Capítulo XLIII do Caso Faroeste: Criminoso confesso Nelson José Vigolo ataca o TJBA; Associada da ORCRIM, Sandra Inês Rusciolelli tem estrutura da delação revelada na qual são citados dezenas de nomes

Criminosos confessos Nelson José Vigolo e Sandra Inês Rusciolelli protagonizam os principais fatos e notícias sobre o Caso Faroeste, durante a segunda semana de julho de 2021.
Criminosos confessos Nelson José Vigolo e Sandra Inês Rusciolelli protagonizam os principais fatos e notícias sobre o Caso Faroeste, durante a segunda semana de julho de 2021.

A segunda semana de julho de 2021 trouxe fatos novos sobre o Sistema de Corrupção Faroeste. Seis investigados, enquadrados pelo Ministério Público Federal (MPF) como membros de duas Organizações Criminosas (ORCRIM) protagonizaram as notícias deste período e cinco dos seis envolvidos nesta história de transgressões se tornaram delatores, portanto, criminosos confessos do Caso Faroeste. 

No transcurso da 5ª fase da Operação Faroeste, ocorrida em 24 de março de 2020, Sandra Inês Rusciolelli, Vasco Rusciolelli Azevedo e Vanderlei Chilante foram presos em flagrante.  Nelson José Vigolo foi indiciado, enquanto Júlio César, primeiro delator do Caso Faroeste, atuando no esquema da propina era monitorado em tempo real pela Polícia Federal (PF), ao passo em que promovia o acerto e pagamento de parcela financeira dos R$ 4 milhões prometidos pelo corrupto Grupo Bom Jesus Agropecuária à desembargadora do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA). 

Enquanto capodecina da orcrim, Júlio César figura como denunciado em quase todas as ações penais decorrentes das investigações federais sobre corrupção envolvendo o Poder Judiciário Estadual da Bahia (PJBA). 

Outro a protagonizar fatos durante a segunda semana de julho de 2021 foi Sérgio Humberto. Ele foi indiciado na 1ª fase da Operação, deflagrada em 19 de novembro. Posteriormente, foi preso durante a 2º fase da Operação Faroeste, deflagrada em 23 de novembro de 2019 e permanece recluso em cela do Estado até o momento. 

A narrativa desses fatos se impõem ante a série de reportagens sobre o ‘Caso Faroeste: A luta de José Valter pelas terras da antiga Fazenda São José’, porque possuem vínculo com as notícias apresentadas semanalmente, aos domingos, pelo Jornal Grande Bahia (JGB), sobre o conflito jurídico-fundiário iniciado em 1981, quando o Grupo Econômico dos Okamotos invadiu as terras da antiga Fazenda São José, imóvel rural situado em Formosa do Rio Preto, no oeste da Bahia.

À época da grilagem promovida pelo Okamotos, as terras, ou parte delas, eram ocupadas pelo empresário de Barreiras José Valter Dias e o mesmo ingressou com Ação de Reintegração de Posse (Processo nº 0000157-61.1990.8.05.0081), iniciando uma disputa judicial pelos 360 mil hectares, que dura quatro décadas e parece não ter fim.

A corrupção desvelada na disputa pelas terras da antiga Fazenda São José foi o ponto inicial de uma das mais vigorosas e profundas investigações federais envolvendo corrupção no Poder Judiciário do Brasil.

Narrar a correlação dos fatos e personagens envolvidos no conflito jurídico-fundiário tem sido um desafio jornalístico que se impõe à equipe do Jornal Grande Bahia em função da complexidade, abrangência e importância sociopolítica do assunto.

Quem são os delatores do Caso Faroeste

Nesse contexto, situado no centro desta história de transgressões está o criminoso confesso Júlio César Ferreira Cavalcanti, advogado (OAB Bahia nº 32.881) e ex-servidor do TJBA, notório criminoso aliciador do Sistema de Justiça, cuja delação resultou na entrega de 30 anexos que narram e documentam possíveis atos de corrupção envolvendo outros membros da Organização Criminosa (ORCRIM) da qual era e, talvez, permaneça como líder.

