Milton Nascimento, Kâmarãpy (ayahuasca) e o disco Txai. A encantadora homenagem aos povos da floresta | Por Juarez Duarte Bomfim

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Milton Nascimento e Benki Piyãko
Milton Nascimento e Benki Piyãko

Milton Nascimento perguntou ao indigenista:

– Seu Macêdo, o que significa Txai?

Fala Txai Antônio Macêdo:

“Então traduzi o termo txai para o Milton Nascimento, na presença de Siã Hunikuin, falante da língua Hatxa Kuin, de onde se originou o termo txai:

 “- Txai significa mais que um primo, mais que um cunhado…  mais que amigo, txai é a metade de mim que existe em você e a metade de você que existe em mim”.

Chico Mendes, os seringueiros e os povos originários da floresta

Na noite do fatídico 22 de dezembro de 1988, o líder seringueiro Chico Mendes foi assassinado em Xapuri, Estado do Acre. A pistolagem que regia as relações de poder naquele esquecido rincão brasileiro considerava que seria uma morte a mais, eliminando mais um daqueles bravos e humildes homens que se colocavam contra a sanha e ambição de grileiros e pecuaristas que destruíam a floresta e reconcentravam as terras nas mãos de poucos.

Esses grileiros e pecuaristas não tinham noção da importância daquele humilde homem do povo e da repercussão nacional e mundial do seu vil assassinato. Repercussão que levou o governo brasileiro, à época, a começar a criar políticas públicas de defesa da floresta e dos povos que nela habitam – indígenas e caboclos extrativistas.

O clamor mundial que se levantou após o martírio de Chico Mendes evitou a destruição da floresta amazônica no Acre. Impediu que o Acre se tornasse uma nova Rondônia – Estado federativo vizinho que destruiu suas matas e promoveu o genocídio de muitos dos povos originários que ali habitavam.

Atualmente, mais da metade da área florestal acreana é de terra protegida. Por RESEX – Reservas Extrativistas e FLONA – Floresta Nacional. Porém, as ameaças à vida e ao meio ambiente persistem, frente a insensibilidade e ganância dos ricos e poderosos fazendeiros, protegidos pelos governos estadual e federal.

Voltando a época do assassinato de Chico Mendes: surge um forte ativismo em favor do meio ambiente e dos povos da floresta. Que vai culminar no Brasil sediar a Conferência Eco-92 – primeira Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro no ano de 1992.

Esse panorama de época sensibiliza – e muito – a personalidades nacionais e estrangeiras, inclusive o cantor e compositor mineiro Milton Nascimento, que faz uma expedição ao Extremo Oeste do Acre, e navega 17 dias pelas águas do Alto Rio Juruá e do Rio Amônia, rincões isolados e de difícil acesso do vasto território nacional, em visita a uma aldeia Ashaninka. Como o cantor versejara: “todo artista tem de ir aonde o povo está”.

A visita de Milton Nascimento ao Vale do Rio Juruá foi uma  missão organizada pelo CEDI – Centro  Ecumênico de Desenvolvimento Indígenista e o Centro de Pesquisa Indígena de São Paulo, que tinha à frente Ailton Krenak e Marcos Terena.

A coordenação da viagem até a aldeia do povo Ashaninka foi colocada sob responsabilidade de Txai Antônio Macêdo, lendário indigenista acreano. Nas redes sociais, Txai Macêdo contou essa história, e complementou em conversas privadas com este que vos escreve.

Fala Txai Antônio Macêdo:

“Na condição de Coordenador Regional, nacional e internacional desta linda Aliança dos Povos da Floresta, no Vale do Juruá, coordenei a missão com a devida luz da inspiração positiva.

“Milton Nascimento já veio designado a conhecer o povo Ashaninka do Rio Amônia. Então subimos o Rio Juruá no Batelão Chico Mendes, que foi o primeiro barco grande que consegui comprar aqui no Juruá para o CNS (Conselho Nacional de Seringueiros). O rio estava muito baixo, bancos de areia aparecendo, mas nossa turma era fortemente esforçada. Então conseguimos chegar com o barco Chico Mendes até a Cachoeira do Gastão, um pouco abaixo da sede do Município de Marechal Thaumaturgo, que naquela época ainda era Distrito de Cruzeiro do Sul”.

Txai Antônio Macêdo
Txai Antônio Macêdo

Significado do termo txai

“Nosso povo era forte e determinado. Nós já havíamos comprado canoas motorizadas para todas as comunidades de trabalhadores indígenas e não indígenas. Antes de deixar o barco Chico Mendes para trás, muitos navegantes das canoas que desciam o rio levantavam a mão para nós e saudavam:

“- Txai Macêdo!

“Eu respondia:

“- Oi, Txai!”

Numa certa hora, Milton Nascimento perguntou ao indigenista:

– Seu Macêdo, o que significa Txai?

Fala Txai Antônio Macêdo:

“Então traduzi o termo txai para o Milton Nascimento, na presença de Siã Hunikuin, falante da língua Hatxa Kuin, de onde se originou o termo txai:

“- Txai significa mais que um primo, mais que um cunhado…  mais que amigo, txai é a metade de mim que existe em você e a metade de você que existe em mim”.

Milton Nascimento a tudo ouviu em silêncio, e depois, cantou:

Txai, este pedaço em meu ser.

Tua presença vai bater

E vamos ser um só.

(…)

Txai é quando sou o teu igual,

Dou o que tenho de melhor

E guardo teu sinal.

(Txai, música de Milton Nascimento e Márcio Borges).

