O sucesso de Angela Merkel na Alemanha: 16 anos de neoliberalismo? | Por Clóvis Roberto Zimmermann

Angela Merkel, chanceler da Alemanha, palestra durante a edição 2020 do Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça.
Angela Merkel iniciou o governo como chanceler da Alemanha em 2005. Ela liderou o partido União Democrata-Cristã de 2000 a 2018.

Angela Merkel é chanceler da República Federal da Alemanha desde 22 de novembro de 2005, cujo mandato se encerra depois das eleições parlamentares de 26 de setembro de 2021. Merkel pertence ao partido de direita CDU, sendo eleita por 4 vezes consecutivas ao cargo máximo do seu país.  Segundo o cientista politico estadunidense Paul Pierson, sucesso na política é definido por vitórias eleitorais, o que é claramente o caso de Angela Merkel e de Lula no Brasil. Além disso, o cientista advoga que cortes nas políticas sociais e nos gastos tendem a ser prejudiciais tanto pra economia como para o sucesso político.

Em termos programáticos a direita tende a ser mais neoliberal e favorável ao corte de gastos sociais e ao desmantelamento do Estado de Bem Estar Social, enquanto que a esquerda tende a atuar em sua defesa e expansão.

Entretendo, Merkel não seguiu a cartilha neoliberal. O número de desempregados caiu bastante durante o governo de Merkel, de 11,7 % em 2005 para 5% em 2019. Dentre os motivos destacados estão as reformas de estímulo ativo ao mercado de trabalho (Hartz IV) realizadas pelo governo anterior do sozial-democrata Gehard Schröder.  Em contraste com os governos anteriores, Angela Merkel não será lembrada porque ela realizou reformas neoliberais, mas justamente por ter cancelado muitas das reformas de Schröder, tais como o pagamento de taxa adicional de 10 euros trimestrais por consulta médica.

Além disso, Merkel investiu bastante na criação de creches e de escolas em tempo integral, visando facilitar a entrada das mulheres no mercado de trabalho. Ademais, houve um contribuição ativa de Merkel na politicas de migração e de recebimento de novos asilados, especialmente da Síria.

Tudo isso contribui para que o gasto social, medido em termos de produto interno bruto (PIB) atingisse 33,6% no ano de 2020, aumentando 2,8% a mais do que no auge da crise financeira em 2009. Os gastos sociais passaram de 771,4 bilhões em 2010 para 1,040 trilhão de euros no ano de 2019. Como podemos perceber, o congelamento dos gastos sociais não faz parte do vocabulário de Angela Merkel e da direita alemã.

O sucesso de Angela Merkel no governo alemão se deu por sua contribuição na criação de novas políticas sociais e pela manutenção das existentes. Não houve diminuição dos gastos sociais nem o desmantelamento do Estado Social. Essa é a principal receita de seu sucesso político e de seu partido político, que pode eleger o sucessor Armin Laschet. Em outros termos, as políticas neoliberais representam um claro fracasso político e por isso são pouco utilizadas por grande parte dos partidos de direita na Europa. Infelizmente a direita latino-americana ainda não percebeu isso.

*Clóvis Roberto Zimmermann, doutor em Sociologia pela Universidade de Heidelberg, Alemanha e professor associado de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

**E-mail: clovis.zimmermann@gmail.com

Sobre Clóvis Roberto Zimmermann 17 Artigos
O pesquisador Clóvis Roberto Zimmermann é doutor em Sociologia pela Universidade Heidelberg (Ruprecht-Karls) (2004), possui graduação em Teologia pela Universidade de Heidelberg (Ruprecht-Karls) (1996); é professor adjunto do curso de Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), coordenador da pós-graduação em Ciências Sociais da UFBA e é professor do programa de doutorado em Sociologia da UFBA; tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Políticas Sociais, atuando, principalmente, nos seguintes temas: teoria das políticas sociais, participação popular e direitos humanos. *E-mail: clovis.zimmermann@gmail.com.