Ao lado de Júlio César, emergem como delatores a criminosa desembargadora do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) Sandra Inês Moraes Rusciolelli Azevedo; o filho, advogado Vasco Rusciolelli Azevedo; empresário Nelson José Vigolo, diretor da corrupta Grupo Bom Jesus Agropecuária; e Vanderlei Chilante, advogado da empresa agropastoril. 

É citada, também, como colaboradora da Justiça, ou seja, criminosa confessa, a advogada Rosimeri Zanetti Martins. 

O empresário do agronegócio Walter Yukio Horita teve, também, o nome citado pelo Ministério Público Federal (MPF) como uma pessoa que fez acordo com a Justiça, mas não se pode dizer ao certo se foi na condição de delator e qual a exata implicação do mesmo com o Caso Faroeste. 

Essa situação de desconhecimento impõe a necessidade de publicizar o quanto antes os termos dos acordos de delação celebrados para que a população possa exercer o controle social das atividades de Estado e para que as pessoas, empresas e entidades que tiveram o direito violado pelos delatores possam reivindicar reparação judicial. 

As ações penais promovidas contra todos investigados do Caso Faroeste

Além dos Acordos Judiciais de Colaboração celebrados com seis criminosos, desde a 1ª fase da Operação Faroeste, até o momento, foram executadas, no âmbito da investigação federal, 8 ações ostensivas pela Polícia Federal (PF); promovidas 7 ações penais federais pelo MPF, as de número APn nº 940/DF, APn nº 953/DF, APn nº 965/DF, APn nº 985/DF, APn nº 986/DF, APn nº 987/DF, APn nº 1025/DF e uma ação penal estadual foi apresentada pelo Ministério Público da Bahia (MPBA), em 12 de julho de 2021.

A elevada gravidade dos crimes praticados pelos delatores

Sobre a gravidade dos crimes promovidos pelos envolvidos — Júlio César, Sandra Inês Rusciolelli, Vasco Rusciolelli Azevedo, Vanderlei Chilante e Nelson José Vigolo — através da prática de corrupção e lavagem de dinheiro, ligadas à “comercialização” de decisões judiciais, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Og Fernandes, relator dos processos judiciais no âmbito do Caso Faroeste, foi taxativo ao apresentar decisão sobre a Ação Penal nº 953/ DF (2020/0082853-9), em 23 de março de 2021, imputando a responsabilidade a delatora que está afastada da função de desembargadora do TJBA.

— O caso, como já fundamentado acima, apresenta alta gravidade, com indícios veementes de desvios na atuação funcional da desembargadora investigada. Nota-se ainda que, até mesmo durante o desenrolar das investigações, os possíveis ilícitos (“vendas” de decisões judiciais) continuaram a acontecer, em uma atuação advinda do âmago do próprio Poder que deveria julgar e punir tais condutas.

— Os fatos são extremamente graves e foram perpetrados no exercício de uma das mais nobres atividades de Estado, uma vez que aos ocupantes da magistratura foi confiado o poder de decidir sobre a liberdade, o patrimônio e outros temas altamente sensíveis a todos os cidadãos.

— São crimes ligados ao exercício funcional, praticados no desempenho do cargo e com abuso dele, crimes esses que trouxeram efeito deletério à reputação, à imagem e à credibilidade do Poder Judiciário da Bahia.

— A natureza da atividade desenvolvida pela investigada exige e impõe atuar probo, lídimo, íntegro e transparente. É agente remunerado para restaurar a ordem, para fazer cumprir as leis e para zelar pelo princípio republicano.

— É inaceitável que a magistrada investigada, aparentemente descambando para a ilegalidade, valha-se das relevantes funções que o Estado lhe confiou para enriquecer ilicitamente, em prejuízo da justiça que deveria fazer prevalecer diuturnamente, afastando-se do dever de reparar ilegalidades e de restaurar o império da lei.

— Ao que indicam as provas colhidas até o presente momento, em prol de seus interesses econômicos escusos, a referida investigada prejudicou e prossegue prejudicando o jurisdicionado, o direito de propriedade e o livre exercício da atividade econômica.

— É mister impedir que essa pessoa prossiga atuando, quando paira sobre ele a fundada suspeita de que o seu atuar não seja o lídimo e imparcial agir que se espera de um membro do Poder Judiciário.

