Imprevidência e subdesenvolvimento | Por Joaci Góes

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John Mayra Donne: A morte de cada homem me diminui, porque eu faço parte da humanidade.
John Mayra Donne: A morte de cada homem me diminui, porque eu faço parte da humanidade.

Ao casal amigo Rita e Luiz Fernando Vilar!

O poeta inglês John Donne (1572-1631), contemporâneo de Shakespeare (1564-1616), com quem nunca se encontrou, nem mesmo na Mermaid Tavern, instituída por Sir Walter Raleigh, em 1603, como ponto de encontro dos talentos da época, deu-nos régua e compasso para lamentar a morte das pessoas vitimadas pelas recentes inundações na Bahia, ao dizer que “A morte de cada homem me diminui, porque eu faço parte da humanidade. Por isso, eu nunca pergunto por quem os sinos dobram, porque sei que dobram por mim”.

Sinceras lamentações ou meramente populistas, à parte, importa estabelecer a relação linear existente entre nossos problemas mais graves, de sociedade subdesenvolvida, com a imprevidência que tem sido, historicamente, a marca dominante de nossa administração pública.

A exemplo do que se verificou no passado, em várias ocasiões, é de supor-se que, tão logo cessadas as chuvas e as vítimas adaptadas ao seu novo e incômodo momento, tudo ficará “como dantes no quartel de Abrantes”, com a Administração Pública acomodada em sua inércia habitual e permissiva de edificações em áreas urbanas que algum dia serão objeto de devastação semelhante à que estamos, agora, testemunhando. E não é de estranhar que assim o seja quando sabemos que sobre assuntos ainda mais graves e de caráter permanente, a sociedade assiste, com a passividade bovina de quem segue para o matadouro, a exemplo da ominosa aceitação do abandono em que se encontram as duas dimensões mais importantes para sua vida que são a educação e o saneamento básico em nossa terra. A OMS, reiteradamente, aponta o saneamento básico como o principal fator da saúde dos povos.

Sem educação de qualidade, a Bahia continuará caindo em prestígio, riqueza, bem estar, segurança pública e paz social, com o crescimento da pobreza, do desemprego e da violência. Basta que se diga que a possibilidade de uma pessoa ser assassinada em nosso estado é, estatisticamente, 150 vezes maior do que em qualquer país europeu. Isso sem falar que para dois terços da população da Bahia, nove em quinze milhões de habitantes, que não dispõem de saneamento básico, a longevidade média cai de 79 para 54 anos de uma vida de doenças, a deduzir do relatório da Oxfam, intitulado ‘A distância que nos une’, em que comparou as condições de vida das populações do bairro popular Tiradentes e o burguês, Higienópolis, na cidade de São Paulo, associado ao estudo conduzido pelo Instituto Trata Brasil, através da pesquisadora Denise Kronemberger, sobre as condições sanitárias das cem maiores cidades brasileiras.

Com um eleitorado, predominantemente, analfabeto, é natural que tenhamos a mediocridade e o descompromisso com os interesses das próximas gerações como os traços dominantes de nossa representação política, em todos os planos, daí advindo as dificuldades para modificar nosso ultrajante status quo, causa de tantas aflições e impedimentos para o avanço na direção de uma sociedade próspera e feliz.

Um episódio que não passou despercebido nas enchentes que assolam a Bahia foi o relevante papel desempenhado pela Barragem Horácio Sodré, no município de Itapé, que represou um volume de cerca de noventa milhões de metros cúbicos de águas torrenciais que, sem ela, elevariam, ainda mais, o nível do rio Cachoeira, aumentando seu poder destrutivo sobre as comunidades que habitam em suas margens. Provavelmente, a construção de barramentos, ao longo desses rios que desembestam nas estações chuvosas, seja um dos meios para impedir os efeitos negativos de novas precipitações pluviais.

É verdade que, às vésperas do período eleitoral, muitos políticos lambem os beiços de alegria por terem tido o ensejo de pousarem como salvadores da Pátria, mesmo sem terem a grandeza de usar parte dos recursos do Fundão Eleitoral de quase seis bilhões de Reais para socorrer as vítimas das cheias, da Bahia e de outros estados.

É porque eles são políticos. Não são estadistas.

*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário e ex-deputado federal constituinte.

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Sobre Joaci Góes 30 Artigos
Joaci Góes, advogado, jornalista, empresário, presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (IGHB), ex-deputado federal e ex-presidente da Academia de Letras da Bahia (ALB).