doença infecciosa, a Hepatite A, foi registrado na região sudeste da Ucrânia — região onde ficam diversos laboratórios biológicos do Pentágono.

No último mês de janeiro, 37 residentes de Nikolaev foram hospitalizados com icterícia, o que levou a polícia local a iniciar uma investigação por suspeita de “infecção deliberada com vírus de imunodeficiência humana e outras doenças incuráveis”.

Três anos atrás, mais de 100 pessoas na mesma cidade ficaram doentes com cólera. Em ambos os casos, foi assumido que a causa foi a ingestão de água contaminada.

No verão de 2017, 60 pessoas foram hospitalizadas com Hepatite A em Zaporozhie — a causa do surto segue desconhecida. Na região de Odessa, 19 crianças tiveram o mesmo diagnóstico, enquanto em novembro de 2017, 27 casos foram registrados na Carcóvia. O vírus foi descoberto am água potável.

Ao mesmo tempo que os surtos não servem como evidência suficiente sobre qualquer tipo de jogo sujo, as doenças em questão são curiosamente correlatas com uma lista de patógenos perigosos que os laboratórios dos EUA têm pesquisado. Por exemplo, o Instituto Southern Research tem um projeto sobre cólera, assim como sobre vírus como influenza e Zika — todos designados pelo Pentágono como patógenos de importância militar.

Além do Instituto Southern Research, laboratórios na Ucrânia são administrados por outras duas companhias, a Black & Veatch e a Metabiota.

Fundada em 1915 em Kansas City, no estado norte-americano do Missouri, a Black & Veatch é sediada atualmente em Overland Park, no Kansas, também nos EUA. A empresa é especializada em mineração, centros de dados, cidades inteligentes, mercados bancários e financeiros.

Em 2020, a Black & Veatch foi a sétima maior companhia dos EUA, alcançando a receita de US$ 3,7 bilhões (cerca de R$ 17,5 bilhões) em 2020.

A atividade da Black & Veatch, com uma rede de mais de 100 escritórios ao redor do mundo, desde o início esteve intrinsecamente ligada ao Exército dos EUA e às agências de inteligência.

A Black & Veatch ganhou dois contratos de cinco anos com a DTRA no valor total de US$ 198,7 milhões (cerca de R$ 942,5 milhões) para construir e administrar laboratórios biológicos na Ucrânia, Alemanha, Azerbaijão, Camarões, Tailândia, Etiópia, Vietnã e Armênia.

O site de compras federais dos EUA aponta que apenas na Ucrânia a contratada do Pentágono, Black & Veatch, tinha compromissos com a DTRA alinhados ao “Programa Biológico de Participação Conjunta” no valor de US$ 140 milhões (cerca de R$ 664 milhões) desde 2013, com serviços a serem completados equivalente à quantia de US$ 77 milhões (cerca de R$ 365 milhões).

Em 2014, a Metabiota, especializada em identificar, monitorar e analisar potenciais surtos de doença, assinou um contrato federal no valor de US$ 18,4 milhões (cerca de R$ 87 milhões) de um subcontratante para a Black & Veatch na Geórgia e na Ucrânia.

Southern Research

O grupo de fins lucrativos Southern Research, fundado em Birmingham, no estado norte-americano do Alabama, em 1941, como o Instituto de Pesquisa do Alabama, conduz pesquisa fundamental e aplicada para organizações comerciais e sem fins lucrativos em quatro áreas: desenvolvimento de medicamentos, energia, meio-ambiente e engenharia.

Ao longo dos últimos 70 anos, a Southern Research esteve engajada em atividades de pesquisa ligadas à defesa nacional. Seus programas iniciais para o Departamento de Defesa dos EUA incluíam o desenvolvimento de materiais resistentes ao calor para utilização em sistemas de foguetes específicos para o retorno à atmosfera da Terra.

Ao longo das décadas, a Southern Research expandiu a direção de seu trabalho para o desenvolvimento de sistemas de mísseis balísticos, veículos hipersônicos, entre outros.

Desde 2008, o Instituto Southern Research foi o principal subcontratado na Ucrânia. Em 2001, a empresa se tornou a contratada pelo Pentágono para pesquisa sobre anthrax. O principal contratado era a Advanced Byosystems, liderada à época por Ken Alibek, um microbiologista soviético e especialista em armas biológicas do Cazaquistão, que foi para os EUA em 1992.

O Instituto Southern Research é conhecido pelo lobby ativo para programas de pesquisa para a inteligência dos EUA no Congresso e no Departamento de Estado ao mesmo tempo em que laboratórios biológicos começaram a emergir na Ucrânia e em outros países da antiga União Soviética.

Além disso, a companhia pagou US$ 250 mil (cerca de R$ 1,2 milhão) ao senador Jeff Sessios (hoje procurador-geral dos EUA) pelos seus serviços de lobby entre 2008 e 2009, quando o instituto ganhou diversos contratos federais.

Ao todo, entre 2006 e 2016, o Instituto Southern Research gastou por volta de US$ 1,28 milhão (cerca de R$ 6 milhões) em lobby para o Senado, a Câmara dos Representantes, o Departamento de Estado e o Departamento de Defesa dos EUA.