— Não se pode viabilizar que continue a investigada em tela ditando o que é justo e o que não é, ou quais sentenças de primeiro grau devem e quais não devem ser reformadas, ou que tome assento nos julgamentos das questões internas do Tribunal de Justiça da Bahia, quando ela própria é suspeita de abjeta conduta.

— O seu afastamento, portanto, não visa apenas a resguardar a imagem do Judiciário do Estado da Bahia, mas sim, primordialmente, a dar segurança ao jurisdicionado de que não serão julgados por pretora suspeita, acusada de venda de sentença e de integrar organização criminosa.

— Como dito, a integridade, a probidade e seriedade são corolários inafastáveis do desempenho da relevante função de julgador. Exige-se do magistrado agir impecavelmente probo e íntegro. Sobre eles não deve pairar qualquer suspeita de ato que atente contra a moralidade administrativa ou que suscite dúvidas sobre sua legalidade.

— Nesse quadrante, o afastamento atende, primeiramente, à necessidade de resguardo da ordem pública, seriamente comprometida pelo agir escuso dos investigados.

— Em segundo, atende à necessidade de estancar a ação criminosa da desembargadora. Ao que se tem no caderno investigatório, há autêntica organização voltada ao comércio de decisões judiciais e ao exercício de influência na Corte de Justiça baiana, mais especificamente na região oeste do Estado-membro.

MPBA denuncia ORCRIM que beneficiou o Grupo Bom Jesus Agropecuária 

Em outra frente, nesta segunda semana de julho de 2021, o Ministério Público da Bahia (MPBA), por meio da procuradoria-geral de Justiça e do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas e Investigações Criminais (Gaeco), denunciou nesta segunda-feira (12), Sérgio Humberto Quadros Sampaio, juiz de Direito, ex-titular da 5ª vara de Substituições da Comarca de Salvador e ex-titular da Comarca de Formosa do Rio Preto; o notório mafioso Júlio César Cavalcanti Ferreira; Vanderlei Chilante, advogado do Grupo Bom Jesus Agropecuária e o empresário Nelson José Vigolo, diretor da empresa agropastoril, por crimes de lavagem de dinheiro e corrupção em esquema criminoso criado para blindar grupo econômico que disputava propriedades de terras na região oeste da Bahia.

Segundo a denúncia, foi ajustado pagamento de R$ 1 milhão ao magistrado para que ele se declarasse suspeito nos processos de interesse do Grupo Bom Jesus Agropecuária, com o objetivo de o juiz não proferir novas decisões desfavoráveis. 

O MPBA requereu a prisão preventiva do juiz, além da perda de função pública e decretação de perdimento de produtos dos crimes no valor mínimo de R$ 1,5 milhão.

Criminoso confesso Nelson José Vigolo ataca o TJBA

O Grupo Bom Jesus Agropecuária é uma corrupta e poderosa empresa agropastoril que atua sob a liderança de Nelson José Vigolo. O empresário do agronegócio se tornou colaborador da Justiça ao confessar os crimes que cometeu. Figura ao lado dele, o advogado do Grupo Vanderlei Chilante. A atividade transgressora da dupla de propineiros foi documentada pela PF no transcurso da 5ª fase da Operação Faroeste, ocorrida em 24 de março de 2020.

— A Polícia Federal registrou, assim, todo o ciclo criminoso da corrupção no Mandado de Segurança nº 0023332-59.2015.8.05.0000, após a prolação do seu julgamento [ministro do STJ Og Fernandes] no dia 21/01/2020, mediante monitoramento dos seguintes atos: 1º) Em 27/01/2020, reunião entre Júlio César e Vasco Rusciolelli para organizar os recebimentos ilícitos; 2º) Em 20/02/2020, encontro entre Júlio César e Vanderlei Chilante para agendamento do pagamento e atos judiciais subsequentes; 3º) Em 16/03/2020, deslocamento de Geraldo Vigolo, levando o dinheiro da propina em veículo pertencente a Bom Jesus Agropecuária, para o escritório de advocacia de Vanderlei Chilante; 4º) Em 16/03/2020, movimentação de Vanderlei Chilante entregando os aludidos valores a Júlio César; 5º) Em 17/03/2020, encontro entre Júlio César e Vasco Rusciolelli para entrega da propina que estava acondicionada em uma mochila; 6º) Em 17/03/2020, circulação de Vasco Rusciolelli e Jamille Rusciolelli para dissociar os valores da mochila recebido Júlio César; e 7º) Em 17/03/2020, chegada da propina na residência da desembargadora Sandra Inês Rusciolelli; 8º) Em 24 de março de 2020, prisão da magistrada e dos demais envolvidos, além do indiciamento do presidente do Grupo Bom Jesus Agropecuária. (PGR, 10/11/2020, p. 74)

