Profissionais da imprensa expõem os desafios da atividade no ‘Dia Internacional pelo Fim da Impunidade para Crimes contra Jornalistas’

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Ameaças e insultos, online ou offline, agressões, prisões e intimidação contra jornalistas são cada vez mais comuns.
Ameaças e insultos, online ou offline, agressões, prisões e intimidação contra jornalistas são cada vez mais comuns.

Eles estão na escola de jornalismo, são correspondentes internacionais ou repórteres experientes e estão expostos a múltiplos e crescentes ataques. No Dia Internacional pelo Fim da Impunidade para Crimes contra Jornalistas, instituído após o assassinato de Ghislaine Dupont e Claude Verlon, da Rádio França Internacional (RFI), em 2013, no Mali, jovens profissionais relatam seus medos e sua determinação.

De acordo com um relatório de 2020 da ONU, a violência contra jornalistas vem aumentando. Ameaças e insultos, online ou offline, agressões, prisões e intimidação são cada vez mais comuns. Exílio forçado, espionagem e assédio se somam a vários outros obstáculos à liberdade de expressão. Violência que jovens jornalistas vivenciam desde o início de suas carreiras, mesmo sem estarem preparados para isso.

Protocolo de segurança

Há aqueles que cobrem áreas consideradas teatros de guerra, portanto áreas sensíveis. Lucile Wassermann formou-se na escola de jornalismo há cinco anos e é correspondente em Bagdá para vários meios de comunicação franceses, incluindo a RFI. “Durante os protestos, há muita cobertura da mídia que pode desagradar a grupos armados e pode haver consequências”, diz a jornalista.

Ela explica que, ao publicar um artigo que pode desagradar, deve-se sempre antecipar as consequências. “Antecipar também significa aplicar um protocolo de segurança estrito. Temos câmeras ao redor da nossa casa, um plano de fuga se as pessoas quiserem entrar e nos obrigar a pagar por tal e tal item,” completa.

O jornalista deve estar sempre acompanhado na saída da capital. “Para trabalhar fora de Bagdá, é necessário o apoio de uma escolta das Forças Armadas, o que é absolutamente ridículo. Quando você vai interrogar civis, moradores, você não quer que as Forças Armadas lhe digam quais perguntas você tem o direito de fazer ou não”, desabafa a jovem correspondente que, às vezes, consegue negociar um pouco.

“A pressão era muito grande na Nicarágua”, descreve, por sua vez, Gerall Chávez. Aos 28 anos, ele se exilou na Costa Rica para fazer o seu trabalho. Ainda hoje, o jornalista recebe ameaças regularmente por telefone e pelas redes sociais.

Victor Manuel Perez, de 26 anos, também deixou a Nicarágua em 2018. Ele denuncia: “Na Nicarágua, corremos risco de prisão, sequestro e até de morte! Na Costa Rica também há riscos, você pode perder a vida, conheço gente que foi agredida, espionada. Ao abraçar essa profissão, eu nunca imaginei que seria confrontado com todos esses perigos.”

Repúdio a jornalistas no Brasil

Há também aqueles que enfrentam um forte sentimento antijornalista, como os jovens brasileiros. Victor Lucca, 21 anos, é estudante de jornalismo na Bahia. “A situação está realmente muito difícil por causa do nosso presidente, do nosso governo. O jornalismo não vale nada para o nosso presidente, nem para o povo. Temos casos de agressão a jornalistas! Há um equívoco sobre o que é um jornalista, por que ele é importante, o que faz”, descreve.

Sentimento reforçado por Julia Noia, 23, jornalista da mídia nacional. “Algo que me chamou a atenção foi o Bolsonaro dizer a um repórter, em 2020, ‘Quero dar um soco na sua cara’. É super violento ouvir que o que estamos dizendo é errado, para transformar jornalistas em inimigos,” diz.

Há dois dias, durante a cobertura da visita do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à Roma, seguranças deram socos e empurraram repórteres. Profissionais da imprensa foram hostilizados por Bolsonaro, durante uma caminhada no centro da capital italiana. Pelo menos cinco equipes de reportagem foram agredidas. Os ataques foram dirigidos a jornalistas da Globo, Folha de S. Paulo e UOL. O episódio teve repercussão internacional e foi repudiado pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

França também preocupada

Na França, os jornalistas não são poupados. Aqueles que ingressam na profissão, às vezes, têm uma experiência amarga. Muitos, incluindo estudantes, descobriram a violência enquanto cobriam protestos.

Martin Lelievre tem 26 anos e está se terminando um mestrado em Jornalismo. Ele lembra de uma manifestação dos “coletes amarelos”: “Houve uma grande explosão. Era um dispositivo caseiro que visava o caminhão da polícia. Não sabíamos o que era e ficamos presos no meio da confusão. Parecia ‘terra de ninguém’, fiquei completamente em choque”, conta.

Desde a crise dos coletes amarelos, alguns editores oferecem guarda-costas aos repórteres que desejam ir às manifestações, e muitos jornalistas têm sido repreendidos em protestos.

Sexismo paira sobre a profissão

O sexismo também leva a situações paradoxais. No Iraque, Lucile Wassermann sente que se arrisca. “Somos consideradas alienígenas e podemos nos dar ao luxo de ir mais longe em nossas perguntas, porque diante de um homem, um interlocutor pode se zangar mais rapidamente, enquanto ao se deparar com uma mulher, eles não sabem como lidar”, diz.

Nas redes sociais, a violência contra as mulheres é ainda mais implacável do que para jornalistas homens. Para Julia, esse é particularmente o caso no Brasil: “Temos excelentes jornalistas, que fazem um ótimo trabalho. E quando cometem um pequeno erro, ficam extremamente desmotivadas”.