Metabiota Inc.

Finalmente, a Metabiota Inc. é considerada a mais desconhecida entre todas as empresas citadas acima, ligadas aos laboratórios biológicos na Ucrânia. Isso pode ser explicado por suas ligações com a família do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, mais especificamente seu filho, Hunter Biden.

Fundada em 2008, a Metabiota é comissionada por governos, companhias de seguro e criadores de gado para pesquisar e avaliar a ameaça de doenças infecciosas, digitalizar dados microbiais globais e evitar ativamente a disseminação de doenças.

No primeiro estágio, a empresa foi financiada pela Rosemont Seneca Technology Partners (RSTP), uma ramificação da Rosemont Capital, um fundo de investimentos fundado por Hunter Biden e Christopher Heinz, filho adotivo do ex-secretário de Estado John Kerry.

Os negócios de Hunter Biden no exterior rodaram por anos, mas não geraram nenhuma ação por parte dos EUA ou de autoridades internacionais até agora, apesar de que há uma investigação em andamento.

A Metabiota está listada nos portfólios arquivados da RSTP, com relatórios financeiros mostrando que a RSTP cobriu a primeira rodada de financiamento da empresa com valores de até 30 milhões (cerca de R$ 142 milhões).

Desde 2014, a Metabiota é parceira da EcoHealth Alliance com o PREDICT, projeto ligado ao programa “Ameaças Emergentes de Pandemias (EPT, na sigla em inglês)” do USAID, que visa manter um esquema de vigilância global para patógenos com o objetivo de “identificar e prevenir a ameaça de novas doenças infecciosas emergentes” ostensivamente.

Entretanto, como parte desses esforços, pesquisadores das Metabiota, EcoHetalth Alliance e do Instituto de Virologia de Wuhan conduziram um estudo conjunto sobre doenças infecciosas em morcegos, na China.

Os pesquisadores da EcoHealth Alliance e da Metabiota também colaboraram em projetos em como “viver de forma de saudável com morcegos” e pesquisas ligada ao surgimento de surtos de doenças infecciosas em meio ao comércio de animais silvestres.

Em 2014, os pesquisadores da Metabiota também foram postos ao lado da equipe EcoHealth Alliance, em um estudo sobre a disseminação do Nipah henipavirus, o monitoramento do Ebola e um estudo sobre herpes — já em 2015.

Em abril de 2021, o USAID anunciou um novo projeto liderado pela EcoHealth Alliance para rastrear novas doenças infecciosas com potencial de pandemia.

A Metabiota, cujos pesquisadores forma listados como autores de artigos de junho de 2021 relacionados à vigilância de coronavírus na África, também está ligada ao novo projeto da EcoHealth.

A Metabiota está conectada há muito tempo a um conhecido projeto da CIA, a In-Q-Tel, criado em 1999 como a “primeira empresa de capital de risco patrocinada pelo Estado”.

A In-Q-Tel é uma empresa norte-americana de capital de risco sem fins lucrativos sediada em Arlington, no estado da Virgínia, fundada para impulsionar a segurança nacional “conectando a Agência Central de Inteligência [CIA] e a comunidade de inteligência com companhias de empreendederorismo financiadas por capital de risco”.

A empresa, fundada por Norm Augustine, ex-CEO da Lockheed Martin, e Gilman Louis, que foi o primeiro CEO da In-Q-Tel, é considerada uma formadora de tendência na indústria de tecnologia da informação.

A In-Q-Tel recebeu financiamento para pelo menos US$ 120 milhões (R$ 569 milhões), em 2016, principalmente da CIA, mas também da Agência Nacional de Segurança dos EUA (NSA), do FBI e do Departamento de Defesa dos EUA.

Enquanto a In-Q-Tel opera parcialmente de forma pública, há um véu de sigilo sobre seus produtos e sobre o uso deles, sendo o mais famoso, entre os conhecidos, um sistema analítico para o uso da Palantir Technologies na análise de dados e o compartilhamento de mensagens encriptadas.

Rússia leva evidências ao Conselho de Segurança da ONU

Com documentos em mãos, a Rússia abordou as evidências relacionadas aos laboratórios biológicos na Ucrânia.

Em 11 de março o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) se reuniu para um encontro especial realizado a pedido da Rússia para discutir a questão. No entanto, a subsecretária-geral da ONU para Questões de Desarmamento, Izumi Nakamitsu, disse que a ONU “não estava ciente” sobre nenhum programa de armas biológicas na Ucrânia.

Washington foi rápida em denunciar as alegações russas. O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, acusou Moscou de “inventar falsos pretextos em uma tentativa de justificar suas próprias ações na Ucrânia”.

A Rússia demandará uma explicação sobre o envolvimento de Hunter Biden no financiamento da pesquisa de patógenos na Ucrânia, disse o porta-voz do Kremiln, Dmitry Peskov.

“[…] Essa é uma informação muito sensível — tanto para nós como para o mundo. É claro que demandaremos explicações. E não estamos sozinhos nisso: você sabe que a China já demandou esclarecimentos dos EUA, instando-os a fazer essa situação transparente para o mundo”, enfatizou Peskov.

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Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).