Não existem estadistas no Brasil  | Por Luiz Holanda 

O conselho editorial do jornal Washington Post considerou Jair Bolsonaro como o chefe de estado com pior desempenho em todo o planeta.
O conselho editorial do jornal Washington Post considerou Jair Bolsonaro como o chefe de estado com pior desempenho em todo o planeta.

A palavra estadista – ou homem de Estado-, significa a pessoa versada nos princípios da arte de governar, sempre preocupada em conduzir os negócios do governo visando o bem-estar do seu povo. Para Aristóteles, o desejo de um estadista é produzir certo caráter moral nos seus concidadãos. Do ponto de vista religioso, seria  aquele que possui virtudes e valores cristãos no exercício da prática política; uma espécie de rex justus, capaz de incluir felicidade na espiritualidade, além de ser uma pessoa justa, honesta e virtuosa.

Se atentarmos para os acontecimentos ocorridos no Brasil com a Covid-19, veremos que entre nós não existe essa figura. O presidente da França, Emmanuel Macron, ao apresentar as drásticas medidas para combater a coronavirus, se dirigiu à população dizendo que o país estava em guerra. A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, foi no mesmo sentido: em discurso televisado pediu que os alemãs se unissem para combater a pandemia, que, segundo ela, era “o maior desafio do país desde a Segunda Guerra Mundial”.

A rainha Elizabeth, da Inglaterra, em seu primeiro pronunciamento coletivo depois de 20 anos, orientou os britânicos a cumprirem o isolamento em casa, pois “são tempos de guerra”. O pronunciamento dos três líderes deu-se dentro de uma postura sóbria e esperançosa, incentivando seus liderados ao cumprimento das normas estabelecidas para o bem de todos.

O que se deduz dos três pronunciamentos é que foram feitos     por profissionais da política, com muito equilíbrio e alta responsabilidade. No Brasil foi bastante diferente. O presidente Bolsonaro desdenhou do vírus chamando-o de “uma gripezinha”. Tal postura desencadeou uma série de acontecimentos que terminou numa CPI, com reflexos na politica, na economia e na própria Justiça.

Uma análise histórica do comportamento dos nossos líderes, principalmente dos ex-presidentes, demonstra que não temos estadista. A retórica do ex-presidente Lula, por exemplo, era a mesmo do ex-sindicalista. Sua sucessora, Dilma Rousseff, ganhou destaques ao pronunciar asneiras que marcaram o seu mandato.

Lula, por ocasião da crise que assolava os países centrais, disse que aqui no Brasil aquilo era uma “marolinha”. Já Dilma, quando estava ao lado do então primeiro ministro britânico, Gordon Brown, ao se referir à onda de protestos no ano de 2013, afirmou que “a crise foi causada por gente branca de olhos azuis”.

Diante desses fatos, alguns historiadores analisaram a atitude e o comportamento de nossos líderes para mostrar a diferença entre um chefe de estado e um estadista. Segundo eles, o que predomina no Brasil é o que se tem de pior em matéria de homens públicos, Não só pela maneira como governam, herança colonial lusitana, com reflexo no poder dos coronéis, donos de terras, até hoje existente neste estado cartorial e de profundo abismo cultural..

As expressões utilizadas pelo presidente Bolsonaro em suas críticas deixam nossos diplomatas perplexos e desorientados, sem condições de explicar no exterior o palavreado presidencial. O conselho editorial do jornal Washington Post considerou Bolsonaro como o chefe de estado com pior desempenho em todo o planeta, principalmente ao enfrentar a pandemia, superando negativamente os presidentes do Turcomenistão, Belarus e Nicarágua.

Nossas instituições não são respeitadas nem nossos representantes obedecem a Constituição. O que mais sabemos é importar pensamentos alheios, imitar ditadores e acreditar que a força resolve tudo. Falta-nos um José Bonifácio de Andrada, primeiro brasileiro ministro de Estado. Culto, naturalista e membro da Academia de Ciências de Portugal, exerceu com maestria suas funções judicantes e de governo. Foi o único estadista que tivemos no império. Na República só tivemos um Juscelino Kubitschek.

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.

Sobre Luiz Holanda 354 Artigos
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: [email protected]