Redes “associais”

A violência invade a internet, que os jovens jornalistas, às vezes, pensam dominar melhor do que os mais velhos. O jornalista nicaraguense Gerall Chavez viu sua página no Facebook, seguida por 82.000 pessoas, ser fechada após vários relatos de ativistas pró-governo.

A jovem jornalista brasileira Julia Noia aprendeu da maneira mais difícil que o virtual e o real estão conectados: “Tive que colocar todas as minhas redes sociais em privado, uso menos para evitar que as pessoas descubram onde eu moro, onde estou. Porque se um dia eu escrever um artigo excessivamente crítico, temo que as pessoas possam rastrear minha trilha e machucar aqueles que amo,” afirma.

Na França, muitos se viram expostos em praça pública. Louis Léger, de 24 anos, está estudando jornalismo. Durante um estágio, ele se infiltrou em um grupo de manifestantes pelo Telegram. Identificado, ele foi ameaçado: “o grupo me identificou e disse que eu tinha que parar porque senão ficaria ruim para mim”.

Uma situação que Martin Lelièvre entende: “Tenho medo de ir em manifestações porque publiquei um artigo sobre complotismo em um jornal local e divulgaram meu nome, meu rosto, meu endereço pessoal, minhas redes sociais, meu telefone em grupos conspiratórios nacionais,” relata.

Medo como alerta

Repórter há vários anos, Lucile Wasserman considera que o medo é bom. “Não tenho nenhuma vergonha de dizer que tenho medo em determinados locais, é até saudável: quando estamos diante de manifestantes que vão para a linha de frente e voltam com a cabeça machucada, meu coração acelera.  Essa ansiedade me diz que existe perigo, que tenho que dar um passo para trás para poder cuidar de mim e ainda ser capaz de transmitir informações”, ela insiste. De acordo com a jornalista, muitas vezes são os que têm menos medo que correm riscos imprudentes.

Em estágio em Washington, Alice Sangouard, 24 anos, cobriu a invasão do Capitólio por apoiadores pró-Trump, em janeiro de 2021. Ela correu o menor risco possível, mas acredita que alguns jovens jornalistas podem querer provar seu valor para seus editores ao correr riscos desnecessários: “Não é porque somos jovens que devemos experimentar coisas perigosas para provar aos chefes, a todos, que sabemos gerir. Você tem que conhecer bem o terreno e saber onde estão seus limites: se você sente que não consegue, que é muito intenso, é melhor parar e ficar decepcionado com o resultado do que se colocar em perigo,” ensina.

Consequências para a saúde

O medo da violência também pesa na saúde mental de jornalistas. Longe de sua família, exilado fora de seu país natal, Gerall Chávez sofre. “Quando o jornalista que denuncia a violação dos direitos humanos é vítima do que denuncia, fica impotente e é muito doloroso. Estou sozinho na Costa Rica, isso é difícil, principalmente sabendo que minha família é vulnerável na Nicarágua”, diz ele.

Alguns jovens estudantes estão cientes desses riscos e se perguntam se conseguiriam cobrir determinadas pautas. Victor Lucca, um estudante brasileiro, questiona: “Tenho medo de ser jornalista de guerra ou de investigação. Nunca estive em tais situações, minha visão é uma visão externa. Eu poderia tentar, para ver, mas tenho medo,” diz.

Medidas para se proteger

Victor Manuel Perez, exilado da Nicarágua na vizinha Costa Rica, tenta ser rigoroso: “Eu me organizo, tenho protocolos de segurança quando vou a campo. Evito áreas na fronteira entre a Costa Rica e a Nicarágua, bem como lugares onde sei que há muitos nicaraguenses, porque sei que pode haver partidários de Ortega. [O atual presidente, nota do editor]. “

Muitos se afastam temporariamente do Twitter, Facebook, são privados ou silenciam suas redes sociais. Lucile Wassermann desenvolveu o hábito de se distanciar temporariamente. “Sempre me propus uma regra, que é ventilar regularmente, sair do país a cada dois ou três meses, quando volto a ter uma vida mais normal. Todos os jornalistas em Bagdá fazem isso, embora alguns freelancers não possam pagar por falta de recursos,” relata.

Seja no Brasil, na Nicarágua ou na França, nenhum jovem jornalista sente que recebeu formação suficiente na faculdade. Para Martin Lelièvre, é bastante lógico: “Há coisas que não se aprendem na escola, mas que no campo não sabemos como vamos nos comportar até irmos para a rua. Existe teoria e existe prática,” diferencia.

“Se deixo de ser jornalista, deixo de ser eu mesmo”

O nível de violência que enfrentam pode levá-los a abandonar a profissão? Victor Manuel Pérez preferiu deixar a Nicarágua e sua família a desistir: “Conheço muitas pessoas que pararam por medo da violência, eu as entendo. Ao arriscar a minha vida, da minha família, da minha mãe, também me perguntei, mas se deixar de ser jornalista, deixo de ser eu mesmo, deixo de ser Victor,” explica.

Lucile Wassermann, a milhares de quilômetros da Nicarágua, compartilha desse estado de espírito. Às vezes temos que ignorar o perigo, porque o risco, embora alto, vale tanto quanto a importância de informar: “Se cobrimos um acontecimento absolutamente essencial, mas em locais extremamente perigosos, devemos checar, verificar, testemunhar. É preciso ir até lá, tentando reduzir ao máximo o seu tempo de exposição,” afirma.

*Com informações de Léopold Picot, da RFI.

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