Lições de Lázaro | Por Joaci Góes

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Em Goiás, mais de 200 policiais participaram da captura do homicida Lázaro Barbosa de Sousa.
Em Goiás, mais de 200 policiais participaram da captura do homicida Lázaro Barbosa de Sousa.

Ao querido amigo Raul Chaves Filho.

Do rocambolesco episódio protagonizado pelo marginal baiano que recebeu na pia batismal o bonito nome de Lázaro Barbosa de Sousa, morto por uma saraivada de tiros, como o Serial Killer do DF, podemos extrair várias lições, importantes umas e curiosas outras.

Como curiosidade, seu pomposo nome evoca personalidades venerandas, como os personagens bíblicos Lázaro, o leproso, protagonista da parábola o Rico e Lázaro, e o Lázaro que ressuscitou por ordem de Jesus, quatro dias depois de morto, ator do “milagre essencial”, o clímax dos sinais, segundo João, abrindo caminho para a crucificação do Cristo. Outro personagem de grandeza oceânica, que seu nome evoca, Ruy Barbosa, João Mangabeira, falando pelo Congresso Brasileiro e pela Bahia, à beira de seu esquife, saudou-o com a invocação imorredoura: “Salve, Sol”! Por derradeiro, como a representar a grande massa popular de baianos e brasileiros, figura o simplório nome Souza, que teve no notável poeta negro, catarinense, (João da) Cruz e Souza – 1861-1898 -, apelidado de Dante Negro e Cisne Negro, a expressão máxima do simbolismo brasileiro.  Em Cruz e Souza, o também grande poeta simbolista francês Paul “Verlaine (1844-1896), encontrou concorrência para sua famosa aliteração Les sanglots longs des violons de l´automne blessent mon coeur d´une langueur monotone”, nesta do Dante Negro: “Vozes veladas, veludosas vozes, volúpias dos violões, vozes veladas, vagam nos velhos vórtices velozes dos ventos, vãs, vulcanizadas”!.

Se de um ponto de vista estritamente pragmático, o caso do Lázaro morto, na última segunda-feira, dia 28, foi apenas um a mais no cortejo dos inomináveis episódios de violência que o Brasil sedia, para inquietação dos brasileiros e estupefação do mundo civilizado, o modo como se deu sua formação, vida criminosa, captura e morte, oferece elementos para um diagnóstico pouco lisonjeiro do que se passa com as elites dirigentes, na Terra de Santa Cruz. A começar pelo relaxamento prematuro de sua primeira prisão, no estilo leniente dominante no sistema judiciário brasileiro, sob o comando do STF que, para desgosto geral, vem restaurando o velho e lamentável princípio segundo o qual, no Brasil, cadeia é coisa para pretos, pobres e putas. Os crimes do colarinho branco, com destaque para assalto ilimitado ao Erário, passaram a gozar de plena e garantida impunidade, entre nós. O espírito de isonomia manda soltar todos os 700.000 presos, no Brasil, a começar por Fernandinho Beira-Mar, um trombadinha diante de bandidos que o STF manda soltar.

Libertos da hipocrisia do patrulhamento do politicamente correto, as maiores autoridades no campo da psicologia reconhecem que há um estágio – point of no return -, em que a disposição para delinquir de certos indivíduos não tem volta, como parece ser o caso desse baiano, nascido em Barra do Mendes, município da Região de Irecê, antigo distrito de Brotas de Macaúbas, com cerca de 15.000 habitantes, a pouco mais de 500 km de Salvador, onde, em 1918, se travou uma batalha de dois meses de duração, entre os coronéis Horácio de Matos e Militão Coelho, conflito mediado pelo então governador Antônio Muniz Aragão.

A morte de Lázaro pareceu o desfecho mais conveniente para todos – sociedade e familiares -, inclusive para o próprio, autor de alguns crimes cuja natureza hedionda costuma ser vingada, com requintes de perversidade, pelo espírito justiceiro da comunidade carcerária.

 É imperioso reconhecer, porém, que Lázaro era um homem dotado de excepcional talento tático-guerrilheiro, de fazer inveja a gente como Che Guevara (1928-1967) e Carlos Lamarca (1937-1971). Essa é a inelutável conclusão a que se chega depois de acompanhar a dura caçada que sofreu de 270 policiais, cães farejadores, drones, helicópteros e informantes, em território por ele desconhecido, diferentemente do que foi propalado, num episódio que galvanizou a opinião pública nacional, ao longo de vinte dias.

Pergunta-se: talentoso como inegavelmente o foi, se Lázaro tivesse recebido boa educação, qual teria sido o curso de sua vida?  O Brasil só deixará de ser o País do futuro quando o seu povo passar a julgar os seus representantes pelo que fazem pela educação das massas.

*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário e ex-deputado federal constituinte.

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