TCC de arquivologia discute fotografia de família enquanto documento social e ganha prêmio

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Ana Clara Damasceno, autora do projeto, e Alzira Tude de Sá, orientadora do trabalho.
Ana Clara Damasceno, autora do projeto, e Alzira Tude de Sá, orientadora do trabalho.

Uma foto de família pode ser muito mais que uma lembrança afetiva entre parentes. Pode ser um documento social, fonte de informação e de construção de memória e narrativas históricas da família. Prova disso é a conquista do Prêmio da Associação Brasileira de Educação em Ciência da Informação (Abecin-Nordeste), pelo trabalho de conclusão de curso “Por trás daquela foto: a fotografia como documento social gerando (re)encontros na família”, elaborado pela estudante do curso de arquivologia do Instituto de Ciência da Informação da UFBA Ana Clara Serra Damasceno, com orientação da professora Alzira Queiróz Gondim Tude de Sá.

“O estudo se propôs a demonstrar a fotografia como um documento social, analisando o papel mediador do álbum fotográfico na esfera familiar e sua corroboração na construção de narrativas históricas da família”, informa a professora Alzira Tude, acrescentando que foi estudado todo o “percurso de criação e aprimoramento da técnica fotográfica, sua ascensão como documento, a apropriação e uso pela ciência da informação, pela arquivologia e pela história”. A premiação foi comunicada em cerimônia online, realizada pela direção nacional da Abecin, em 13 de dezembro de 2021.

Gratidão e realização são os sentimentos da recém-graduada Ana Clara Damasceno. Ela entende que “ter nosso trabalho indicado como o melhor da região é um grande reconhecimento por todo empenho e dedicação que empreendemos na pesquisa. Fica em nós a sensação de dever cumprido e a certeza de que o trabalho alcançou seu propósito”.

Partilhando os mesmos sentimentos, a professora Alzira Tude reconhece “que o prêmio representa o reconhecimento pelo esforço, dedicação e o prazer que foi orientar, acompanhar, desde o nascedouro, e ver tomar corpo, um trabalho tão bonito, visceralmente vivido e executado por uma aluna tão dedicada como Ana Clara”.

A pesquisa

A pesquisa documental se constituiu a partir de uma foto da mãe da estudante Ana Clara Damasceno e se inspirou na experiência vivida pelo escritor Roland Barthes, de seu reencontro com sua mãe, através de uma imagem fotográfica. De acordo com Ana Clara, “as motivações para a escolha desse tema emergiram de uma identificação com o objeto de estudo, que decorreu do contato com literaturas que versavam sobre o tema. Tal contato foi propiciado pela disciplina eletiva Organização e Preservação de Acervos Fotográficos – A fotografia como documento: imagem, memória, história, oferecida pelo curso de arquivologia, do Instituto de Ciência da Informação”.

“Ana Clara elegeu um tema que me é muito caro: a fotografia. E buscou demonstrar que a fotografia possibilita aos membros de uma família, uma releitura do passado, e a criação de novas e ressignificadas narrativas sobre suas próprias histórias”, explica a orientadora. “Intencionamos, então, que o estudo teria como objetivo central caracterizar a fotografia como um documento de cunho social e comprovar sua importância como fonte de informação e de construção da memória familiar”, acrescenta Ana Clara.

“Para isso, busquei nos álbuns antigos de minha avó materna e encontrei a fotografia de uma menina que, até então, me era desconhecida e que teria passado despercebida em minhas buscas se não fosse a escrita no seu anverso: ‘Analice de Jesus Serra está na mouda’.  Analice é a minha mãe”, explica Ana Clara.

“Surpresa, exclamei: ‘É ela!’ Era a primeira vez que via uma foto de minha mãe quando criança. Diante do encontro inesperado, entendi que seria a fotografia ideal para ser o objeto da minha pesquisa, pois buscava analisar fotografias arquivadas em álbuns e o seu papel na preservação da memória familiar”, conta a estudante premiada.

“A começar pela escolha, a sintonia foi estabelecida”, diz a professora Alzira. “Referências, conceitos, métodos, imagens nos levavam, e a Ana em particular, ao fim pretendido. Demonstrar a potencialidade da fotografia como documento, como um dispositivo capaz de ressignificar relações familiares e evocar memórias”, destacou.

