Otavio Frias Filho devorava os livros com curiosidade e método | Por Sérgio Dávila

Jornalista, ensaísta e dramaturgo Otavio Frias de Oliveira Filho discursa nos 90 anos de fundação do Jornal Folha de S.Paulo, ocorrido em 11 de fevereiro de 2011.
Jornalista, ensaísta e dramaturgo Otavio Frias Filho discursa nos 90 anos de fundação do Jornal Folha de S.Paulo, ocorrido em 11 de fevereiro de 2011.

Em 13 de novembro de 2018, a Academia Brasileira de Letras preparou uma homenagem a Otavio Frias Filho (1957-2018), diretor de Redação da Folha por 34 anos e autor de livros e peças, que morrera em 21 de agosto daquele ano, em decorrência de um câncer.

Naquela tarde, no Petit Trianon, sede histórica da academia no centro do Rio de Janeiro, participaram de uma mesa-redonda o presidente da ABL, Marco Lucchesi, os acadêmicos Cícero Sandroni, Marcos Vinicios Vilaça e Joaquim Falcão e o jornalista Sérgio Dávila.

Em sua fala, o atual diretor de Redação da Folha comentou sua relação profissional com Otavio a partir dos livros que trocavam. O jornal publica pela primeira vez uma versão do texto lido então.

Convivi com Otavio por 25 anos, em dois períodos de maneira profissionalmente mais intensa. O primeiro foi de 1996 a 2000, quando eu fui editor da Ilustrada, o caderno de cultura da Folha. O segundo foi de 2010 à morte dele, em 21 de agosto; neste, por força de minha função e de nossa afinidade, tínhamos um contato diário.

Como o jornalismo é uma atividade exercida por especialistas em generalidades, nossa convivência abarcava vários assuntos do conhecimento –e do desconhecimento— humano. Discutíamos política, economia, ciência e, é claro, nossa profissão. Ele dizia a amigos que eu respirava jornalismo 24 horas por dia —e hoje penso se era um elogio ou uma crítica…

Sendo esta a casa das letras, no entanto, eu gostaria de me restringir ao aspecto mais literário de nossa convivência, falando de alguns poucos livros que tiveram um papel em nossa relação profissional e, em grande medida, em minha formação, já que, além de meu superior hierárquico e amigo, Otavio era meu mentor intelectual.

Assim que eu assumi o cargo que ocupo hoje, recebi dele um exemplar surrado de “A Educação de Ciro”. Antes que os mais afoitos pensem se tratar de um tratado sobre os modos do ex-candidato pedetista à Presidência, esclareço que falo da “Ciropédia”, a biografia romanceada que o ateniense Xenofonte fez de Ciro, o Grande, considerado o fundador do Império Persa, escrita 370 anos antes de Cristo.É um dos livros canônicos da nossa história, multifacetado e de muitas leituras possíveis, mas o que interessava ao Otavio era o aspecto formativo de jovens líderes que a obra também tem. Muitos a consideram uma das inspirações de “O Príncipe”, de Maquiavel, embora haja controvérsia quanto a isso. O exemplar que ele me presenteou era de 1965, lançado naquele ano pela editora Cultrix e comprado de um sebo. Eu o guardo com carinho.

Eu salto 2.000 anos para falar de outro livro mais recente de um dos autores por quem ele tinha admiração. É “Solar”, de Ian McEwan, de 2010, publicado pela Companhia das Letras em bela tradução de Jorio Dauster, um libelo contra o politicamente correto, principalmente contra o círculo politicamente correto dos militantes da causa ambiental.

Corrosivo, irônico, ataca um dos pontos que mais horrorizava Otavio, que é o patrulhamento das ideias. Entre os dois títulos houve dezenas.

Para citar alguns: “Como Morrem os Pobres e Outros Ensaios”, de George Orwell; “O Mundo em Desordem” e “O Leviatã Desafiado”, dois volumes de divulgação de história mundial de Demétrio Magnoli, colunista da Folha, e Elaine Senise Barbosa, obras que ele definia como “operações de catarata”, citando uma frase de seu pai, Octavio Frias de Oliveira, o seu Frias, para definir um texto cristalino sobre um assunto muitas vezes complexo.

Em 2006, o então publisher da Folha, Octavio Frias de Oliveira, e seu filho mais velho, Otavio Frias Filho, diretor de Redação – João Wainer/Folhapress

Também “Essencial Padre Vieira”, do qual ele destacava o “Sermão da Sexagésima”, que ele considerava um guia atualíssimo de estilo; “O Príncipe e o Sabiá”, coletânea de Otto Lara Resende, ex-colunista do jornal, do qual ele recomendava particularmente dois perfis, do ex-presidente Janio Quadros e do publisher Adolpho Bloch.

