‘Tanque’ dos anos 1970 e blindados da Guerra do Vietnã: o que foi exibido no desfile da Marinha para Jair Bolsonaro

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Em 10 de agosto de 2021, a Força de Fuzileiros da Esquadra exibe veículos blindados e armamentos em ato da Operação Formosa em Brasília. O evento militar contou com a participação do presidente da República e do ministro da Defesa. Ato ocorre no mesmo dia em que o projeto de voto impresso deverá ser analisado na Câmara dos Deputados. Realizada desde 1988, a Operação Formosa é um treinamento militar da Marinha do Brasil, que tem o objetivo oficial de assegurar o preparo do Corpo de Fuzileiros Navais como força estratégica, de pronto emprego e de caráter anfíbio e expedicionário, conforme previsto na Estratégia Nacional de Defesa. O comboio, que partiu do Rio de Janeiro, passa por Brasília a caminho do Campo de Instrução de Formosa (CIF). Essa é a primeira vez em que a operação conta com a participação do Exército Brasileiro e da Força Aérea Brasileira.
Em 10 de agosto de 2021, a Força de Fuzileiros da Esquadra exibe veículos blindados e armamentos em ato da Operação Formosa em Brasília. Veículos foram exibidos em dia de votação delicada no Congresso Nacional.

O desfile da Marinha pela Esplanada dos Ministérios e pela Praça dos Três Poderes nesta terça-feira (10/08/2021), em Brasília, ficou marcado por veículos que soltavam uma fumaça preta que não estamos mais acostumados a ver atualmente.

De acordo com especialistas, isso se deve ao fato de esses transportes serem antigos e usarem tecnologias ultrapassadas.

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“Muitos desses carros de combate têm motor a diesel, que solta muita fumaça”, complementa o pesquisador Expedito Carlos Stephani Bastos, coordenador da ECSB/Defesa, entidade que faz publicações sobre veículos militares.

“É óbvio que quanto mais antigo o veículo, mais isso se agrava. Imagina os modelos produzidos nos anos 1980 e 1990, quando não existia essa preocupação ecológica?”, diz Nelson Ricardo Fernandes da Silva, major da reserva do Exército e analista do portal Gestão de Risco.

De forma geral, os veículos militares que passaram pela capital se dividem em três grandes grupos: os “tanques”, os veículos blindados de transporte de pessoal (conhecidos pela sigla VBTP) e os lançadores de mísseis.

Os tanques

Os veículos que tinham um canhão no topo são os modelos SK-105 Kürassier, que começaram a ser produzidos na Áustria a partir dos anos 1970.

Aqui vale uma pequena ressalva: a palavra “tanque” não é tecnicamente correta.

“Esses veículos são chamados de tanques porque na época da Primeira Guerra Mundial os britânicos desenvolveram esse tipo de viatura e não queriam que os alemães soubessem”, contextualiza João Marcelo Dalla Costa, especialista em veículos blindados e ex-professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército.

“Daí eles diziam que iam entregar 50 tanques de lavar roupa em tal local, quando na verdade estavam falando de veículos blindados de combate”, completa.

Os SK-105 Kürassier são usados no Brasil exclusivamente pelo Corpo de Fuzileiros Navais, uma das forças que integram a Marinha e que vão participar dos treinamentos de um exercício militar, a Operação Formosa, ao longo dos próximos dias.

As Forças Armadas compraram 17 unidades no final dos anos 1990, e elas chegaram ao país a partir de 2001.

“O Brasil foi um dos últimos a adquirir esse modelo e entrou em acordos e negociações que estavam sendo feitos pelos fabricantes com alguns países da África”, lembra Bastos, que também foi professor da Universidade Federal de Juiz de Fora.

A Áustria já abandonou esse tipo de tanque há quase 30 anos, mas ele continua em operação na Argentina, na Bolívia, no Brasil, em Botsuana, no Marrocos e na Tunísia.

“Trata-se de um veículo que já está obsoleto, e a Marinha quer substituir essa frota”, aponta Bastos.

