A noção de ‘bolsonarismo’ e a atuação das Forças Armadas são temas de debate em Congresso da UFBA

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Discussões sobre a atual conjuntura política brasileira nortearam boa parte das mesas da programação do Congresso Virtual UFBA.
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A Esfinge era um monstro alado, metade mulher, metade leão, que aterrorizava a cidade de Tebas, na Grécia Antiga, com o seguinte enigma: “Que animal anda pela manhã sobre quatro patas, a tarde sobre duas e a noite sobre três?” Como os homens não conseguiam decifrar o enigma, a Esfinge os devorava. “O ser humano”, respondeu Édipo, derrotando a malvada Esfinge: ele engatinha quando criança, caminha quando é adulto e precisa de uma bengala quando envelhece.

Duas mesas realizadas durante o Congresso UFBA 75 anos resgataram esse mito grego, sob o rótulo “Decifra-me ou te devoro”, propondo decifrar dois enigmas: “o Bolsonarismo” e “as Forças Armadas brasileiras”.

Em “Decifra-me ou te devoro: o Bolsonarismo”, mesa mediada pelo professor Carlos Vainer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, propôs algumas questões, na tentativa de decifrar o primeiro enigma. Para Vainer, embora o bolsonarismo tenha sido qualificado por vários nomes, como fascista, neofascista, entre muitos outros, cabe interrogar: “Faz sentido esta qualificação? Ela é relevante? Se existe mesmo, como classificá-la? Como caracterizar essa força política e seu projeto, se é que existe um projeto? É importante dar-lhe um nome? Um significado? Que horizontes são possíveis a curto e médio prazo?”

O professor de filosofia política PUC-RJ Renato Lessa afirmou estranhar a obsessão dos brasileiros pelo nome, como se o que ele chama de “império dos conceitos” revelasse “a natureza da coisa”. Para Renato, o que nomeamos como “bolsonarismo” é um fenômeno sem conceito. E a obsessão de lhe atribuir um sentido é consequência do nosso sentimento, muito natural, diante de objetos sem forma”. A tendência a fabricar conceitos seria, assim, então, um recurso de autoproteção, “pois a posse de um nome para o inaudito propicia um sentimento de familiaridade. O bolsonarismo não tem um nome para chamar de seu”, declarou Lessa.

Já o professor Daniel Aarão Reis, da UFF, lembrou a tradição de associar a violência ao fascismo, como aconteceu também no Brasil durante o Estado Novo, a Ditadura iniciada em 1964 e hoje, com o bolsonarismo. Entretanto, no entender do professor, esse conceito, em seu sentido desqualificador, é uma construção inadequada, se tomado como referencia o sentido do termo no fascismo histórico, por exemplo, que designava um regime antiliberal por excelência – diferentemente do Brasil atual – e fortemente nacionalista, comandado por um partido – o que tampouco ocorre aqui. O nacionalismo de Bolsonaro se esvai, no entender de Aarão Reis, no slogan “O Brasil acima de tudo. Deus acima de todos.” Para o historiador, o bolsonarismo deve ser entendido como expressão de um movimento de ascensão da direita internacional – seria, portanto, o braço brasileiro desse movimento.

Forças Armadas

Em “Decifra-me ou te devoro: As FFAAs brasileiras”, o professor Carlos Vainer mediou o debate entre a professora Adriana Marques, da UFRJ, e os professores João Roberto Martins, da UFSCar, e Manoel Domingos Neto, da UFC. Inicialmente, o organizador da mesa questionou o que teria acontecido “de novo” para que o ativismo das forças armadas ganhasse espaço no plano político nacional, sob o comando do Presidente Bolsonaro. Vainer lembra que a Constituição de 1988 buscou limitar a atuação política desses militares, que se recolhiam aos quartéis, mantendo o sistema blindado da sua interferência. Mas isso mudou, na opinião dele, que aponta para o ressurgimento dos militares no governo de Jair Bolsonaro, embora com um discurso técnico não politizado, uma espécie de ativismo que teria se iniciado na gestão do general Villas Bôas, no comando do Exército.

Para Adriana Marques, professora do curso de Defesa e Gestão Estratégica Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esse ativismo não é tão novo assim – já existia desde 2010. Para ela, a novidade é o fato de, pela primeira vez, o Exercito se pronunciar institucionalmente, com a fala do general Villas Bôas, no episódio do tuíte envolvendo o STF, durante julgamento do então Presidente Lula, em 2018. Existiam dois tipos de discurso, explica Adriana: um voltado para a caserna, para a “família militar”, que propiciava que esse ativismo se fortalecesse, e o discurso público, para a classe política, para a mídia tradicional e para a sociedade em geral, esse último dizendo-se comprometido com os interesses democráticos. “Nós é que demoramos de identificar esse ativismo que começou de maneira muito sorrateira”, afirma.

Já para o professor João Roberto Martins, da Universidade Federal de São Carlos (SP), esse ativismo só é percebido quando ele já acontece com o projeto de tornar Bolsonaro presidente em andamento, apoiado pela cúpula armada. Martins propõe um recuo aos meses finais de 2014, quando 27 generais, entre reformados e reservistas, com outros da ativa mais rebeldes, atacam a Comissão Nacional da Verdade, durante o período final dos trabalhos do colegiado constituído para apurar fatos e denuncias de violações dos direitos humanos no Brasil, principalmente no período da Ditadura. Paralelo a isso, Bolsonaro, em campanha para a disputa da presidência em 2018, comparece a uma formatura de aspirantes na Academia Militar de Agulhas Negras, sendo recebido aos gritos de “líder” pelos cadetes, lembra Martins, que concorda com Adriana Marques: ”Demoramos de perceber”.

O professor Manoel Domingos Neto, da Universidade Federal do Ceará e presidente da Associação Brasileira de Estudos da Defesa (Abed) aponta duas motivações centrais para que os militares tenham assumido esse ativismo. Uma motivação geopolítica, que se baseia na defesa da autonomia nacional, o que “não comportava para esta estrutura militar, formada para reprimir manifestações internas e não para se preocupar com o cenário internacional”. Para Domingos Neto o militar precisa contribuir para a defesa do Brasil e não assumir papel que não lhe cabe. Por outro lado, motivação de ordem circunstancial faz com que o militar abrace o bolsonarismo e seus valores, como alternativa de “se manter no mando” e ditar os rumos que o Estado deve tomar, usando, para tanto, o exercício da função em cargos públicos, para os quais foram nomeados.

*Com informações do Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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