Trajetória e dificuldades pandêmicas

“Foi um percurso rico. Muitas descobertas, muita emoção, muito suor”, afirma a docente. “O entusiasmo advinha, também, por estarmos propiciando a Ana transitar por uma diversidade de áreas que tangenciavam a Arquivologia, sua área de formação. Descobrir novos territórios foi uma riqueza que resultou num belíssimo trabalho”, diz ela.

“Não podemos deixar de confessar que muitas foram as pedras que encontramos no caminho”, lembra Ana, acrescentando que “fazê-las rolar foi nosso propósito. Foi necessário nos aprofundarmos nas premissas sobre a construção histórica do surgimento e da relação da técnica fotográfica com a sociedade, as transformações no cenário socioeconômico e as implicações decorrentes dessa representação realista, vista como documento, como fonte, indício e evidência de fatos e suas implicações até ser reconhecida pelas Ciências e pela História”, pontua.

“Foi por meio da leitura e decifração dos registros fotográficos dos álbuns de minha família que pude viver um reencontro ontológico com minha mãe, baseada na experiência vivida e descrita pelo autor Roland Barthes (1984), em seu livro “A Câmara Clara”, explica a estudante-pesquisadora. “Pude comprovar que a fotografia une sujeitos e tempos, e que, articulada, possibilita a construção de narrativas históricas da família e essas, por conseguinte, são perpetuadas para futuras gerações. Na odisseia em busca do reencontro pretendido, obtive resultados que não imaginei alcançar. Redescobri minha mãe, sua história e histórias da minha família”, rememora.

O trabalho durou o equivalente a dois semestres para elaboração, “devido aos impactos sofridos pelo início da pandemia, momento em que encerramos as atividades presenciais na Universidade e tantas outras implicações e os cuidados com a saúde. Iniciamos, precisamente, em 21/01/2020 e apresentamos em 17/12/2020″, explica Ana. “Nosso maior obstáculo foi a orientação à distância, que se valeu de longas reuniões virtuais e constantes trocas de e-mails com revisões textuais e outros aspectos de elaboração da pesquisa.”

Contribuições ao campo

Neste trabalho, “foram ultrapassadas fronteiras teóricas e conceituais ao trilhar por caminhos da história, da sociologia, da cultura, referendando, assim, a característica multidisciplinar da área da ciência da informação”, afirma a professor Alzira Tude. “Ao entrelaçar documento, imagem, memória e informação, a pesquisa amplia possibilidades de novos estudos sobre a fotografia como mediadora da cultura, potencial que contribui para que sejam incorporadas e abertas outras incursões no campo da Ciência da Informação”, explica Alzira.

“Atingimos os objetivos propostos por meio dos subsídios advindos de diversas áreas do conhecimento, em especial da própria Ciência da Informação (CI). Por essa razão acreditamos que esse trabalho, através de sua proposta interdisciplinar, transversal e pela sua forma de realização, corrobora para ampliação dos estudos sobre a fotografia dentro da Ciência da Informação”, pontua Ana Clara. Para ela, o “maior anseio é que os estudos desenvolvidos sirvam de inspiração para o desenvolvimento de pesquisas mais amplas e diversas sobre a imagem fotográfica, seu papel e sua importância na construção e ou reconstrução de memórias familiares”.

Ana Clara acredita que “o reconhecimento do trabalho no âmbito da Universidade Federal da Bahia agrega conquistas e reforça o sentimento de que a universidade preza e mantém seus objetivos de ensino e pesquisa firmes. A premiação também reforça a qualidade dos professores de nossa universidade, docentes que se empenham em ver seus discentes voarem. Graças a UFBA e minha preciosa Orientadora, Alzira Tude de Sá, que aqui registro minha eterna gratidão por alcançarmos essa premiação”.

E o desejo da professora “é que este trabalho colabore para o enriquecimento da área e, em especial, para a Arquivologia. Consideramos que este prêmio consolida ainda mais, o reconhecimento do Instituto de Ciência da Informação da UFBA como uma casa que abriga docentes comprometidos, que primam pela formação de seus discentes, em perfeita sintonia com a UFBA, a quem dedicamos esta conquista do prêmio Abecin – TCC 2021″.

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