Em 2020, 791 mil pessoas perderam a renda de trabalho na Bahia e desigualdade salarial cresceu

Depois de dois anos em alta, a população com rendimento de trabalho na Bahia recuou de 5,7 milhões para 5,0 milhões. A queda de 13,8% foi a segunda maior dentre os estados. Por outro lado, no estado, entre 2019 e 2020, a população com algum rendimento de outra fonte, que não o trabalho, teve crescimento recorde, passando de 4,2 milhões para 5,1 milhões de pessoas (+22,6%, ou mais 944 mil pessoas em um ano), informou o IBGE.
Depois de dois anos em alta, a população com rendimento de trabalho na Bahia recuou de 5,7 milhões para 5,0 milhões. A queda de 13,8% foi a segunda maior dentre os estados. Por outro lado, no estado, entre 2019 e 2020, a população com algum rendimento de outra fonte, que não o trabalho, teve crescimento recorde, passando de 4,2 milhões para 5,1 milhões de pessoas (+22,6%, ou mais 944 mil pessoas em um ano), informou o IBGE.

Entre 2019 e 2020, sob efeito dos impactos da pandemia, 791 mil pessoas deixaram de ter rendimento de trabalho na Bahia. A população com “salário” no estado passou de 5,7 milhões para 5,0 milhões, numa queda de 13,8% em um ano.

A redução da população baiana com renda de trabalho no ano passado veio depois de dois crescimentos seguidos. Desde o início da série histórica da PNADC, em 2012, as últimas e únicas vezes em que esse grupo havia encolhido tinham sido durante a crise econômica de 2015/2016, ainda que de forma menos expressiva. De 2015 para 2016, a queda havia sido de 7,2% (menos 439 mil pessoas com rendimento de trabalho); de 2016 para 2017 ficou em -1,1% (menos 60 mil pessoas).

Em termos absolutos, a redução no número de pessoas com rendimento de trabalho na Bahia no ano passado (-791 mil) foi a quarta maior do país, seguindo o viés demográfico (o estado tem a quarta maior população). Mas em termos relativos
(-13,8%) o recuo foi o segundo mais intenso, abaixo apenas do verificado na Paraíba (-15,4%, o que representou menos 219 mil pessoas com rendimento de trabalho).

O número de pessoas com renda habitual de trabalho caiu também no Brasil como um todo, de 92,8 milhões para 84,7 milhões (-8,1 milhões de pessoas, ou -8,7%). Quase todas as unidades da Federação registraram recuos, exceto Rondônia, onde houve estabilidade entre 2019 e 2020.

Assim, em 2020, a proporção da população baiana com rendimento de trabalho, que havia girado em torno de 4 em cada 10 pessoas entre 2012 (40,1%) e 2019 (38,7%), caiu, pela primeira vez, para 3 em cada 10 (33,2%). Era a 7a menor percentagem entre as 27 unidades da Federação, num ranking liderado por Santa Catarina (48,7% tinham renda de trabalho), Mato Grosso (45,6%) e Rio Grande do Sul (45,3%).

Por outro lado, na Bahia, entre 2019 e 2020, aumentou expressivamente a população com rendimentos de outras fontes, que não o trabalho. Esse grupo passou de 4,2 milhões para 5,1 milhões de pessoas, um aumento de 22,6%, que correspondeu a mais 944 mil pessoas em um ano.Foi o maior crescimento dessa população, no estado, desde o início da série histórica da PNADC, em 2012.

Nacionalmente, o número dos que recebem algum rendimento de outra fonte, que não trabalho, também aumentou significativamente, entre 2019 e 2020, de 49,5 milhões para 59,7 milhões (+10,2 milhões ou +20,7%). Todos os estados viram essa população crescer. A Bahia teve a 3a maior alta absoluta (+944 mil pessoas), só abaixo de São Paulo (+1,7 milhão) e Minas Gerais (+1,5 milhão), mas, em termos percentuais (+22,6%), o estado ficou apenas na 14a posição.

Com isso, em 2020, o grupo de pessoas com rendimentos de outras fontes tornou-se, pela primeira vez, desde 2012, o mais representativo na Bahia, reunindo 34,3% da população do estado, ou cerca  de 1 em cada 3 habitantes. Era o segundo maior percentual do país, abaixo apenas do verificado no Piauí (37,3%)

Essa ampliação das pessoas com rendimentos de outras fontes na Bahia, entre 2019 e 2020, se deu exclusivamente pelo crescimento dos que recebiam os chamados “outros rendimentos”, que incluem programas sociais do governo, seguro-desemprego/seguro-defeso, rendimentos de poupança etc.

O número de pessoas com alguma renda dessas fontes subiu 62,1% entre 2019 e 2020, na Bahia, passando de 1,9 milhão para 3,1 milhões, o que representou mais 1,2 milhão de pessoas em apenas um ano.

