O ódio que adoece o Brasil | Por Joaci Góes

Publicidade

Banner da Gujão: Campanha com o tema ‘Tudo fresquinho é melhor’, veiculada em 3 de junho de 2022.
Marco Aurélio, imperador romano do Século II.
Marco Aurélio, imperador romano do Século II.

Para o casal amigo Flora e Gilberto Gil!

“No fim sereis sempre o que sois. ..Por mais que os pés sobre altas solas coloqueis ..E useis perucas de milhões de anéis ..Haveis de ser sempre o que sois.”  Goethe, Fausto I, versos 1806-1809.

Com menos de 3% da população mundial e mais de 11% dos homicídios, o Brasil é um dos países mais violentos do Mundo. O caldo de cultura que nutre o ódio entre nós chegou à política, sobretudo no plano da discussão das ideias. Como desdobramento da proposta da acadêmica Marilena Chaui que, em reunião solene presidida pelas maiores autoridades do seu Partido, apontou o fuzilamento de toda a classe média brasileira como condição para alcançarmos a paz social, passou a ser irrespirável o ar de violência dominante na seara eleitoral. Há poucos dias, como discurso para se eleger deputado federal, um ator de novelas da Rede Globo desejou que o Presidente Bolsonaro morresse no hospital onde, mais uma vez, buscou remediar as sequelas que ficaram da facada que sofreu em setembro de 2018. Agora, quando da morte do pensador Olavo de Carvalho, abundaram graves restrições à sua biografia pessoal, sem qualquer argumento que contrarie sua vasta linha de pensamento. É como se as biografias pouco ou nada românticas de pensadores como Schopenhauer, Marx e Nietzsche fossem suficientes para anular ou comprometer o valor dos seus legados.

Como destacamos em nosso livro Anatomia do ódio, é lamentável que o estudo das emoções não faça parte do currículo escolar da juventude da mais tenra idade, como meio de adestramento para lidar, de modo adequado, com um dos “quatro gigantes da alma”, na feliz expressão do psicólogo cubano-espanhol Emílio Mira Y Lopez.

Inevitável como é o ódio, (“Nada no mundo consome mais completamente o homem do que a paixão do ressentimento”, disse Nietzsche) as pessoas aprenderiam a lidar com ele, compreendendo a lição de Aristóteles para quem “Zangar-se é fácil. Difícil é zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e do modo certo.”   Aprenderiam, também, com Santa Tereza do Menino Jesus que “Se você é superior, só repreenda alguém depois que a ira passar. Assim, a repreensão será muito mais eficiente,” porque, como observou Horácio, “O ódio é uma loucura momentânea.” Aprenderiam com Martin Luther King que “O ódio paralisa a vida; o amor a mobiliza. O ódio perturba a vida; o amor a harmoniza. O ódio escurece a vida; o amor a ilumina.” Aprenderiam com um anônimo que “Quanto menor o coração, maior o ódio que abriga.” Em semelhante conexão, Sêneca ensinou que “Como amamos nossos vícios, nós os defendemos, preferindo desculpá-los a nos livrarmos deles. Agir sob a influência do ódio é o mesmo que içar as velas na tempestade”, conclusão a que Gandhi aderiu ao advertir que “Com o punho cerrado não se pode dar um aperto de mão. Olho por olho, e o mundo acabará cego.”

Há também os cáusticos, como George Bernard Shaw, para quem “O ódio é a vingança do covarde contra quem o intimidou”, secundado por Graham Greene, ao dizer que “O medo e o ódio são inseparáveis. O ódio é uma reação automática ao medo, porque o medo humilha.” William Claude Fields não deixou por menos: “Não tenho preconceitos. Odeio a todos igualmente.”

Prudentemente, por sua vez, o guerreiro-sábio, Marco Aurélio, no Século II da Cristandade, aconselhou que “Quando você se ofender com as faltas de alguém, vire-se para si mesmo e estude os próprios defeitos. Cuidando deles, você deixará de sentir raiva e aprenderá a viver sensatamente,” lição reverbalizada pelo guerrilheiro argentino Ernesto che Guevara: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.” É igualmente prudente ouvir o conselho da atriz Zsa-Zsa Gabor destinado às mulheres: “Nunca odeie um homem, a ponto de querer devolver os diamantes que ele lhe deu.”

Lições abundam, no tempo e no espaço, exaltando o perdão e condenando o ódio, como em Salústio: “Enquanto a paz faz crescer as pequenas coisas, a guerra arruína as grandes”; ou em   Jonathan Swift: “Temos bastante religião para odiarmos uns aos outros, mas insuficiente para nos amarmos”; ou ainda em Ambrose Bierce: “Amor e ódio são os mais poderosos motores da vontade humana. Sob o estado de ódio, você fará o melhor discurso do qual se arrependerá.” Não faltou a ácida lembrança de Lord Byron: “O ódio é, de longe, o prazer que dura mais. Os homens amam com pressa, mas odeiam devagar.”

O crescente desejo de brasileiros pela emergência de uma terceira via nasce do propósito de encontrar uma saída para a escolha de Sofia que ora deparam. O grande obstáculo a vencer reside no fato de que é mais fácil enganar as pessoas do que convencê-las de que estão enganadas.

*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário e ex-deputado federal constituinte.

Banner do JGB: Campanha ‘Siga a página do Jornal Grande Bahia no Google Notícias’.
Sobre Joaci Góes 36 Artigos
Joaci Góes, advogado, jornalista, empresário, presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (IGHB), ex-deputado federal e ex-presidente da Academia de Letras da Bahia (ALB).