Analistas explicam como a vitória do esquerdista Gabriel Boric no Chile pode influenciar o cenário no Brasil e Europa

Gabriel Boric, presidente eleito do Chile.
Gabriel Boric, presidente eleito do Chile.

Os professores Paulo Silvino Ribeiro e Roberto Uebel comentaram, em entrevista, a vitória do esquerdista Gabriel Boric nas eleições presidenciais no Chile e como ela pode influenciar a América Latina e a Europa.

O esquerdista e ex-líder estudantil Gabriel Boric, do Apruebo Dignidad, de 35 anos de idade, foi eleito o novo presidente do Chile com grande vantagem de votos sobre seu opositor José Antonio Kast, da Frente Social Cristã, de direita.

Boric é definido como “equilibrista” e “político de diálogo”, mas terá um governo “desafiador” pela frente.

Vitória de Boric no Chile deve iniciar ciclo de esquerda na América Latina?

Analisando a vitória de Boric, um candidato da esquerda, Paulo Silvino Ribeiro, professor na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, afirmou que, nos últimos tempos, a América Latina tem visto um crescimento das visões mais à esquerda em detrimento das visões mais à direita.

“Isso é importante para a democracia, independentemente de qual lado as pessoas tenham, na medida que a extrema direita muitas vezes flerta com valores ou com noções antidemocráticas. Então as suas propostas são ruins […] Temos que entender em que medida há expressões da extrema direita na América Latina que são absolutamente antidemocráticas”, ressaltou.

No caso do Chile, havia um candidato que estava concorrendo que fazia apologias à figura do ex-ditador Pinochet, o que de fato é muito ruim para a democracia, observou.

“Acho que assistimos na América Latina a um movimento importante em que a esquerda vai, portanto, agora se fortalecendo. Ao que tudo indica, isso também pode acontecer no Brasil”, destacou o professor, ressaltando que, há pouco tempo, tanto a Argentina quanto a Bolívia elegeram candidatos da esquerda à presidência.

A vitória de Gabriel Boric nas eleições presidenciais do Chile inicia uma nova era da esquerda progressista na América Latina, avalia o professor de Relações Internacionais da ESPM Roberto Uebel.

“As pesquisas recentes apontam uma mudança no governo brasileiro nas próximas eleições, com Lula à frente, assim como na Colômbia e no Equador, com prováveis novos nomes de centro-esquerda no comando dos países”, diz Uebel.

Eleições no Brasil

Apesar do cenário na América Latina com candidatos da esquerda vencendo as eleições, o professor acredita que ainda seja cedo para falar sobre definições das urnas no Brasil, contudo ressalta as últimas pesquisas feitas no país mostrando a vantagem de Lula frente a Bolsonaro e qualquer outro candidato.

O professor também destaca que a especulação criada pela mídia brasileira em torno dos candidatos da terceira via foi algo equivocado, já que estes candidatos estão muito distantes de realmente concorrerem com os demais.

“É evidente que, o ex-presidente Lula tem uma vantagem considerável, mas acredito que seja um pouco cedo para dizermos que a esquerda de fato possa ganhar […]”, explicou.

De acordo com o especialista, a população brasileira, assim como a latino-americana, não quer mais ouvir discursos extremistas, como os utilizados na campanha de Bolsonaro.

Papel da crise econômica e social na América Latina

Ao ser questionado sobre se o descontentamento com a crise econômica e social na América Latina poderia ser o motivo da ascensão da esquerda nas últimas eleições, o professor afirma que estes pontos são muito evidentes, mas antes de mais nada é preciso destacar a pandemia, que teve um efeito devastador, principalmente no ponto de vista da saúde pública, bem como sua consequência econômica.

Para o professor, os problemas da América Latina são estruturais, históricos, mais profundos e permanentes que os encontrados em outras partes do mundo.