No ano passado, 1 em cada 5 pessoas na Bahia informou receber algum desses outros rendimentos (20,8% da população), terceiro maior percentual dentre os estados, abaixo apenas de Piauí (21,8%) e Paraíba (21,0%).

Os totais de pessoas na Bahia que recebiam todos os demais rendimentos de outras fontes caíram no período, incluindo aposentadoria e pensão (de 1,830 milhão para 1,770 milhão); pensão alimentícia, doação ou mesada (de 397 mil para 254 mil); e aluguel ou arrendamento (de 284 mil para 174 mil pessoas).

O balanço final entre perda de rendimento de trabalho, por um lado, e ganho de outros rendimentos (programas sociais, seguro-desempregos, aplicações financeiras), por outro, evitou que a população com alguma renda na Bahia, qualquer que fosse a fonte, recuasse mais. Houve apenas uma variação negativa (-0,2%) entre 2019 e 2020, com esse grupo passando de 8,838 milhões para 8,816 milhões de pessoas.

Em 2020, uma parcela importante da população brasileira e baiana deixou de trabalhar, em grande parte por causa da pandemia. A crise impactou mais os trabalhadores informais, que, por sua vez, têm os menores rendimentos. A perda de trabalho concentrada num grupo que ganha menos fez o salário médio aumentar.

Na Bahia, o rendimento médio mensal habitualmente recebido por todos os trabalhos passou de R$ 1.620 para R$ 1.849, entre 2019 e 2020, num aumento real de 14,1% (já descontados os efeitos da inflação). Foi a maior alta salarial do país e um recorde para o estado na série histórica da PNAD Contínua, iniciada em 2012.

Ainda assim, o rendimento de trabalho baiano era, em 2020, o 9º menor do Brasil, abaixo da média nacional, de R$ 2.447 (que teve alta de 3,4% frente a 2019).

No ano passado, na Bahia, houve altas nos rendimentos médios de trabalho em todas as faixas de recebimento, entretanto, elas foram bem mais expressivas entre aqueles que já ganhavam mais – o que fez a desigualdade salarial seguir em alta pelo segundo ano consecutivo no estado e se tornar a maior do país.

De 2019 para 2020, enquanto os 10% de trabalhadores baianos que ganhavam menos (495 mil pessoas) viram seu rendimento médio aumentar 8,4%, de R$ 143 para R$ 155, os 10% que ganhavam mais (498 mil pessoas) tiveram um aumento, em média, de 23,2% – quase o triplo -, de R$ 6.998 para R$ 8.624.

Com isso, a diferença entre esses extremos da distribuição do rendimento de trabalho, que já era enorme, aumentou ainda mais.

No ano passado, os 10% de trabalhadores com maiores salários na Bahia recebiam, em média, o equivalente a 56 vezes o rendimento dos 10% que ganhavam menos (R$ 8.624 contra R$ 155). Em 2019, essa relação era de 49 vezes, e o aumento entre um ano e outro (+7) foi o maior do país.

Esses 10% com os maiores rendimentos também concentravam quase metade (46,9%) de toda a massa salarial do estado (soma de todos os rendimentos de todas as pessoas que trabalhavam), ou o equivalente a R$ 4,3 bilhões.

O aumento na desigualdade salarial na Bahia, em 2019, se consolidou na variação do Índice de Gini do rendimento médio mensal de todos os trabalhos no estado, que, no ranking nacional, subiu do 7º lugar em 2019 (0,529) para o maior do país em 2020 (0,557). O Índice de Gini mede a desigualdade numa distribuição qualquer e vai de 0 a 1, sendo mais desigual quanto mais próximo de 1.

O aumento da desigualdade nos rendimentos de trabalho na Bahia, entre 2019 e 2020, foi na contramão do que ocorreu no Brasil como um todo, onde ela recuou.

No ano passado, os 10% de trabalhadores brasileiros com maiores rendimentos recebiam, em média, R$ 10.110, o equivalente a 31 vezes o rendimento médio dos 10% que ganhavam menos (R$ 324). Em 2019, a relação era de 35 vezes.

De um ano para o outro, os 10% com menores rendimentos viram seu salário médio aumentar 16,1%, enquanto o aumento médio entre os 10% que ganhavam mais foi bem menor, de 2,2%. Assim, Índice de Gini dos rendimentos de trabalho no país recuou de 0,506 para 0,500, entre 2019 e 2020.

Com aumento da desigualdade salarial, pretos chegam a ganhar, em média, a metade dos brancos, e mulheres passam a receber 1/5 a menos que homens

O aumento da desigualdade no rendimento de trabalho, na Bahia, em 2020, se refletiu também numa maior desigualdade salarial entre trabalhadores que se declaram brancos, pretos e pardos e entre mulheres e homens.

No ano passado, na Bahia, um trabalhador preto ganhava quase a metade de um branco: R$ 1.469 frente a R$ 2.892 (-49,8%). Em 2019, a diferença era significativamente menor, embora ainda bastante alta (-38,3%).