Em síntese, para servidores, ex-servidores, juízes e desembargadores serem corrompidos foi necessário que alguém pagasse pela propina e foi justamente a dupla Nelson José Vigolo e Vanderlei Chilante os responsáveis por aliciar os agentes públicos e corromper o próprio sentido de Justiça, tendo como finalidade a manutenção judicial dos fraudulentos registros cartoriais de nº 726 e 727, usados por decadas pelos Okamotos e, com isso, a manutenção ilegal de propriedades rurais situadas nas terras da antiga Fazenda São José, em Formosa do Rio Preto. 

Ao menos, isso é o que se sabe até o momento, mas é possível supor que a prática de pagar propina talvez não esteja circunscrita ao conflito fundiário-jurídico que ocorre no oeste da Bahia, haja vista que a empresa tem ramificações em outros estados da federação.

No entanto, mesmo se tornando um criminoso confesso, o pagador de propina Nelson José Vigolo parece não ter perdido a empáfia ao tentar inverter a lógica e materialidade fática dos atos que pratica, ao enviar nota na terça-feira (13/07/2021) ao site Política Livre, afirmando que dedicou boa parte da vida à agricultura e que “foi mais uma vítima do esquema instalado no Tribunal de Justiça e devidamente desvendado pela Operação Faroeste”. 

Ele declarou, também, que “as investigações deixaram bem claro que demandas dos agricultores não submetidas às regras do jogo eram sumariamente rejeitadas, não importa se estavam ou não ancoradas nas Leis”.

A falácia dos argumentos do criminoso Nelson José Vigolo

Conforme fonte do JGB, o argumento do criminoso é falacioso. Para fundamentar a sentença, a fonte cita os seguintes fatos e argumentos: 

— Nelson José Vigolo contratou o notório criminoso Júlio César para pagar propina a desembargadores, magistrados e servidores porque sabia que a documentação que utilizou para se apropriar das terras da antiga Fazenda São José era oriunda de fraude. 

— A fraude dos registros cartoriais de nº 726 e 727 foi utilizada por décadas pelos Okamotos através de subterfúgios protelatórios, que foram identificados pelo MPBA, cuja iniciativa foi requerer ao TJBA a nulidade dos mesmos, obtendo êxito com o entendimento baseado em levantamento técnico realizado por periciais judiciais que foram relatadas na Portaria nº 105/2015, publicada em 22 de julho de 2015, pela desembargadora Vilma Costa Veiga, que reconheceu os direitos de posse e propriedade de José Valter Dias e a validade da matrícula nº 1037, em decisão que restabelece a cadeia sucessória adquirida dos legítimos herdeiros de Suzano Ribeiro de Souza, sobre as terras da antiga Fazenda São José.

— Diante da materialidade fática da fraude e na iminência de perder as terras no oeste da Bahia, o criminoso Nelson José Vigolo recorre ao amigo Osmar Serraglio, à época, deputado federal, para promover ato político na Câmara e provocar o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), através da então conselheira Maria Tereza Uille Gomes, a conseguir uma decisão administrativa que superasse a decisão judicial sobre a fraude envolvendo os registros cartoriais de nº 726 e 727.

— Ocorre que o problema persiste, porque a documentação em mãos do CNJ indica objetivamente que  os registros cartoriais de nº 726 e 727 são fraudulentos e que, portanto, os detentores do mesmo não possuem direito sobre as terras. Eis porque Nelson José Vigolo e Vanderlei Chilante se tornaram confidentes dos crimes que cometeram.