Essa situação faz com que os governos latino-americanos tenham enfrentado problemas maiores e, evidentemente, a expectativa da população latino-americana acaba sendo maior, assim como a demanda.

Quando esses governos, sejam eles mais à direita ou mais à esquerda, caíram na graça da população, agora estão em “desgraça” na medida em que não atendem tanto a essas necessidades econômicas, sociais, bem como a necessidades voltadas à saúde, qualidade e expectativa de vida.

“Eu concordo com esta ideia de que o sentimento de frustração com esses governos mais de direita, e o governo Bolsonaro talvez seja o exemplo mais explícito para todo o mundo, possa ajudar a explicar o porquê de a esquerda vir ganhando cada vez mais espaço”, explicou.

Eventos da América Latina podem influenciar Europa?

Sobre a possível influência da América Latina na Europa, o professor ressalta alguns pontos para compreender como os acontecimentos políticos da América Latina podem influenciar a Europa.

De acordo com o professor, a Europa sempre se colocou como o centro, de onde vêm as principais referências econômicas, sociais e ideológicas, e que, no momento, a América Latina não influencia os europeus, contudo há movimentos que, evidentemente, transcendem continentes, culturas, na medida em que a globalização cresce, há uma grande circulação de informações, mostrando o que acontece em cada parte do mundo.

“É como se os fenômenos políticos, de modo geral, estivessem o tempo todo influenciando quaisquer culturas. A América Latina talvez não só influencia, mas, mais do que isso, nela se manifestam fenômenos mundiais”, explica.

Segundo Uebel, essa esquerda, vista como progressista, se aproxima da socialdemocracia europeia, que busca o bem-estar social sem intervir totalmente na economia.

“Acredito que o Chile estabelecerá relações pragmáticas e de benefício mútuo nas questões econômicas, políticas e comerciais. O governo de Boric deve se assemelhar, nesse aspecto, ao do premiê alemão Olaf Scholz, que não faz alinhamentos automáticos”, ressalta Ubel.

O que esperar de Boric no Chile?

Para o professor, Boric tem o desafio de implementar a sua proposta de reorientação do Estado chileno no sentido de promoção mais efetiva de políticas sociais e um deslocamento, portanto, das vertentes mais liberais ou neoliberais.

“Isso implica, portanto, atender as demandas de parte importante da sociedade chilena, que desde 2019 tem reivindicado mudanças importantes, como também esse compromisso com o seu passado enquanto líder estudantil e, portanto, com essa juventude que foi às ruas reivindicar os direitos e uma condição democrática”, explicou.

O especialista destaca que é preciso ter em conta que não está sendo considerada apenas a disputa objetiva de propostas ou planos de governo, mas sim quais realmente dialogam com a democracia e aqueles que não dialogam.

“Há a expectativa de um governo democrático, que dialogue com os grupos e minorias”, declarou.

De acordo com o professor, o rápido reconhecimento da vitória de Boric por seu opositor é uma atitude acertada, por reconhecer imediatamente sua derrota.

“Na minha visão, é uma contribuição importante à democracia, estabilidade e ao diálogo”, adicionou.

Dialogar não é concordar com o outro, mas sim ter interesse por aquilo que o outro tem a dizer, mesmo que discorde, mas permitindo uma interação em nome do interesse público e espírito republicano.

“Foi um ato bastante interessante e importante, esse reconhecimento imediato da derrota para o candidato Boric”, enfatizou.

Terceira via é possível no Brasil?

De acordo com o professor, a ideia da terceira via para as próximas eleições no Brasil é equivocada e falsa na medida em que os candidatos sempre tendem mais para um lado do que para o outro, e que esse equilíbrio, portanto, é impossível.

“É preciso escolher pessoas que têm uma clara e objetiva defesa e compromisso com a democracia, não importa a proposta necessariamente. O mais importante é que as medidas propostas não estejam colocando em risco, questionando ou fragilizando a democracia”, concluiu.

*Com informações da Agência Sputnik Brasil.

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