A desigualdade salarial entre pretos e brancos na Bahia, em 2020, só não foi maior do que a verificada em 2017, quando os pretos chegaram a ganhar, em média, 50,4% menos. Mas ficou bem próxima do recorde.

Na comparação entre trabalhadores de cor parda e branca, a desigualdade aumentou ainda mais e chegou, em 2020, ao seu ponto máximo na série histórica recente do IBGE, iniciada em 2012. No ano passado, os pardos recebiam, em média R$ 1.671, 42,2% menos do que os brancos. Em 2019, essa diferença era de -30,5%.

O que ocorreu é que, de 2019 para 2020, embora o rendimento médio real de trabalho tenha aumentado para todos, a variação para cima entre os brancos foi muito maior do que entre pretos e pardos.

Nesse período, o salário médio de um trabalhador branco na Bahia aumentou 30,2%, de R$ 2.221 para R$ 2.892. Entre os pretos, o aumento foi de 7,2% (de R$ 1.370 para R$ 1.469) e entre os pardos, de 8,3% (de R$ 1.543 para R$ 1.671).

A situação foi parecida entre trabalhadores homens e mulheres, embora a desigualdade salarial por sexo na Bahia seja menos profunda do que por cor ou raça.

Em 2020, as mulheres que trabalhavam na Bahia recebiam, em média, R$ 1.591, ou 21,5% menos que os homens, cujo rendimento médio era R$ 2.027. Essa diferença era de -19,2% em 2019. Isso porque, de um ano para o outro, o rendimento médio masculino aumentou mais que o feminino: +15,2% e +12,0%, respectivamente.

Em 2020, rendimento domiciliar per capita seguiu em alta na Bahia e, sob influência dos “outros rendimentos”, mostrou leve redução na desigualdade

Diferentemente do que ocorreu no Brasil como um todo e em 18 das 27 unidades da Federação, entre 2019 e 2020, o rendimento médio real domiciliar per capita aumentou na Bahia pelo segundo ano consecutivo. Passou de R$ 912 para R$ 947, ou seja cresceu 3,8% já descontados os efeitos da inflação.

Foi o quarto maior aumento dentre os estados, em termos percentuais, e o terceiro em termos absolutos (+R$ 35), mas foi menor do que o verificado entre 2018 e 2019 (+5,4% ou +R$ 47 na época).

Apesar do avanço, em 2020, o rendimento médio domiciliar per capita na Bahia continuava menor do que o salário mínimo (que era R$ 1.039), bem aquém do valor nacional (R$ 1.349, 4,3% menor do que o de 2019) e o 10º mais baixo do país.

O rendimento domiciliar per capita é a soma de todos os rendimentos do domicílio (de trabalho e outras fontes) dividida pelo total de pessoas que moram nele. É um indicador importante para avaliar as condições econômicas das famílias, ou seja, de quanto dinheiro elas dispõem.

O rendimento de trabalho é majoritário na composição do rendimentos domiciliar per capita, mas, de 2019 para 2020, ele perdeu um pouco de participação para os “outros rendimentos” (programas sociais, seguro-desempregos, aplicações financeiras). Isso certamente influenciou na redução da desigualdade na renda domiciliar per capita, verificada em todos os estados, nesse período.

Na Bahia, a renda domiciliar per capita aumentou de forma expressiva nas faixas de menor rendimento, sobretudo entre os 5% e os 40% com menores rendas. Em compensação, caiu em quase todas as faixas a partir dos 80% com maiores rendimentos, voltando a crescer apenas no 1% mais rico.

Com isso, embora a diferença entre os 10% com maiores rendas domiciliares per capita e o 10% com menores ainda seja gigantesca, teve uma diminuição importante entre 2019 e 2020, que levou o Índice de Gini do rendimento domiciliar per capita a cair, na Bahia.

No ano passado, os 10% de pessoas com maiores rendimentos domiciliares per capita no estado tinham renda mensal média de R$ 4.182, que equivalia a 57 vezes a renda das pessoas que viviam nos 10% de domicílios com menores rendimentos per capita (R$ 72). Em 2019, essa relação era de 67 vezes, com valores de R$ 4.025 e R$ 60, respectivamente, nessas faixas extremas de renda domiciliar per capita.

Os 10% mais pobres tiveram um aumento real de 20,0% no rendimento domiciliar per capita entre 2019 e 2020, enquanto os 10% mais ricos tiveram aumento de 2,1%.

Com isso, o Índice de Gini do rendimento domiciliar per capita na Bahia caiu de 0,557 em 2019 para 0,537 no ano passado. Mesmo assim, como a desigualdade caiu mais em outros estados, a Bahia subiu no ranking nacional, de 8º para 5º maior índice, nesse período. No Brasil como um todo, o Índice de Gini do rendimento domiciliar per capita caiu de 0,544 para 0,524.

*Com informações do IBGE.

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