Sobre sua atuação no campo de batalha, o Kürassier tem a função de “caçar” unidades das forças opositoras.

“É um tanque leve, que pode ser transportado em navios. O objetivo dele é identificar e destruir os tanques inimigos”, explica Costa.

“E, pela quantidade de fumaça que vimos, imagino que [o blindado que desfilou hoje] seja muito velho”, avalia o especialista.

“Já andei nesses blindados e, na hora em que vi aquela fumaça, imaginei que o comandante deveria estar se borrando, com medo de que o veículo parasse na frente do presidente. Aquela fumaça preta significa que o motor está desgastado, a ponto de estourar e deixar o comandante na mão”, completa.

Os blindados de transporte

Durante a passagem das tropas pela Praça dos Três Poderes, também foi possível notar a presença de veículos sem um canhão no topo: esses são os VBTP, responsáveis por transportar soldados e oficiais de uma forma relativamente segura de um ponto até outro.

E há vários modelos com tamanhos e formatos diferentes na frota dos Fuzileiros Navais brasileiros.

O M113, por exemplo, é usado desde a época da Guerra do Vietnã, que durou entre 1959 e 1975. Uma de suas características visíveis é a presença da lagarta, aquela esteira que substitui as rodas convencionais e permite a locomoção por terrenos acidentados.

Os especialistas destacam que os blindados usados no Brasil não são os mesmos da década de 1960 e passaram por uma série de melhoramentos e atualizações. Mesmo assim, eles continuam ultrapassados diante das várias opções disponíveis em outras partes do mundo.

Outro blindado que deu as caras em Brasília foi o AAV-7A1, também conhecido como Clanf (ou Carro sobre Lagarta Anfíbio), de origem americana.

Ele também tem as esteiras, mas é bem maior e pode até se locomover na água — daí o “anfíbio” no nome.

“Sua função durante uma batalha é desembarcar primeiro e garantir a defesa de uma certa localização para outras tropas virem em seguida”, explica Costa.

O terceiro tipo que apareceu no desfile foi o Piranha 3, de fabricação suíça e disponível no mercado há pelo menos cinco décadas.

Ao contrário dos outros, ele tem pneus e tração nas oito rodas.

“Ele é bastante adequado para fronteiras terrestres e áreas de selva, que estão presentes em muitas das fronteiras de nosso país”, destaca Luiz Guilherme de Oliveira, professor da Universidade de Brasília (UnB) e autor de artigos sobre tecnologia militar e blindados.

Alguns desses veículos trazem metralhadoras e lançadores de granadas.

“Esse armamento serve apenas para fazer a autoproteção daquela unidade. Mas hoje em dia esse tipo de defesa pode ser facilmente superado por aeronaves pequenas e drones”, conta Bastos.

Os lançadores de foguetes

Por fim, um terceiro componente do arsenal da Marinha brasileira exibido para Bolsonaro foi o Astros II, um sistema de lançadores de foguetes produzido pela empresa brasileira Avibras.

“Essa é a nata da tecnologia militar brasileira, o que temos de mais avançado junto com o veículo blindado Guarani [que não integra os treinamentos de Formosa]”, avalia Costa.

“Hoje, nossos foguetes têm entre 30 e 80 km de alcance, mas está em processo de construção um equipamento com 300 km de alcance, que permitirá defender toda a nossa região costeira”, informa o especialista.

Além desses veículos mais “poderosos”, o desfile contou com caminhões convencionais, que fazem apenas o transporte das tropas, mas não contam com nenhum tipo de blindagem.

Frota ultrapassada?

Para os especialistas, o fato de muitos veículos serem antigos e terem décadas de uso é algo que está dentro das possibilidades brasileiras.

“É evidente que nossa tecnologia está ultrapassada em relação ao que temos de mais avançado em outras partes do mundo, mas ela é condizente com o potencial bélico dos outros países da América Latina”, diz Oliveira.

“Talvez o Chile e a Venezuela se sobressaiam um pouco, já que possuem equipamentos de origem russa”, discorda Silva.

