“Democracia é o melhor dos regimes”, desde que decidamos “juntos e coletivamente”, diz Francis Wolff em Congresso da UFBA

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Filósofo francês Francis Wolff realizou a conferência de abertura do Congresso UFBA 75 anos.
Filósofo francês Francis Wolff realizou a conferência de abertura do Congresso UFBA 75 anos.

Viver em sociedade é algo intrínseco à natureza humana: as pessoas e os grupos necessitam uns dos outros para sobreviver e se desenvolver. Mas viver em sociedade é também uma obrigação: se não fossem constrangidos ao convívio por práticas ou leis, as pessoas e os grupos se desagregariam.

Buscar o equilíbrio possível entre os dois polos dessa contradição humana — que é também sua condição existencial — é tarefa interminável, e somente talvez possível se não desistirmos de perseguir duas utopias: democracia e cosmopolitismo, conceitos que orientaram a Conferência de Abertura do Congresso UFBA 75 Anos, proferida no dia 06 de dezembro pelo filósofo francês Francis Wolff, da École Normale Supérieure de Paris e autor de “Pensar com os Antigos”, “Nossa humanidade: de Aristóteles as neurociencias”, “Três utopias contemporâneas” (pela Edunesp) e “Não existe amor perfeito” (Sesc), entre outros livros.

Democracia e cosmopolitismo formam, para Wolff, um par indissociável de conceitos que, se alcançados na prática, permitiriam à humanidade viver em sociedade, sob uma distribuição justa do poder e respeitando as singularidades dos indivíduos e das culturas. Ou seja: formar um coletivo equânime, sem, para isso, abrir mão das particularidades.

“Precisamos criar espaços de deliberação coletiva em nível local, nacional, transnacional e mundial. Essa é a única maneira de construirmos coletivamente os ideais políticos. Por mais que digamos e pensemos que somos de algum lugar — de Paris, Joanesburgo ou Salvador da Bahia; da França ou do Brasil — sabemos que nós, humanos, também somos do mundo”, afirma o filósofo.

Wolff não faz parecer, contudo, que democracia e cosmopolitismo sejam conceitos simplórios ou ideais fáceis de se alcançar. Ao contrário, o filósofo explica que ambos os termos encerram contradições internas — que os tornam utopias, é verdade, porém “boas utopias”, das quais, portanto, não devemos desistir ou nos afastar.

WhatsApp Image 2021-12-15 at 12.32.58Recuando à Antiguidade Grega, Wolff explica que a definição original de democracia não coincide com “o conceito moderno de democracia” que, via de regra, vigora ainda hoje. Para os gregos, democracia era sinônimo de “isonomia” ou “isegoria”, isto é, o governo “de todos”, e não de um grupo de qualificados — este chamado então de “aristocracia”. Na atualidade, contudo, a noção de democracia compreende a isonomia em alguma medida (por exemplo, no princípio do sufrágio universal), mas não a realiza por completo, já que os votantes não governam, e sim elegem um grupo de representantes — que governa efetivamente.

“O que chamamos hoje de democracia está longe de ser o poder do povo, para o povo e pelo povo”, afirma Wolff, remetendo à conhecida definição do presidente norte-americano Abraham Lincoln (1809-1865). “É um poder independente do povo, escolhido por uma parte do povo e muitas vezes exercido contra o povo.”

É, portanto, na noção de cosmopolitismo que residiria, segundo Wolff, o contrapeso a esse desequilíbrio da democracia moderna: o avanço do poder (cracia) sobre o povo (demos), que afasta as sociedades do ideal isonômico de “identidade entre quem exerce e aqueles sobre quem o poder é exercido”.

Assim, é no “direito cosmopolítico” (ou “direito dos cidadãos do mundo”, cuja primeira conceituação remonta ao filósofo prussiano Immanuel Kant (1724-1804) e tinha em vista a cidadania dos estrangeiros) que residiria a noção de cidadania universal — ancorada na pluralidade cultural, étnica, racial, de gênero, de condição corporal, de classe etc. — que, segundo Wolff, deve orientar políticas globais de direitos humanos, mas também aquelas relacionadas à saúde, às questões ecológicas e do clima e ao enfrentamento das desigualdades socioeconômicas. “Assim como direitos humanos não devem ser questão estatal, a luta contra a pandemia não deve depender de líderes [nacionais], como Trump ou Bolsonaro”, mas sim de instâncias globais.

Wolff, contudo, adverte: “Não se pode confundir globalização com cosmopolitismo.” E insiste na oposição frontal entre os dois termos, já que a globalização “pressupõe mercado e a unidade cultural que facilita esse mercado”, enquanto o cosmopolitismo consiste na “unidade política própria de uma cidade (pólis), e [n]a diversidade cultural própria da humanidade (cosmo)”. “Seria a comunidade política estendida até os limites do mundo”, resume.

O filósofo não nega, entretanto, que “talvez, por uma ‘astúcia da história’ [citando Hegel], o cosmopolitismo seja favorecido por seu oposto, a globalização”, na medida em que a ampliação do acesso às tecnologias, decorrente desta última, tem como efeito colateral a amplificação do alcance de questões antes confinadas à dimensão local. “Nunca um tsunami ou massacre distante nos pareceram tão próximos. Nunca as pessoas em todo o mundo se viram tão parecidas emocional e intelectualmente. [Há uma] preocupação comum que une toda a humanidade, pois muitos problemas políticos são agora globais”, acredita o filósofo.

Evidenciando a contradição interna da definição de cosmopolitismo — que a torna, também, uma “boa utopia” — , Wolff afirma: “Os cidadãos do mundo não estão prontos para desistir do que constitui sua identidade (ou seja, sua  cultura, sua língua, sua religião, sua memória, sua história, suas fábulas) em nome do fato de que eles são igualmente humanos. Também não estão prontos para renunciar a seus direitos humanos universais em nome do fato de terem línguas, religiões e culturas diferentes”. E sintetiza: “A democracia é um regime melhor do que os outros não só porque é mais igualitário, mas também porque todos decidem melhor do que alguns. Mas somente com uma condição: decidir juntos e coletivamente.”

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