— No contexto fático, urge a necessidade em banir o Grupo Bom Jesus Agropecuária das terras da antiga Fazenda São José porque o direito sobre as mesmas foi resultante de registros cartoriais fraudulentos e do pagamento de propina a servidores, ex-servidores, juízes e desembargadores do TJBA, referentes a processos judiciais que tramitam no PJBA. 

— Por fim, é importante lembrar que o “honesto” delator Nelson José Vigolo manteve atividade criminosa de aliciamento de magistrados e servidores do PJBA, mesmo após deflagrada a 1ª, 2ª, 3ª e 4ª fases da Operação Faroeste. Neste contexto, é possível supor que tinha certeza da impunidade. A situação é de tal ordem sui generis que, ao mesmo tempo em que denunciava o grupo opositor ao CNJ sobre ilicitudes nas demandas judiciais das terras da antiga Fazenda São José, aliciava altos funcionários do Estado para manter os fraudulentos registros cartoriais de nº 726 e 727 e, com eles, a posse sobre parte das terras. Em um ato criminoso exitoso, porque as propriedades rurais ainda estão sob posse do corrupto Grupo Bom Jesus Agropecuária. 

Jornal Folha de S.Paulo relata estrutura da delação de Sandra Inês Rusciolelli e Vasco Rusciolelli Azevedo

Para concluir as revelações da segunda semana de julho de 2021, coube ao Jornal Folha de S.Paulo, através de reportagem de José Marques, publicada na quinta-feira (15), com título ‘Dezenas de magistrados, advogados e empresários estão em delação inédita de desembargadora’, apresentar elementos da estrutura da delação da criminosa desembargadora do TJBA Sandra Inês Moraes Rusciolelli Azevedo e do filho, advogado Vasco Rusciolelli Azevedo. 

A partir do que foi narrado pelo veículo de comunicação, pode-se supor que Sandra Inês Rusciolelli e Vasco Rusciolelli eram membros “privilegiados” de um vasto império do crime que atuava e que talvez ainda atue através do Sistema Estadual de Justiça da Bahia. É importante salientar que, geralmente, apenas os líderes das Organizações Criminosas conhecem a completa estrutura e os membros que dela fazem parte.

Em 24 de março de 2020, a dupla de criminosos foi presa em flagrante. Posteriormente, ao final de setembro de 2020, eles passaram a cumprir pena de restrição de direitos com uso de tornozeleira, foi quando o ministro do STJ Og Fernandes comutou a prisão em custódia do Estado para reclusão domiciliar. 

Desde o primeiro momento da prisão da dupla existiam rumores sobre tratativas para celebrar um Acordo de Colaboração com a Justiça. Talvez tenha contribuído para que a delação fosse aceita o fato da desembargadora ter sido oriunda dos quadros do MP estadual da Bahia e de ter parente em posição relevante na estrutura do órgão. Fato que apenas poderá ser completamente avaliado quando for divulgado os anexos da colaboração. 

Fato é que entre a prisão e a divulgação da peça processual do MPF no qual Sandra Inês Rusciolelli e Vasco Rusciolelli aparecem como delatores, muita especulação ocorreu. Inclusive, documentos com termos de uma suposta delação circularam nas redes sociais da internet.

A situação levou a uma disputa judicial entre o advogado da delatora Pedro Henrique Silveira Ferreira do Amaral Duarte (OAB/BA 22.729) e a presidente da Associação dos Magistrados da Bahia (AMAB), magistrada Nartir Weber. 

No contexto dos fatos, o Jornal Grande Bahia publicou as seguintes reportagens:

Caso Faroeste: Advogado Pedro Henrique Duarte diz que assinatura da possível proposta de delação, em nome da desembargadora Sandra Inês Rusciolelli e do filho, não é dele; Documento circula na rede social do WhatsApp

Exclusivo: Nomes e detalhes da Minuta da Delação que circula nas redes sociais da internet em que são listadas 57 pessoas como envolvidas no Caso Faroeste

De forma tardia, AMAB emite nota sobre supostas delações em que são citados magistrados e outros como possíveis implicados em atos de corrupção do Caso Faroeste e ataca Liberdade de Imprensa

Em nota, AMAB retira tom velado de ameaça aos jornalistas e diz que é favor da apuração federal do Caso Faroeste

Independente do contexto, fato é que Sandra Inês Rusciolelli e Vasco Rusciolelli se tornaram delatores e as acusações que promovem contra terceiros devem ser analisadas como uma afirmação de criminosos confessos contra cidadãos. 

