Safra de grãos plantada em 2021 pode resultar na melhor produção da história do Brasil, afirma professor

Em 2020, a produção agrícola no Brasil bateu recorde, ultrapassando os R$ 470,5 bilhões, diz IBGE.
Em 2020, a produção agrícola no Brasil bateu recorde, ultrapassando os R$ 470,5 bilhões, diz IBGE.

O Brasil bateu recorde de produção agrícola de 2020 . Para entender melhor quais culturas se destacaram, quais estados produziram mais e o que esperar para a safra 2021, dois especialistas — Anapaula Iacovino, mestre, especialista em Economia do Brasil e América Latina e professora da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), e Marcos Fava Neto, professor titular do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FEA-RP/USP) — comentam o assunto.

A produção agrícola em 2020 no Brasil bateu recorde, ultrapassando os R$ 470,5 bilhões. O aumento em relação a 2019 foi de 30,4%, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE).

​”Esse resultado se deve a dois fatores distintos: o primeiro deles foi o recorde na produção de grãos, que abrange o grupo de cereais, leguminosas e oleaginosas, totalizando 255,4 milhões de toneladas; o segundo foi a elevação dos preços das culturas agrícolas, provocada, também, pela alta demanda durante a pandemia. Isso fez com que o setor fosse beneficiado em um ano marcado pela crise econômica, que afetou os demais setores”, afirmou Winicius de Lima Wagner, supervisor da pesquisa da Produção Agrícola Municipal (PAM), divulgada pelo IBGE.

Altos e baixos da pandemia

Apesar do resultado impressionante, 2020 começou o ano com os produtores rurais apreensivos. A agricultura brasileira sofreu com estiagem severa no início de 2020, o que atrasou o plantio. A pandemia do novo coronavírus, por sua vez afetou bastante o campo, principalmente nas necessidades adicionais de segurança, o que impactou os custos de produção, afirma Marcos Fava Neto.

O auxílio emergencial do governo federal, por um lado, fez com que o consumo interno não caísse, mas, por outro, causou um revés temporário para a produção.

“Com o governo pagando o auxílio emergencial, houve uma redução da oferta da mão de obra, da oferta de trabalhadores rurais e isso fez com que […] houvesse um aumento com o custo de mão de obra. No entanto, conforme o ano de 2020 foi se desenrolando, houve uma redução do pagamento do auxílio emergencial pelo governo e com a redução do valor os trabalhadores voltaram a procurar emprego e o problema da oferta de mão de obra foi se dissipando”, explica Anapaula Iacovino.
Se o consumo interno se manteve, as exportações dispararam, muito em razão da China que tomou a decisão de restabelecer o estoque de alimentos do país.

“A pandemia, que no início de 2020 parecia representar um grande problema para o setor, acabou se transformando, em uma oportunidade porque a demanda internacional cresceu […]. No fim, a pandemia, para o setor agrícola, foi até favorável”, avalia a professora da FAAP.
A especialista sublinha ainda que é preciso ter em mente que esse recorde de R$ 470,5 bilhões na produção agrícola decorre em parte da desvalorização do câmbio nesse período e não leva em conta a inflação.

​”Houve aumento de demanda, desvalorização da moeda e aumento da produção, um cenário bastante favorável para colher um bom resultado, como o que foi registrado […]. Estamos registrando valor nominal recorde porque exportamos quantidade maior a preço maior, então a receita foi maior.”

Milho sobe e soja segue reinando

A soja foi uma das culturas que mais contribuíram para o recorde da safra em 2020 com crescimento de 6,5% na comparação com o ano anterior. A produção da oleaginosa chegou a 121,8 milhões de toneladas, aumento de 6,5% frente à safra anterior e gerou um valor bruto de R$ 169,1 bilhões, o que representa um crescimento de 35% em relação ao valor obtido em 2019.