Ainda “O Ópio dos Intelectuais”, de Raymond Aron, e “O Retrato”, de Osvaldo Peralva, um ex-correspondente da Folha. A unir ambos estava a coragem de ir contra o pensamento majoritário em suas épocas respectivas. Não por acaso ele os lançou pela Três Estrelas, selo literário que era a menina dos olhos de Otavio e que ele criou em 2011.

Otavio dava livros com um objetivo prático, além de ajudar na formação do receptor —passava dicas. E os devorava com curiosidade genuína. Lembro-me de mais de uma viagem de avião que fizemos em que ele levava um livro para a leitura. Muitos viravam resenha em suas colunas. Outros tantos rendiam pautas. A maioria ele concluía no próprio avião. Sua técnica de leitura, ao menos nestas saídas de trabalho em que eu estava, às vezes para Brasília ou aqui para Rio de Janeiro, era universitária. Previamente, de posse do livro original, que ele comprava, obviamente, pedia que fosse feito uma xerox da obra inteira. No avião, tirava da mala o calhamaço com o conjunto das páginas impressas lado a lado, frente e verso, abria a mesinha à frente e começava a leitura, sublinhando passagens com caneta e régua. Quem passasse ao lado imaginaria um professor a preparar sua aula na faculdade ou um estudante maduro que nunca perdeu a vontade de aprender. De certa maneira, Otavio era um pouco dos dois.Em determinado momento, abandonava o material, ia esticar as pernas pelo corredor e voltava com a soma: “Contei dez pessoas lendo jornal”, dizia, invento aqui os números de memória. “Cinco na versão impressa, cinco na digital. Metade lia a Folha”, orgulhava-se.

Orgulhoso não era adjetivo usual para definir Otavio.

Autor de vários livros e peças, ele os lançava sem estardalhaço e os assinava com dedicatórias inteligentes, mas tímidas. O meu preferido é “Queda Livre”, com o subtítulo “Ensaios de Risco”, publicado em 2003 pela Companhia das Letras, coletânea de textos que ele chamava de “investigações participativas” e nos quais narrava experiências como saltar de paraquedas, viajar num submarino e arriscar-se como ator numa peça.

Lembro-me de, na Redação, receber as provas do livro com um bilhete com um jogo de palavras: “Sérgio, você se arriscaria fazer a reportagem?”. Eu aceitei a sugestão dele e escrevi com liberdade. Nenhuma palavra foi mudada. No lançamento, Otavio fez a seguinte dedicatória em meu exemplar: “Para o Sérgio, que descascou este abacaxi.”

A circulação de livros entre nós era uma via dupla, a dele para mim muito mais movimentada, é claro. Mas houve algumas ousadias de minha parte. Na volta de uma viagem de férias a Nova York, trouxe a edição mais recente do livro de Primeiras Páginas do jornal “The New York Times”, que ele deixou anos na mesa de centro de sua sala no jornal.

Dei a ele “Nós”, de Ievguêni Zamiátin. Concluído em 1921, é considerado o precursor das ficções científicas distópicas, inspirador de “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, entre outros. Não havia tradução para o livro no Brasil há décadas, e a edição da Aleph é belíssima.

Em 2013, comprei pela Amazon dois exemplares da edição de trigésimo aniversário de “On Writing Well”, manual clássico de escrita de não-ficção de William Zinsser. Dei um a Otavio com um bilhete de recomendação e devorei o outro. Seis meses depois, ele acabou lendo o livro. Comprou dez outros livros e distribuiu a alguns profissionais mais próximos —não era incomum que fizesse isso; Otavio chamava a prática de “panfletagem”. Um deles foi justamente para mim, com um bilhete: “Sérgio, recomendo vivamente a leitura. Eu gostaria de ter lido este livro quando era mais novo”. Eu nunca o corrigi. Anos depois, por iniciativa dele, a Três Estrelas lançou a versão em português. Zinsser ainda estava vivo e acompanhou a tradução. Na edição, Otavio limpou as referências exageradas a jornalismo esportivo, principalmente aos relatos de jogos de beisebol.

