Economia entra no ‘modo eleição’ e indicadores de 2022 dão sinal de piora

Dados da economia do Brasil apresentam piora com aproximação das Eleições 2022.
Dados da economia do Brasil apresentam piora com aproximação das Eleições 2022.

Uma reunião realizada ontem entre diretores do Banco Central e analistas de instituições financeiras deixou clara a preocupação do mercado: a economia entrou no “modo eleição”, e isso significa risco para as contas públicas, em um momento de projeções piorando tanto para a inflação quanto para os juros e o PIB em 2022. “No geral, todo mundo está batendo na tecla de que a eleição já começou”, resumiu um participante do encontro. “O viés mais negativo para o fiscal e o aumento da incerteza estão se refletindo no crescimento do ano que vem, sem necessariamente uma contrapartida da inflação.” Ou seja, o mercado já prevê um crescimento menor da economia, em um cenário de inflação ainda alta.

O BC faz reuniões periódicas, fechadas, com analistas do mercado para colher informações para a confecção do Relatório Trimestral de Inflação. Foram 42 analistas ontem. Pelo BC, participaram os diretores de Política Econômica, Fabio Kanczuk; de Política Monetária, Bruno Serra; e de Assuntos Internacionais, Fernanda Guardado. Eles não respondem a perguntas, apenas ouvem os analistas.

Segundo fontes, os analistas indicaram que a projeção mais baixa para a taxa básica de juros, a Selic, no fim do ciclo de alta iniciado este ano é de 7,5%, variando a até 8,5%. “Mas todos com viés de alta”, destacou um profissional. Para a inflação, a expectativa para este ano ficou em torno de 7,5% e, para 2022, entre 3,5% (centro da meta) e um pouco acima de 4%. “Há pouca gente convencida de 3,5%, e quem se manifestou nesse sentido apontou viés para cima”, disse uma fonte.

No âmbito fiscal, os participantes relataram preocupação com a preservação do teto de gastos, em meio à discussão sobre as mudanças no pagamento dos precatórios e o financiamento do Auxílio Brasil (novo nome do Bolsa Família). “O risco fiscal foi dominante na conversa. É a preocupação de todo mundo”, disse outro economista. Em relação ao crescimento econômico, um participante mencionou que o cenário este ano está “dado”, com projeções de 5% a 6%, graças ao carrego estatístico elevado, mas que o ano que vem será mais desafiador. “Para a atividade econômica, a visão geral é de desaceleração, com crescimento entre 1% e 2% em 2022. A maioria vê perto de 2%”, disse outro analista.

Incerteza

O economista-chefe da consultoria LCA, Braulio Borges, destaca, porém, que o crescimento mais próximo de 2% está em risco tanto pela situação fiscal como pela incerteza política criada pelas ameaças do presidente Jair Bolsonaro à eleição de 2022. “Isso inibe as decisões de investimento e de consumo. Aí a economia entra num círculo vicioso: ela cresce menos, o governo arrecada menos e a situação fiscal piora.

“Borges, que não esteve na reunião do BC, acrescenta que o debate em torno dos precatórios acentuou a preocupação dos analistas em relação ao fiscal, deteriorando o preço dos ativos. “A percepção de que há um risco de se estourar o teto de gastos aumentou. Isso se reflete no câmbio.” Ontem, o dólar fechou a R$ 5,3759, maior patamar desde maio, com alta de 2%. Já a Bolsa caiu 1% e atingiu o menor patamar desde 1º de abril, ao encerrar a 116,6 mil pontos.

Para a economista Zeina Latif, as medidas que vêm sendo sugeridas pelo governo ainda indicam que Bolsonaro deverá encerrar o mandado com o País em uma situação pior do que a de 2018. “É uma piora institucional do ponto de vista fiscal. Se está perdendo a credibilidade fiscal. Hoje o debate é o precatório, amanhã é o Bolsa Família e assim vai.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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