G7 fracassa em convencer EUA a prolongar retiradas de Cabul

Prazo para retirar estrangeiros e afegãos de Cabul se encerra no dia 31 de agosto de 2021. Governo Biden alega risco de ataques, caso permanência no Afeganistão seja estendida. Grupo de nações se limita a dar alertas ao Talibã e fala em "assegurar passagem" aos que queiram deixar o país, sem apresentar plano.
Prazo para retirar estrangeiros e afegãos de Cabul se encerra no dia 31 de agosto de 2021. Governo Biden alega risco de ataques, caso permanência no Afeganistão seja estendida. Grupo de nações se limita a dar alertas ao Talibã e fala em "assegurar passagem" aos que queiram deixar o país, sem apresentar plano.

Os demais líderes dos países que integram o grupo do G7 – que inclui as sete nações mais industrializados do mundo – fracassaram ao tentar convencer o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, a prolongar o prazo final para a retirada de milhares de pessoas que aguardam uma chance de fugir do país, após a tomada de poder pelo Talibã.

Nesta terça-feira (27/08/2021), Biden afirmou a seus colegas no encontro virtual do G7 que os EUA estão “em marcha” para completar sua retirada até 31 de agosto.

Segundo a Casa Branca, um plano de contingência está em elaboração, caso esse prazo – estabelecido pelos próprios americanos – não possa ser cumprido. O Talibã, por sua vez, já deixou claro que rejeita qualquer ampliação de prazo.

Biden também informou que completar a retirada até o final do mês vai depender de uma “coordenação contínua” com o Talibã, para garantir o acesso das pessoas ao aeroporto de Cabul, onde a situação ainda é de caos.

A porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki,  disse que Biden justificou a manutenção do prazo ao alertar para um risco cada vez maior de um ataque por parte de militantes de uma célula ligada ao “Estado Islâmico” (EI) ao aeroporto de Cabul.

Em uma pouco enfática demonstração de unidade, os líderes do G7 chegaram a um acordo sobre as condições para reconhecer e lidar com um futuro governo afegão liderado pelo Talibã.

EUA controlam as decisões

Entretanto, era palpável a decepção, após não conseguirem convencer Biden sobre a necessidade de estender as operações em Cabul para permitir que milhares de americanos, europeus, afegãos e cidadãos de outros países pudessem ser retirados.

O encontro virtual reuniu líderes de Reino Unido, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão e Estados Unidos, além da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, do Conselho Europeu, Charles Michel, do secretário-geral da ONU, António Guterres e da Otan, Jens Stoltenberg.

A reunião desta terça-feira serviu não apenas para selar o fim de 20 anos de intervenção do Ocidente no Afeganistão, mas também para comprovar que são os americanos, e não os europeus, que têm o poder de decisão no que diz respeito à situação no país da Ásia Central.

Em uma vaga declaração conjunta divulgada após o encontro, os líderes afirmaram que a prioridade imediata é “garantir a remoção segura de nossos cidadãos e dos afegãos que estiveram ao nosso lado e contribuíram com nossos esforços nos últimos 20 anos, além de assegurar uma passagem segura para fora do Afeganistão”.

Mas, faltou esclarecer de que forma seria possível garantir a segurança dos que desejam deixar o país, sem a ajuda de forças militares externas.

O G7 afirmou que as lideranças afegãs serão “julgadas por suas ações, não por suas palavras”, em referência a alertas dados anteriormente para que o Talibã não reimponha um regime repressor, como ocorreu entre 1996 e 2001, até a intervenção militar dos EUA.

Alemanha amplia ajuda humanitária

“Reafirmamos que o Talibã será responsabilizado por suas ações em evitar o terrorismo, em questões de direitos humanos e , particularmente, dos direitos das mulheres, meninas e minorias, assim como pela busca por uma solução para a inclusão política no Afeganistão”, diz o texto.

“A legitimidade de um futuro governo dependerá da abordagem a ser adotada para o cumprimento de suas obrigações internacionais e dos compromissos para assegurar a estabilidade”.

Os países do G7 asseguraram que continuarão comprometidos com o Afeganistão e apoiarão as Nações Unidas a coordenarem a ajuda humanitária na região.

A chanceler federal alemã, Angela Merkel, disse que apesar de as conversas não resultarem em uma nova data para o fim das retiradas, foi extensamente discutida a possibilidade de um aeroporto administrado por civis em Cabul ser utilizado após 31 de agosto.

A Alemanha aumentou para 500 milhões de euros o valor de sua ajuda humanitária para a região, após já ter prometido outros 100 milhões de euros destinados à ajuda emergencial para refugiados dentro e fora do Afeganistão, através de organizações humanitárias.

Talibã quer evitar “fuga de cérebros”

Também nesta terça-feira, o Talibã pediu aos seus cidadãos que não deixem o país, e reforçou sua rejeição a uma extensão do prazo para a evacuação dos estrangeiros.

Um porta-voz do grupo alertou os EUA para que deixassem de retirar do país os “especialistas afegãos”, como engenheiros e médicos. “Precisamos do conhecimento deles. Eles não podem ser levados para outros países”, afirmou.

Desde 14 de agosto, quando o Talibã tomou Cabul, até esta terça-feira, os EUA removeram em torno de 58 mil pessoas do Afeganistão, incluindo mais de 4 mil americanos. Milhares de pessoas também foram retiradas por países europeus como Alemanha, França e Reino Unido.

*Com informações do DW.

Sobre Carlos Augusto 9706 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).