A falta de verbas parece ser um grande entrave para modernizar esses transportes blindados militares.

“Há muito tempo a Marinha quer substituir esses veículos, mas isso depende de dinheiro e o país atravessa uma situação complicada financeiramente”, conta Bastos.

Costa concorda e aponta que o desfile talvez tenha servido para o Corpo de Fuzileiros mostrar que precisa trocar urgentemente seus equipamentos.

“O comandante da Marinha usou essa operação para mostrar ao presidente e à cúpula militar o estado decadente em que se encontram seus veículos”, acredita o especialista.

“Os Kürassier, por exemplo, são fundamentais, mas provavelmente devem estar com uma disponibilidade baixíssima. Com certeza eles colocaram os melhores ali para desfilar.”

“Se os melhores estão assim, imagina os outros… A maior parte deve estar inutilizada ou num estado que não é apresentável”, completa.

A Operação Formosa

O desfile foi considerado sem precedentes na história recente do Brasil: embora a Operação Formosa aconteça todos os anos desde 1988, essa foi a primeira vez que os comboios passaram por dentro de Brasília.

A longa fileira de veículos blindados e caminhões usados no transporte de fuzileiros passou diante de Bolsonaro. Tudo foi transmitido ao vivo na página do presidente no Facebook.

O presidente acompanhou a exibição na porta do Palácio do Planalto ao lado dos três comandantes das Forças Armadas e dos ministros da Defesa, o general Walter Braga Netto, da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP-PI), do Gabinete de Segurança Institucional, o general Augusto Heleno, e da Educação, Milton Ribeiro.

Bolsonaro chegou a convidar outras autoridades e chefes de outros poderes, mas nenhum compareceu.

Durante a cerimônia, manifestantes a favor e contra Bolsonaro acompanharam a passagem dos veículos pela Praça dos Três Poderes.

Também foi entregue a Bolsonaro um convite para que ele compareça ao treinamento das Forças Armadas, que será realizado a partir de 16 de julho na cidade de Formosa, em Goiás, a 80 km do Distrito Federal.

O comboio da Marinha saiu do Rio de Janeiro e grande parte dos veículos blindados foi transportada por carreta, segundo Bastos, para facilitar a locomoção por mais de 1,4 mil km.

Os veículos foram então descarregados para que desfilassem diante do presidente, passando também nas proximidades do Congresso Nacional — no mesmo dia em que está prevista a votação da proposta de emenda constitucional (PEC) do voto impresso.

O evento com a participação de Bolsonaro foi visto por muitos como uma nova ameaça de golpe e uma demonstração de força do presidente no dia em que uma pauta especialmente cara a ele seria apreciada no plenário da Câmara.

Mas o comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, disse que tratou-se de uma “coincidência” de datas.

“Quando se fala em tanque na rua, fala-se de outra coisa. Tanque na rua é tanque para… Lembra tanque para conter manifestações… Não é nada disso. Houve uma passagem de um comboio e uma prestação de contas à sociedade, dando visibilidade ao exercício que está sendo conduzido, e tradicionalmente é conduzido”, disse Garnier.

A PEC do voto impresso já havia sido rejeitada por uma comissão especial criada especialmente para avaliar esse tema, mas o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), aliado de Bolsonaro. Fugiu à regra e decidiu levá-la ao plenário mesmo assim.

No entanto, com a oposição da maioria dos partidos à mudança, a perspectiva era de que a matéria mais uma vez fosse rejeitada.

A Marinha divulgou nota afirmando que a Operação Formosa não tem relação com a votação da PEC.

Neste ano, pela primeira vez, a operação contará com a participação do Exército e da Força Aérea.

“A Operação Formosa tem o propósito principal de assegurar o preparo do Corpo de Fuzileiros Navais como força estratégica, de pronto emprego e de caráter anfíbio e expedicionário, conforme previsto na Estratégia Nacional de Defesa”, explicou a Marinha.

*Com informações de André Biernath e Rafael Barifouse, da BBC News.

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