Conforme narrativa da Folha de S.Paulo, a lista de cidadãos acusados pela dupla de bandidos como tendo praticado crimes e ou serem membros da ORCRIM é grande. 

Os 39 anexos da delação de Sandra Inês Rusciolelli e Vasco Rusciolelli

O veículo de comunicação informou que o Acordo de Colaboração com a Justiça foi homologado em junho de 2021 e conta com 39 anexos. Entre os citados por  Sandra Inês Rusciolelli e Vasco Rusciolelli, segundo a Folha, estão 12 desembargadores do TJBA, incluindo uma desembargadora aposentada e 12 juízes. Três dos desembargadores delatados ainda não haviam sido citados anteriormente na investigação federal.

Além disso, são mencionados 15 advogados e 16 servidores do TJBA, mais de uma dezena de filhos e parentes de magistrados do PJBA e de investigados que participaram de esquemas criminosos, segundo a delação.

Os delatores citam, também, um político com mandato no Congresso Nacional, empresários e agentes públicos como o delegado da Polícia Federal Maurício Teles Barbosa, ex-secretário de Segurança Pública da Bahia (SSP Bahia).

Em síntese, os cinco réus da Ação Penal nº 953/DF se tornaram delatores do Caso Faroeste, algo incomum para o Sistema de Justiça do Brasil, mas que permite um aprofundamento da correlação das narrativas apresentadas pelos membros da ORCRIM, haja vista que possíveis omissões e contradições podem levar a Justiça a anular os benefícios concedidos aos criminosos. 

Desembargadores do TJBA investigados

Em levantamento realizado pelo JGB, foram listados os seguintes desembargadores do TJBA como investigados no âmbito do Caso Faroeste:

  •   Gesivaldo Nascimento Britto, presidente do TJBA de 2018 a 2020;
  •   Ilona Marcia Reis;
  •   Ivanilton Santos da Silva;
  •   José Olegário Monção Caldas;
  •   Lígia Maria Ramos Cunha Lima;
  •   Maria da Graça Osório Pimentel, vice-presidente do TJBA de 2018 a 2020;
  •   Maria do Socorro Barreto Santiago, presidente do TJBA de 2016 a 2018; e
  •   Sandra Inês Moraes Rusciolelli Azevedo, delatora.

Próximo capítulo

No Capítulo XLIII, será retomada a narrativa diacrônica sobre o ‘Caso Faroeste: A luta de José Valter pelas terras da antiga Fazenda São José’, remetendo ao ano de 2017, quando foi proposta a Ação de Oposição por Domingos Bispo.

Leia +

Capítulo XLII do Caso Faroeste: A nova denúncia do MPF e a delação da desembargadora do TJBA Sandra Inês Rusciolelli, cujos atos ilícitos, em tese, foram praticados em associação com representantes do Grupo Bom Jesus Agropecuária

Capítulo XLI do Caso Faroeste: A desesperança em meio as ações penais que tramitam na Corte Especial do STJ contra os investigados nas operações

MPBA denuncia juiz, advogados e empresário envolvidos no Caso Faroeste por corrupção e lavagem de dinheiro; Propina de R$ 1 milhão foi ajustada com magistrado para blindar Grupo Bom Jesus Agropecuária

Caso Faroeste: A decisão do STJ que ordenou a prisão da desembargadora Sandra Inês Rusciolelli e dos advogados Vasco Rusciolelli e Vanderlei Chilante; Milionário esquema envolve Nelson José Vigolo

Capítulo II do Caso Faroeste 2: O encontro entre Júlio César e Vasco Rusciolelli Azevedo; Advogado, filho da desembargadora, recebeu propina oriunda do latifundiário Nelson Vígolo

 

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Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).