A Aurora da Vida do irmão e amigo Antônio Valentim. 13 de Outubro, aniversário de nascimento de Antônio Valentim de Castro (* 13.10. 1963 – + 27.06.2021).

Banner do JGB: Campanha ‘Siga a página do Jornal Grande Bahia no Google Notícias’.
Antônio Valentim, Maria Amélia, Cecilia Maringoni e Juarez Bomfim
Antônio Valentim, Maria Amélia, Cecilia Maringoni e Juarez Bomfim

Durante a Concentração, ele canta 2 hinos para os Pretos-Velhos, “chamadas”. Na segunda Chamada, Antônio Valentim de Castro de pé, na cabeceira da mesa do salão, ao terminar a invocação, tomba sobre a mesma, abandonando o seu corpo fisico, e empreendendo a viagem para as esferas siderais.

Já há muitos anos o amigo Marco Helenio Coelho me falava entusiasticamente de um Centro Livre daimista (ayahuasqueiro), que ele frequentava, de nome Aurora da Vida (Parque da Pedra Branca, Rio de Janeiro), cujo presidente e padrinho denominava-se Antônio Valentim de Castro. Assim, tão bem referenciado, tínhamos desejo de conhecê-lo.

Até que, em um tour ayahuasqueiro pelas plagas cariocas, este que vos escreve e sua amada consorte, Cecilia Maringoni,  capitaneados pelo amigo José Carlos Domingos, fomos levados a uma sessão daquela Casa de Culto.

Entusiasmado pela força e luz do Daime e com a qualidade da cantoria e condução firme do trabalho, escrevi, à época:

“Mágico. Encantador. Maravilhoso. O trabalho espiritual de Antônio Valentim é originalíssimo, e um primor na execução, com música e coral afinadíssimos. Ambiente amoroso e responsável, onde se preza pela harmonia e paz”.

No intervalo da sessão, ao ser apresentado ao simpático dirigente, tomando conhecimento que eu era baiano, Antônio Valentim, aficcionado pelo futebol, começou a narrar feitos atuais e antigos do glorioso Esporte Clube Bahia, a sua saga dos anos 1970, com o heptacampeonato baiano. Relembrei momentos daquele período, e passei a admirar o enciclopédico conhecimento de Valentim sobre o futebol carioca, brasileiro e mundial. Ficamos amigos.

Todavia, não foi apenas o amor ao futebol que nos uniu. Foi principalmente as questões de ordem doutrinária e espiritualista. Valentim se tornou leitor dos meus inúmeros artigos e livro, instou a sua irmandade a fazer o mesmo, e ainda hoje ouço depoimentos de que ele tinha por mim respeito, admiração e carinho. A recíproca é verdadeira.

Dos assuntos mundanos, da maya (mundo de ilusão), nos preocupava a fascistização do Brasil e de (parte) dos brasileiros, a escolha pelo desamor e pelo ódio de (alguns ou muitos) de nossos compatriotas – a escolha pela malignidade.

No futebol, Valentim era vascaíno. Porém, não aquele tipo de torcedor passional, e sim com distanciamento emotivo de intempéries e instabilidades do seu clube de preferência. Assim também me considero em relação ao meu Bahêa.

Apesar da distância física, conversávamos diariamente, os meios de comunicação modernos e as “redes sociais” possibilitam esta interação. Nosso último encontro presencial foi na data do seu aniversário, 13 de outubro de 2017, numa sessão e hinário na Aurora da Vida.

Presenteamos o aniversariante, presenteando o Centro Livre, e no encerramento do meu discurso de saudação ao seu natalício, pedi à irmandade presente a execução do hino do Mestre Irineu que fala:

Para sempre, para sempre

Amigo do meu irmão

Que ele é a minha luz

Neste mundo de ilusão.

Sobre a saúde física de Antônio Valentim, ele sempre me falava de seus problemas coronarianos, mas eu não tinha noção da gravidade. Como religiosos espíritas, a possibilidade de morte da matéria não nos trazia medo – em tese, claro, pois no meu caso, se faz necessário vencer a provação, quando a “indesejada das gentes” (a irmã morte) se apresentar.

Até que numa manhã de junho de 2021, recebo um telefonema de Antônio Valentim de Castro e, à “queima-roupa” ele me comunica que ia morrer, que estava morrendo… que era coisa de alguns dias…

Me preocupei apenas em ouvir, e não de persuadi-lo do contrário. Ele tinha acabado de sair do médico, com o diagnóstico de coronariopatia obstrutiva, e me enviou a fotografia do laudo do exame. Tempos depois, após a sua morte, mostrei este laudo a um médico amigo, e a resposta que obtive foi da gravidade do caso e que, talvez, o único recurso fosse o de transplante de coração.