A soja, a principal commodity do país, representou em 2020 57,2% do valor da produção total dos grãos. Em segundo lugar ficou o milho, com o valor de produção superando o da cana-de-açúcar pela primeira vez desde 2008. Com crescimento de 2,8% em relação a 2019, o milho chegou a 104,0 milhões de toneladas que geraram R$ 73,949 bilhões, 55,4% a mais do que em 2019. O valor de produção da cana de açúcar, por sua vez, foi de R$ 60,8 bilhões.

Fava Neto comenta que tanto a soja como o milho são produtos dinâmicos e muito demandados porque possuem usos diversos, tanto no mercado interno como no exterior: biocombustível, etanol de milho, alimentação humana, ração animal.

“Com o grande crescimento da demanda mundial por grãos, que cresce 40 milhões de toneladas por ano, esses são os produtos que o Brasil vai ter que expandir mais. Provavelmente vamos ver o crescimento mais forte da soja e do milho”, assinala o professor da FEA-RP/USP.
Apesar do crescimento de apenas 0,5% no volume da sua produção, totalizando 757,1 milhões de toneladas em 2020, a cana-de-açúcar segue sendo uma cultura muito importante para o país: “O Brasil segue sendo o principal player do mundo nesse segmento e muito produtivo e eficiente”, ressalta Iacovino.

Eventos climáticos e as próximas colheitas

Entre os grandes estados produtores do grão, somente o Rio Grande do Sul teve grande queda de produtividade, um recuo de 6,9% no valor da produção agrícola. O estado sulista sofreu com estiagem severa no começo do ano, o que comprometeu boa parte das culturas de verão, caindo para a quarta posição no ranking dos estados com maior valor de produção. Os três maiores produtores de grão no Brasil em 2020 foram: Mato Grosso, São Paulo e Paraná, que ficou com a posição do Rio Grande do Sul.

​A estiagem severa que impactou a produção do Rio Grande do Sul ano passado pode ser um prenúncio do que pode ocorrer na produção deste ano. Anapaula Iacovino alerta que a expectativa é que os próximos resultados não sejam tão bons quanto o de 2020 por causa das baixas temperaturas em julho e, principalmente, da grave crise hídrica.

“Há uma tendência de redução [das colheitas] em algumas regiões, por causa do fenômeno climático, e estamos com uma preocupação muito grande com a crise hídrica. A agricultura brasileira é uma agricultura que usa muita água, então os gestores vão precisar desenvolver métodos de produção que utilizem menos água porque estamos com um problema muito sério, uma vez que esse inverno foi muito seco. Por enquanto, não há perspectiva de que os resultados do ano que vem reproduzam os [resultados] que estamos vendo agora. Não estamos com esse otimismo todo, embora em algumas áreas estamos vendo aumento da produção. Vamos ter que aguardar”, pondera a professora da FAAP.

Já Fava Neto recorda que o país vem aumentando significativamente a área agrícola plantada, principalmente para grãos, e da safra 2019/20 para a de 2021/22 a área vai aumentar 5,5 milhões de hectares. O especialista acredita que a safra que está sendo plantada agora pode ser “espetacular”, se o clima ajudar.

“Possibilitar o plantio agora, em setembro e outubro, para não atrasar a segunda safra e não deixar ela vulnerável para quando começa o período de seca […]. Os custos de produção [aumentaram], os insumos e o arrendamento estão mais caros, mas o produtor pode vender antecipadamente a preços bons, garantindo um pouco de renda e fugindo de uma eventual redução dos preços em fevereiro e março, quando vier uma safra bem grande do Hemisfério Sul que a gente está esperando. Mas tem tudo para ser a melhor safra da história do Brasil porque a quantidade de plantio vai ser muito grande e o preço também vai ser bom. Se deus quiser, o campo vai dar uma boa ajuda para o Brasil agora no início de 2022, como vem dando nos últimos anos”, conclui o professor da FEA-RP/USP.

*Com informações da Sputnik Brasil.

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