Ruy Fausto, um respeitável esquerdista | Por Joaci Góes

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Ruy Fausto (São Paulo, 1935 – Paris, 1 de maio de 2020) atuou como filósofo e professor universitário, era doutor em filosofia pela Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne e professor emérito da Universidade de São Paulo. Ficou conhecido especialmente por sua obra Marx: Lógica e Política, sendo considerado um dos principais teóricos marxistas brasileiros. Era irmão do historiador Boris Fausto e do patologista Nelson Fausto.
Ruy Fausto (São Paulo, 1935 – Paris, 1 de maio de 2020) atuou como filósofo e professor universitário, era doutor em filosofia pela Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne e professor emérito da Universidade de São Paulo.

Ao amigo e bom advogado José Macedo.

Ao falecer, aos 85 anos, vítima de infarto, a 1° de maio de 2020, em Paris, onde se doutorou em Filosofia, pela Sorbonne, o paulista Ruy Fausto (1935-2020), irmão do historiador Boris Fausto e do infectologista Nelson Fausto, era, de há muito, reconhecido como um dos maiores teóricos marxistas brasileiros. Seu Magnum opus é Marx: Lógica e Política.

Ele cursou, simultaneamente, direito, no Largo de São Francisco, e filosofia, na rua Maria Antônia.  Exilou-se no Chile, quando do movimento de 1964, daí passando para a França, onde realizou um duplo doutorado, em sua especialidade, a dialética em Hegel e Marx. Entre outros títulos, escreveu: Investigações para uma reconstituição do sentido da dialética, A esquerda difícil: em torno do paradigma e do destino das revoluções no Século XX e alguns outros temas, Outro dia, Caminhos da esquerda: elementos para uma reconstrução.

Para Ruy Fausto, “o populismo de esquerda só prospera em países emergentes ou subdesenvolvidos, como o Brasil.  O comunismo conduziu a uma catástrofe histórica cujo custo para a humanidade, principalmente nas pessoas de camponeses, foi de algumas dezenas de milhões de mortos. Essa história é um livro fechado para muita gente de extrema esquerda, inclusive especialistas, particularmente nos países emergentes, onde o marxismo continua sendo hegemônico em grandes setores da intelectualidade. A esquerda europeia tem poucas ilusões, seja com o passado stalinista ou maoísta, seja com os remanescentes do campo socialista, do tipo da Cuba dos irmãos Castro”. Enquanto isso, “a social-democracia francesa se revela, mais do que nunca, solúvel no capitalismo. Quanto à extrema-esquerda, ou se dissolveu, ou continua encantada com algum adversário dos americanos, ontem Chavez, hoje o sucessor de Chavez, ontem e hoje os chineses e os irmãos Castro, e parece que até Putin”. Mais adiante, Ruy Fausto leciona: “As esquerdas continuam evoluindo, isto é: planando-, no interior de um universo de confusão política que se poderia chamar de arcaico. Se aceitarmos os elementos que indiquei como exigências de uma política de esquerda consciente e eficaz – repensar a democracia e sua relação com o capitalismo, reconsiderar o problema da violência, aceitar uma teoria da história não comprometida com as ilusões do progressismo político, o que significa fazer a crítica do leninismo, do trotskismo e, em grande parte, também do marxismo-, se aceitarmos isso tudo como condição, a esquerda brasileira está muito longe de ter alcançado uma atitude lúcida”. E Ruy Fausto continua: “Se examinarmos os partidos de esquerda dominantes no cenário brasileiro de hoje (ele escreveu em 2018), creio que lá encontraremos, entre militantes e simpatizantes, três tipos de individualidades: socialistas democratas, que querem uma evolução no sentido de uma radicalização não autoritária; ativistas que, pelo contrário, continuam acreditando, mais ou menos firmemente, se não no totalitarismo, pelo menos no pós-totalitarismo autoritário (em particular, que comungam com um poder do tipo do dos irmãos Castro); e, finalmente, oportunistas e carreiristas de toda sorte”.

E logo em seguida, depois de dizer que é a segunda categoria que mais lhe interessa examinar, continua Fausto: “A primeira coisa a ressaltar é a ignorância por parte dessa massa de membros ou simpatizantes de partidos da melhor literatura política, aquela que é indispensável para quem quiser entender a nossa época, incluindo os cem anos que nos precederam. É impressionante como grande parte da literatura crítica internacional de esquerda, como da literatura que não é propriamente de esquerda, mas que é indispensável para entender o nosso mundo, fica fora do alcance do público intelectual brasileiro de esquerda. Em parte, esses livros, jornais e revistas não chegam ao Brasil. Quando chegam, mais precisamente, quando estão traduzidos para o português, têm duas características: quem os publica não são, geralmente, as editoras que editam livros considerados de esquerda (às vezes, até frequentemente, é a própria direita que se encarrega da publicação deles) e, ainda, o público de esquerda não os lê”.

Uma pequena amostra das razões pelas quais grande parte da equivocada esquerda brasileira é vista como das mais atrasadas do Planeta!

*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário e ex-deputado federal constituinte.

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