Sputnik V: Imunizante contra a Covid-19 vai da esperança a frustração para América Latina

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Sputnik V foi a primeira vacina desenvolvida no mundo contra Covid-19.
Doses da Sputnik V diferem uma da outra e não foram projetadas para ser misturadas com outras vacinas. Diante da falta de doses, Argentina vai oferecer vacina da AstraZeneca ou Moderna a quem já recebeu a primeira dose do imunizante russo. Fabricante promete resolver atrasos ainda em agosto de 2021.

A vacina russa contra a covid-19 Sputnik V foi a primeira a chegar à Argentina, em dezembro de 2020, com a promessa de alívio para os países latino-americanos à espera por imunizantes desenvolvidos no Ocidente.

No entanto, oito meses depois, a escassez crítica da segunda dose pesa fortemente sobre os governos, que contam com alternativas limitadas.

Além disso, aprovada para uso emergencial em 69 países, a vacina ainda não recebeu a aprovação da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Agência Europeia de Medicamentos (EMA). A OMS solicitou informações adicionais, e só depois de receber todos os dados definirá uma data para anunciar a decisão.

A inoculação com a Sputnik V, produzida pelo instituto russo Gamaleya, requer duas doses, diferentes entre si, que não foram projetadas para ser trocadas nem combinadas com outras vacinas, o que limita consideravelmente a logística de uso.

“Me sinto traída, que é uma farsa”, reclama Noreyda Hernández, professora de 66 anos, à agência de notícias AFP, após mais uma tentativa frustrada de receber o imunizante num centro de vacinação na cidade venezuelana de Maracaibo.

Há cenas semelhantes na Bolívia, onde os idosos chegam às clínicas apenas para encontrar avisos de que a segunda dose foi “adiada até novo aviso”.

“Estamos cansados, voltamos e sempre é a mesma resposta: ‘O governo é que vai dizer’. Mas o que pode dizer o governo, se não sabe de nada?”, comentou German Alarcón, de 70 anos, em La Paz, Bolívia.

A Rússia registrou a Sputnik V em agosto de 2020, ainda antes dos testes clínicos em grande escala, gerando desconfiança e preocupação entre os especialistas, que consideraram o processo precipitado.

O voto de confiança veio com um artigo publicado na renomada revista científica The Lancet, declarando a vacina segura e com mais de 90% de eficácia. O problema é a produção.

Maior intervalo entre as doses

Os países latino-americanos que optaram pela Sputnik decidiram prolongar o período de espera entre a primeira e a segunda dose de um mínimo de 21 dias para um máximo de 90 dias. Ainda assim, a segunda dose não está sendo aplicada dentro do prazo.

Muitos deles começaram as campanhas de vacinação inoculando idosos, profissionais de saúde e outros grupos de risco, e agora veem justamente os mais vulneráveis não conseguirem completar a imunização.

“Recebi a vacina em 21 de abril e ainda estou esperando pela segunda dose”, queixa-se Josefina Bermudez, de 72 anos, em Buenos Aires, Argentina. Ironicamente, seu neto de 25 anos, que não se enquadra em nenhuma categoria prioritária, já recebeu as duas doses da vacina chinesa da Sinopharm.

Coquetel de vacinas

A Argentina, cujo presidente e o vice receberam a Sputnik numa demonstração pública de confiança, ameaçou em julho cancelar o contrato com a Rússia. O país de 45 milhões de habitantes assinou um acordo para 30 milhões de doses da Sputnik V, mas recebeu apenas menos da metade, segundo o governo.

Por isso, a Argentina vem pesquisando a possibilidade de substituir a segunda dose da Sputnik V pela de outras vacinas, como AstraZeneca, Sinopharm ou Moderna, que foram incluídas posteriormente em sua campanha de vacinação.

Os primeiros resultados, divulgados na quarta-feira (04/08), mostraram que as vacinas da AstraZeneca e da Moderna funcionam em combinação com a Sputnik V. Portanto, serão oferecidas como alternativa aos que aguardam a segunda dose do produto russo.

Os testes sobre o uso do imunizante da Sinopharm como uma segunda dose não foram conclusivos, informou a ministra da Saúde, Carla Vizzotti. Paralelamente, a Guatemala anunciou ter cancelado a compra de 8 milhões de doses da Sputnik V.

Fabricante promete solucionar problemas

O fabricante da vacina, o Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF, na sigla em inglês), prometeu resolver os atrasos nas entregas ainda em agosto.

Em comunicado, ele alegou que o motivo dos atrasos foi o “aumento da produção” e que eles serão “totalmente resolvidos” em agosto. A instituição acrescentou que a capacidade “dobrará” em setembro, graças a uma parceria com o maior produtor mundial de vacinas, o Serum Institute, da Índia.

Com relação à Guatemala, o RDIF disse que o contrato simplesmente foi “ajustado para um novo cronograma de entrega”. Além da Índia, o RDIF assinou acordos de produção com mais de uma dúzia de países, que devem produzir várias centenas de milhões de doses por ano.

Na terça-feira, o RDIF anunciou que o Laboratório Richmond, da Argentina, forneceria ao país mais de 3 milhões de doses produzidas localmente em agosto, com as primeiras 150 mil sendo entregues ainda na primeira semana de agosto, após o controle de qualidade ter sido concluído com sucesso.

O México também começará a produção local, e o laboratório estatal Birmex informou à AFP que espera obter a aprovação russa para um teste em alguns dias. A produção mexicana será inicialmente destinada ao uso local, mas posteriormente poderá ser exportada para outros países da região.

Moscou critica UE

Enquanto sofre críticas dos latino-americanos por atrasar as segundas doses, Moscou acusa a OMS e a EMA de não terem aprovado a Sputnik V como parte de uma estratégia para evitar que a vacina entre no mercado europeu, por razões políticas e comerciais.

“Estamos convencidos de que, quando se trata da saúde e da vida dos seres humanos, não há espaço para a política. Espero que nossos parceiros na União Europeia levem isso em consideração”, declarou o ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, na quarta-feira, denunciando um aumento da “retórica agressiva” contra a Sputnik V em alguns países da UE.

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