“Como Escrever Bem” virou um dos sucessos do selo literário da Folha. Até o fim da vida, Otavio gostava de dar de presente o livro, que passou a ser item obrigatório no pacote que recebem os recém-contratados pelo jornal, junto do Manual da Redação e do livro de Primeiras Páginas, outros dois projetos supervisionados por ele de ampla repercussão.

O cuidado com a língua portuguesa num jornal de divulgação geral era obsessão de Otavio. Além de um colunista de português, Sérgio Rodrigues, que sucedeu outro, o Professor Pasquale, a Folha deve ser um dos únicos diários a ter uma professora residente na Redação, Thais Nicoleti de Camargo.

Mas o livro de que mais me lembro hoje quando penso no Otavio é justamente aquele que não li —e nunca terei oportunidade de ler. É o que ele definiu como “a autobiografia do meu pai”, na última entrevista que deu, em agosto de 2018.

Já tinha os esboços dos capítulos e os títulos de cada um: Urgência, no qual falaria da descoberta e do tratamento de sua doença, Os Fatos, uma referência a autobiografia homônima do escritor Philip Roth, Capitalismo, Ditadura e Democracia. Neles, Otavio narraria a vida do pai e a sua própria. “Esse livro sobre o meu pai, que eu passei anos, quase que a vida inteira, me preparando um dia para escrever, no fundo é uma espécie de autobiografia minha por meio de meu pai, ou através de um relato da vida do meu pai”, contou na derradeira entrevista. Ele morreu antes de começar.

Mas deixa frutos. Teremos dois livros que estavam prontos ou encaminhados e devem ser lançados no futuro. “Sete Histórias que Fazem Pensar” é o título provisório de um deles, para crianças, com sua versão para a vida do primeiro buda, a parábola bíblica do filho pródigo, a história de Guilherme Tell, a de Romeu e Julieta, “A Vida É Sonho”, de Calderón de la Barca, uma versão de “O Capote”, de Gógol, e o navio Titanic. Será publicado pela editora Ubu.

O outro reunirá ensaios publicados pela imprensa mas nunca lançados em livro. Eu comprarei e lerei os dois. Não haverá mais dedicatórias ou recomendações novas. Mas haverá um pouco mais do pensamento de Otavio Frias Filho. Não é pouca coisa.Como diz o Padre Vieira na conclusão do “Sermão da Sexagésima”: “(…) Saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto”.

Livros citados

“A Educação de Ciro”, de Xenofonte

Com o título de “Ciropédia”, pela qual também é conhecida, a obra de 370 a.C., que narra de forma romanceada a vida de Ciro, o Grande, considerado fundador do Império Persa, sairá com tradução e introdução de Lucia Sano, pela editora Fósforo, em 1º de setembro (400 págs., R$ 94,90; ebook 59,90)

“O Príncipe”, de Maquiavel

Célebre tratado político sobre o poder, a moral e a ética, publicado em 1532, após a morte do autor, que o dedicou a Lourenço de Médicis. Sendo uma obra em domínio público, tem várias edições em português. Algumas das mais recomendáveis são a bilíngue, lançada pela editora 34, com tradução e introdução de Diogo Pires Aurélio (R$ 68, 272 págs.) e a da Penguin-Companhia, com tradução de Maurício Santana Dias, prefácio de Fernando Henrique Cardoso e introdução de Anthony Grafton (176 págs., R$ 34,90; ebook, R$ 19,90)

“Solar”, de Ian McEwan

O escritor britânico enfoca nesse romance de 2010 a crise do clima e as contradições do mundo da ciência a partir da figura do protagonista, Michael Beard. Físico renomado, ele é feito presidente do Centro Nacional de Energia Renovável, mas suas energias pessoais se voltam para sua vida amorosa e sexual. Tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras (344 págs., R$ 64,90; ebook, R$ 38,40)

“Como Morrem os Pobres e Outros Ensaios”, de George Orwell
Nesta coletânea de textos de não ficção, o autor de “1984” discorre sobre temas grandes e pequenos que cunham um retrato das mudanças sociais da primeira metade do século 20. A edição da Companhia das Letras tem prefácio do crítico americano Lionel Trilling e tradução de Pedro Maia Soares (416 págs., R$ 59,90; ebook, R$ 31,00)

“O Mundo em Desordem” e “O Leviatã Desafiado”, Demétrio Magnoli e Elaine Senise Barbosa
O sociólogo e colunista da Folha e a historiadora fazem, nesses dois volumes que saíram pela editora Record, um repasse dos principais fatos políticos que marcaram o século 20. O primeiro (460 págs., R$ 63,90) vai do início da Primeira Guerra, 1914, ao final da Segunda, em 1945; o segundo (544 págs., R$ 44,90), de 1946 a 2001, cobrindo do pós-Guerra ao 11 de Setembro.

