Artistas e técnicos das artes lançam o Instituto Forte em Salvador

Residentes do Forte do Barbalho, profissionais irão disponibilizar 16 vídeos aulas.
Residentes do Forte do Barbalho, profissionais irão disponibilizar 16 vídeos aulas.

Em apoio às condições de permanência do bem cultural das artes cênicas dentro do Forte do Barbalho e na cidade de Salvador, diante e apesar da pandemia do Covid-19, artistas e técnicos residentes há anos no espaço decidiram criar o Instituto Forte e lançam entre 2 e 26 de agosto de 2021, de segunda a quinta-feira, um ciclo de 16 oficinas de formação sobre práticas e técnicas artístico chamado Aulas Forte, a serem transmitidas gratuitamente através da plataforma do Youtube da instituição.

As aulas pretendem garantir uma aprendizagem que entenda a arte também como meio de produção e sobrevivência (ver programação abaixo). O público assistirá aulas de artesanato, técnicas de grafite, chapelaria e mobiliário artesanal, miniatura, serralheria e pontos de solda, desenho Cenográfico, iluminação cênica, cenotecnia, serralheria artística, teatro e dança, rebú, desenho técnico e gravatas, medidas e perucas.

Através de diálogos didáticos, que sistematizam o trabalho de criação estética e gestão da arte, as aulas, que ficarão de forma permanente na plataforma, evidenciam a importante articulação entre as etapas e os diversos profissionais envolvidos, valorizando a riqueza da aprendizagem individual e coletiva. Além do compartilhar de métodos, etapas de criação e construção de cada um dos técnicos, o Aulas Forte tem foco na expansão do mercado de trabalho na área artística, que é conhecido por ser pequeno e competitivo.

Com profissionais do próprio instituto (artistas e técnicos de espetáculos cênicos com habilidades específicas), o projeto promete encontros com Maurício Martins figurinista, maquiador e fundador do maior acervo de figurinos do Norte Nordeste  – Ateliê Boca de Cena, Luciano Reis Santos, iluminador e coordenador de equipes de montagem de iluminação e sonorização, especialista em gestão cultural, João Teixeira, artista plástico e cenógrafo com grande experiência em treinamento de equipe para montagem cenográfica, Diógenes Neto, artista plástico, cenógrafo especializado em eventos e em pintura de arte e graffiti, dentre outros profissionais.

Para chegar a cada tema-aula foi feita a seguinte pergunta: O que você aprendeu com a arte que você leva para sua vida? Cada uma das aulas traduz o que há de mais natural em cada profissional. O objetivo é ver esses técnicos e/ou artistas em seu habitat natural: a criação. “Quem assistir às vídeo-aulas terá contato direto com os maiores responsáveis pelos bastidores da cena em Salvador. O Aulas Forte busca visibilizar profissionais que são invisíveis aos olhos do grande público. Aproximar as pessoas da carpintaria artística pode ser a chave para aproximar do espetáculo”, afirma Fernanda Paquelet, que assina a direção de produção do projeto e provocadora artística do Aulas Forte.

Para Maurício Martins, o Aulas Forte é um projeto que fortalece a identidade do conjunto de profissionais que estão ali, favorecendo o reconhecimento e a permanência no local. “A transmissão do conhecimento, com as aulas online fornecidas pelo Instituto, auxilia o público a se aproximar dos bastidores, mas também ajuda o profissional a organizar o seu trabalho para ser passado adiante, ganhando também esse espaço virtual. É uma ideia viável com uma importante missão educacional dentro desse espaço”, reforça.

É também ao pensar o grande número de pessoas excluídas das possibilidades de acessar e ter contato com a arte como alicerce fundante de seu desenvolvimento que o projeto deseja abrir oportunidades para a descoberta de habilidades, o exercício da criatividade,  inovação e ferramentas de trabalho, já que o pouco ou zero convívio com atividades culturais e artísticas pode restringir a capacidade do indivíduo em reconhecer estímulos que o leve a ampliar o seu capital cultural e atuação profissional nestes campos.

“A tensão criativa é reveladora e abre o pensamento para novos significados e novas aprendizagens. A arte trabalha distintas habilidades utilizando imagens, sons, expressão, corporeidade e ritmo, estimula o pensamento e ajuda na organização dos passos para o futuro, pois é um excelente exercício de criação, de planejamento, execução, avaliação, de autoconhecimento e de respeito ao próximo. É uma ferramenta importante para chegar a lugares novos de entendimento para todas/os/es nós”, declara Saulo Viana e Alexandre Moreira, diretores de audiovisual do projeto.