Voltando à nossa conversa… Valentim me perguntou se eu tinha algum texto escrito sobre morte, passagem para o plano espiritual… e a conversa evoluiu para a questão doutrinária, como a Doutrina do Santo Daime trata a morte do aparelho físico.

Uma especificidade da nossa Doutrina é que os seus fundamentos, o seu cânon, está explícito nos hinos, nas mensagens cantadas, enviadas do mundo espiritual. Daí que discorremos sobre “hinos de passagem”, principalmente um de nossa comum apreciação, “6 de Janeiro” do Hinário de João Pereira, companheiro do Mestre.

Propus um exercício a Antônio Valentim: que dos seus hinários, enviados do mundo espiritual pelo seu mentor, o Capitão Lírio Branco, ele selecionasse os “hinos de passagem” e os estudasse, refletisse e meditasse na mensagem doutrinária. Valentim assim o fez, pois logo após me enviou áudio e letra de quase uma dezena de hinos que tratam do assunto – a passagem para o mundo espiritual.

Nesta conversa, Antônio Valentim deu a entender que tinha a crença espírita, herdada do Kardecismo (assim pensei eu), que nos primeiros 14 dias após a sua morte ele ficaria numa situação de semiconsciência, de turbação. Falamos então do Bardo Thodol do budismo tibetano – a morte como uma travessia, a saída de um patamar de consciência para outro.

Depois deste diálogo, continuamos com a nossa comunicação diária, e quando falávamos ao telefone eu sentia no amigo dificuldades respiratórias, sem saber da gravidade.

Um amigo comum me falou de como ocorreu o falecimento de Antônio Valentim de Castro. Obviamente, com as informações que lhe chegaram, pois o mesmo não estava presente, no momento final. Vou descrever de memória, com os elementos que tenho, e de antemão peço desculpas à viúva Maria Amélia Villaça e ao filho Bernardo de Castro se algo não se passou da maneira que eu narrarei.

Foi convocado um Trabalho de Cura em prol da saúde do irmão Antônio Valentim. Trabalho de São Miguel. Dá-se início uma Concentração meditativa, Valentim ainda com forças para presidir os trabalhos. Durante a Concentração, ele canta 2 hinos para os Pretos-Velhos, “chamadas”. Na segunda Chamada, Antônio Valentim de Castro de pé, na cabeceira da mesa do salão, ao terminar a invocação, tomba sobre a mesma, abandonando o seu corpo fisico, e empreendendo a viagem para as esferas siderais.

Na manhã de domingo, recebo a mensagem de seu passamento, por Maria Amélia Villaça, e o ocorrido não me surpreendeu. O que surpreende até hoje é a falta que me faz os diálogos frequentes com o irmão e amigo que se mudou.

Eu costumo me reencontrar com os meus desencarnados em sonho. Esperei passar os primeiros 14 dias que o Espírito Antônio Valentim, quando em vida de matéria, acreditava que estaria não-comunicante. Até que, após este tempo, ele me apareceu e conversou comigo.

Nossa conversa foi revelatória e de foro pessoal. O que posso afirmar é que, são nesses momentos de desencarnação, de perda de um ente querido, que precisamos reafirmar a nossa fé em Deus e na vida espiritual.

É que nesta breve passagem pelo Mundo Terra, devemos sempre lembrar que somos espíritos aprisionados temporariamente num frágil corpo físico, para aqui passar pelas provas e expiações, vencê-las, para poder alcançar as promessas de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Amém Jesus, Maria e José.

Irmandade da Aurora da Vida e visitantes
Irmandade da Aurora da Vida e visitantes
Antônio Valentim, Maria Amélia, Cecilia Maringoni e Juarez Bomfim
Antônio Valentim, Maria Amélia, Cecilia Maringoni e Juarez Bomfim

Sobre Juarez Duarte Bomfim 745 Artigos
Baiano de Salvador, Juarez Duarte Bomfim é sociólogo e mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em Geografia Humana pela Universidade de Salamanca, Espanha; e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Tem trabalhos publicados no campo da Sociologia, Ciência Política, Teoria das Organizações e Geografia Humana. Diversas outras publicações também sobre religiosidade e espiritualidade. Suas aventuras poético-literárias são divulgadas no Blog abrigado no Jornal Grande Bahia. E-mail para contato: [email protected]