E o barco continua a navegar…

“Conosco estavam além da equipe do CEDI, a equipe do Milton Nascimento, o Txai Ailton Krenak, Marcos Terena, Siã Hunikuin, Txai Terri Valle de Aquino, Mauro Almeida, Tânya Murpy, minha companheira Maria Renilza Manaitá (Rena), minha afilhada Eunice Martins Puyanawa, Francisca Monteiro da Associação dos Seringueiros e Agricultores da RESEX Riozinho da Liberdade, que ainda não havia sido criada naquela época.

“Éramos fortes e articulados. Quando o barco chegou a Cachoeira do Gastão, não foi mais possível continuar a viagem naquele barco grande de 15 toneladas. Do lado de cima da Cachoeira já estavam 13 canoas de índios e seringueiros equipados para nos levar aos Ashaninka, e nós fomos em frente”.

Era o mês de agosto de 1989, verão amazônico. O Rio Amônia estava seco. Na subida do rio as canoas encalhavam nos bancos de areia, obrigando os navegantes a descerem e puxarem as canoas rio acima.

O cantor Milton Nascimento, que partilhava a mesma canoa de Txai Macêdo, já cansado de puxar canoa pergunta:

– Seu Macedo, vai ter água no rio?

Quem já navegou pelos pequenos rios e igarapés acreanos sabe que, no verão, o volume de água do leito destes mananciais murcha bastante. O paraíso das águas doces quase… seca.

Descreve Txai Antônio Macêdo:

“Bom, minha maior função além de coordenar bem aquela missão era inspirar o Txai Milton para fazer boas coisas pela nossa região. Então eu respondi:

“- Vai sim, Milton. Mas, primeiro vem o sacrifício para que se alcancem os benefícios.

“E assim fomos subindo o Rio Amônia até chegarmos na sede da Aldeia Tawaya no Alto Amônia”.

Milton Nascimento e Benki Piyãko

“Chegando na Aldeia, apresentamos a caravana ao povo Ashaninka. Chamei o Benki Piyãko que era criança e pedi que Benki passasse a guiar o Milton Nascimento ali na aldeia. Já era tarde e logo veio a noite. Deixei o Milton com o Benki e seus familiares”.

Deste encontro de almas, o cantor mineiro e o menino ashaninka, surgiu a linda canção ‘Benke’ em homenagem aos curumins da floresta. Hoje, Benki Piyãko é um líder político e espiritual do seu povo, além de renomado cantor e artista indígena.

Milton Nascimento e Benki Piyãko
Milton Nascimento e Benki Piyãko

Tarumim tu sois Mãe D’água

 “Eu (Txai Antônio Macêdo) e Antonio Piyãko Kuraka Ashaninka, Alípio Ashaninka, Pedrinho do Pedrilho – Pajé Ashaninka e minha companheira Rena, fomos para o barranco do rio tomar Kâmarãpy (ayahuasca) juntos e pedir água para o rio. Nada fácil. Era mês de agosto, quando os rios secam mais nesta região. Felizmente, a primeira miração que tivemos já foi flutuando nas águas…”

Assim, Txai Macêdo e os pajés Ashaninka, reunidos no barranco do rio, tomaram Kâmarãpy e, cerimoniosamente, rogaram à divindade ameríndia Tarumim que mandasse água para o rio. No dia seguinte o Rio Amônia amanheceu cheio, bem cheio.

Tarumim estou com sede
Tarumim tu me dá água
Tarumim tu sois Mãe D’água

Tarumim tu sois Formosa…

(Formosa, hino do Mestre Irineu).

Louva Txai Macêdo:

“ – Viva o povo Ashaninka e as obras de Pawa e de seu filho Kãmarãpy”.

Kãmarãpy, a ayahuasca dos Ashaninka

Na cosmologia do povo Ashaninka a bebida sacramental ayahuasca é central para aquela etnia. É parte constitutiva do mito fundante civilizatório. Pawa é o Deus criador e salvador e Kamarãpy é o filho de Pawa, deixado no mundo Terra para ensinar a espiritualidade e os mistérios das curas aos Ashaninka – em outras etnias, como entre os Yawanawa, Hunikuin… a ayahuasca adquire a mesma centralidade cosmológica.

Txai Milton Nascimento

Milton Nascimento havia assistido a  conversa de Txai Macêdo com os pajés Ashaninka de ir tomar Kãmarãpy e pedir água à divindade, e observa com muita surpresa aqueles extraordinários e formidáveis acontecimentos, na manhã do dia seguinte. E cantou:

Tem a água, tem a água, tem aquela imensidão
Tem sombra na floresta, tem a luz no coração (Benke, canção de Milton Nascimento).

Milton Nascimento bebeu Kãmarãpy (ayahuasca)?

Txai Macêdo responde: “Milton não bebeu ayahuasca. Ele me disse que ja mirava sem beber ayahuasca. Eu acredito”.

No ano seguinte, 1990, Milton Nascimento lança o disco Txai, projeto que nasceu desta expedição à floresta amazônica e fez parte de uma campanha mundial de apoio à Aliança dos Povos da Floresta, coordenada pela União das Nações Indígenas e pelo Conselho Nacional dos Seringueiros – que atualmente denomina-se Conselho Nacional dos Extrativistas.

O disco Txai traz 15 faixas musicais que se alinham e dão um tom conceitual ao álbum. A expedição de Milton Nascimento ao Acre ajudou a dar a dimensão popular com que a expressão Txai é utilizada hoje.

Na sua simplicidade de homem do povo, Txai Antônio Macêdo resume: “foi lindo gente. Deu musica e que musicas lindas. Melhor que isso, deu trabalho, mas gerou o disco Txai”.

Txai, a tua seta viajou,

Chamou o tempo e parou

Dentro de todos nós.

Ouça a música Txai:

Ouça a música Benke:

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Sobre Juarez Duarte Bomfim 760 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: juarezbomfim@uol.com.br.