Conhecida por produzir uma energia atenciosa e positiva capaz de contribuir para uma política de esperança apoiados em valores como o amor, o cuidado, a compaixão, a comunidade, a espiritualidade, a prática relacional e a justiça social, todo o projeto deve proporcionar um exercício de intensidade revelador, que desfaz bloqueios e provoca transformações, além de invocar e provocar perguntas e novas ideias utilizando métodos participativos, ativos e experienciais.

Aulas Forte é um projeto contemplado pelo Prêmio Jaime Sodré de Patrimônio Cultural ou Anselmo Serrat de Linguagens Artísticas ou Conceição Senna de Audiovisual (Conforme chamada onde o projeto foi selecionado), da Fundação Gregório de Mattos, Prefeitura de Salvador, por meio da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, com recursos oriundos da Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo, Governo Federal.

Instituto Forte

Fortaleza imperial e militar, o Forte do Barbalho – localizado na Rua Marechal Gabriel Botafogo, no Barbalho, na poligonal do Centro Antigo de Salvador, construído durante o século XVII com o intuito de defender Salvador da invasão holandesa – é também há quase duas décadas um espaço de construção artística que abriga profissionais de criação e execução das artes em distintas linguagens, – cenografia, figurino, maquiagem, iluminação, sonorização, adereçamento, atuação, grafite, dança, canto, serraria, artesanato, diretores teatrais, maquete, entre outros.

Os primeiros a chegarem foram o figurinista Maurício Martins, com o Acervo Boca de Cena em 2007, e cenógrafo e cenotécnico Gringo Freitas com o projeto Bahia Film Commission, do Governo do Estado da Bahia, criado para fomentar a arte cinematográfica e teatral no Forte do Barbalho. Em 14 anos, Maurício Martins conta que o Forte do Barbalho teve muitos gestores e mudanças de conceitos, mas que existe uma “batalha” para se manter no espaço e ter o reconhecimento do setor público e privado como polo de construção artística. “Somos profissionais que respiram arte o tempo todo, mesmo durante a pandemia com todos os distanciamentos.

Ao longo desses anos, por motivos diferentes, outros profissionais e empresas culturais se instalam transformando o Forte do Barbalho em um espaço de construção e também de memória das artes cênicas local. Após anos de ocupação artística, artistas e técnicos se articulam e criam o Instituto Forte (@institutoforte).

“Em 2020 iniciamos um novo caminho, onde unimos forças para criar uma identidade a partir das artes e do território. Somos artistas e técnicos em espetáculos e também somos Forte. O Instituto tem o objetivo de dar visibilidade a este conjunto de profissionais e também a este espaço que ocupamos – Forte do Barbalho, que é histórico e símbolo de resistência”, comenta Paquelet, que é integrante do Coletivo4, último grupo a chegar e se instalar em um dos pavilhões da fortificação, hoje cultural.

Este espaço, que foi a primeira fortificação em que bandeira brasileira foi hasteada, já serviu como enfermaria para coléricos, foi o principal centro de tortura e barbárie da Bahia na Ditatuta Militar na década de 1970, casa do Batalhão de Artilharias e, depois, pela 6ª Companhia da Polícia Militar, hoje não tem mais uso militar e, após a União ceder a edificação à Secult, que destinou a sua utilização a Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), tem sido espaço cultural de técnicos e artistas voltados a área de teatro, música, dança e cinema.

“A importância de existir um espaço como este é justamente o entendimento de que nossas profissões dependem de processos de construção que articulam distintos materiais, maquinários, dimensões e valores. A minha história sempre cruzou com o Barbalho, que frequento desde 1992. Já com o Forte do Barbalho em me relaciono desde que Maurício Martins foi pra lá, pois ele é a referência de acervo para toda a cidade. De lá pra cá já trabalhei nele como atriz, produtora, iluminadora e público”, complementa Paquelet.

Por fim, a ilustradora, grafiteira, artista plástica e arte educadora Tatiana Guimarães acredita que a formalização do Instituto contribui para o fortalecimento e reconhecimento profissional dos artistas ocupantes e da cultura perante o Estado, a Sociedade e a Comunidade do entorno, além de respaldo perante a Secretaria de Cultura do Estado. “Os valores que pregamos lá dentro passam por outros lugares, não somente o financeiro, pois trabalhamos com amor. Amar é ser gentil, é cuidar do outro, é ter amor por você mesmo e pelo trabalho que está fazendo, é você se sentir alegre, é ter atitudes positivas todos os dias. Em relação a mim, é estando ligada a esse sentimento, que minha arte surge”, pontua Tatiana.

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