“Essencial Padre Antônio Vieira”

Coletânea com organização e introdução de Alfredo Bosi (1936-2021) traz sermões notórios, como o da Sexagésima, que abre a reunião de textos, e cartas do jesuíta Antônio Vieira, além de um escrito até então inédito, traduzido do latim, “A Chave dos Profetas’. Penguin-Companhia (760 págs., R$ 49,90; ebook, R$ 24,50)

“O Príncipe e o Sabiá”, coletânea de Otto Lara Resende
A escritora Ana Miranda organizou, a partir dos arquivos do jornalista, essa antologia póstuma com 60 perfis, seguindo a intenção que o autor manifestara de fazer um livro nesses moldes. Ao falar de personagens da cultura, como Mário de Andrade, Murilo Mendes e Rubem Braga, ou da política, como Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas, Otto fala também um pouco de si. Companhia das Letras (376 págs., R$ 67,90; ebook, R$ 39,90)

“O Ópio dos Intelectuais”, de Raymond Aron

Neste ensaio, publicado pela primeira vez em 1955, o pensador francês faz uma crítica ao marxismo e ao pensamento doutrinário de esquerda. Editado pela Três Estrelas (trad. Jorge Bastos, 352 págs.), está fora de catálogo. Pode ser encontrado em sebos (de R$ 129,90 a R$ 500)

“O Retrato”, de Osvaldo Peralva

Jornalista e escritor, Peralva narra, nesse livro, sua trajetória de paixão e desencanto pelo Partido Comunista Brasileiro. Enviado pela sigla para estudar em Moscou, em 1953, constatou na volta, três anos depois, que os rumos totalitários que a utopia assumira também se repetiam no PCB. (Três Estrelas, 440 págs.; fora de catálogo. De R$ 225 a R$ 395 em sebos)

“Nós”, de Ievguêni Zamiátin

Escrita entre 1921 e 1922, a obra que é considerada a mãe das distopias narra a história do engenheiro D-503, que começa a questionar sua vida no Estado Único ao conhecer uma mulher que contraria regras. A edição da Aleph (344 págs., R$ 79,90; ebook, de R$ 35,10 a R$ 55,93, segundo o leitor usado), com tradução de Gabriela Soares, traz ainda uma resenha de George Orwell e uma carta de Zamiátin a Stálin, pedindo para sair da União Soviética, onde suas obras eram proibidas —o que ele fez, mudando-se para Paris.

“Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley
Um dos romances que teriam bebido da fonte distópica de Zamiátin, este livro de 1932 retrata uma sociedade cientificista, em que os indivíduos são separados de seus pais e alocados em castas ao nascerem. A edição da Biblioteca Azul tem tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano (312 págs., R$ 49,90, ebook, de R$ 25,59 a R$ 27,90, segundo o leitor usado)

“Como Escrever Bem”, de William Zinsser Este manual é um clássico americano da escrita de não ficção. A publicação do best-seller em português, com tradução de Bernardo Ajzenberg para a Três Estrelas (280 págs.), eliminou —por acordo com o autor, que não queria ver seus exemplos de beisebol tornados anedotas futebolísticas— a seção de esportes. Lançado em 2017 e hoje fora de catálogo, é artigo raro mesmo em sebos. Na Amazon havia, neste mês de agosto, um exemplar à venda, por R$ 949.

“Os Fatos”, Philip Roth

Autobiografia do romancista americano, contada com a verve do ficcionista, em forma de carta ao seu personagem recorrente, Zuckerman. “As lembranças do passado não são lembranças de fatos, mas lembranças de como os fatos foram imaginados. É algo ingênuo que um romancista como eu fale em se apresentar ‘sem disfarces’ e em retratar ‘uma vida sem a ficção’”, escreve, desconfiando da missão que se impôs. Companhia das Letras (Tradução de Jorio Dauster, 208 págs., R$ 52,90; ebook, R$ 34,90)

*Preços coletados nos sites das editoras e no Estante Virtual.

**Colaborou Francesca Angiolillo.

***Sérgio Dávila, jornalista, diretor de redação da Folha de S.Paulo, foi repórter da Revista da Folha. Na sequência, editou a ‘Ilustrada’, caderno voltado a destacar pautas culturais, de 1996 a 2000.

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