Auto-inveja na política | Por Joaci Góes

Capa do livro 'A inveja nossa de cada dia, como lidar com ela’, obra de autoria de Joaci Góes.
Capa do livro 'A inveja nossa de cada dia, como lidar com ela’, obra de autoria de Joaci Góes.

Aos queridos sobrinhos Iris e Eduardo Sande.

No livro ‘A inveja nossa de cada dia, como lidar com ela’, dedicamos um capítulo à Auto-inveja, teoria que o psicanalista canadense, nascido na Venezuela, Rafael E. Lopez-Corvo (1934- ) desenvolveu, onde explica as razões que levam personalidades criativas a promoverem a própria destruição. Segundo ele, a compreensão da auto-inveja é indispensável para o entendimento de algumas posturas emocionais derivadas do inconsciente. Trata-se, portanto, de um instrumento útil para examinar a arquitetura de nosso mundo interior. Só quando compreendemos que nosso mundo interior é formado pelas múltiplas e complexas interações dessas diferentes e polivalentes partes do nosso ‘eu’, é que passamos a compreender porque um desalentado aspecto de nós é capaz de invejar outro elemento interno, criativo ou idealizado. Do mesmo modo que as personagens se movimentam em nossos sonhos em caráter autônomo, fazendo coisas que não queremos, porque tememos ou nos são desagradáveis, estas partes despeitadas de nosso eu agem com autonomia em relação àqueloutras cuja criatividade invejam. É como se fossemos um maestro regendo uma orquestra em que os nossos sentimentos são os instrumentistas. O surdo, o baixo ou o pandeiro, eventualmente, invejosos do brilho solitário dos solos dos violinos ou das clarinetas, perturbam sua execução, danificando-os. Lopez-Corvo apoia sua teoria no pensamento psicanalítico de gente como Aristóteles, Freud, Otto Rank, Melanie Klein, Hanna Segal, Donald Meltzer, Joseph Berke.

A autonomia desta máfia dos sentimentos se processaria de modo semelhante à dos “atos falhos” que, exprimindo nosso desejo inconsciente, escapam ao controle de nosso comando racional. O vizinho disse “meus parabéns”, à viúva, quando queria dizer “meus pêsames”, demonstrando, involuntariamente, antipatia pelo morto. O rapaz chamou a namorada de “mamãe”, verbalizando seu complexo de Édipo. O presidente disse, na abertura do seminário, “declaro encerrada a sessão”, revelando seu desgosto pela realização do evento, quando deveria ter dito “declaro aberta a sessão”, e assim por diante.

Aos exemplos citados por López-Corvo da ação desenvolta da auto-inveja, como a morte prematura dos Papas João Paulo I e Papa Alexandre de Medici, poucos dias depois de proclamados, podemos acrescer a mortal septicemia que acometeu Tancredo Neves, no dia de sua posse no desejado cargo de presidente da República. Igualmente, a auto-inveja explicaria a cegueira parcial de James Joyce, autor de Ulysses, ou a cegueira total do escritor argentino Jorge Luis Borges. A surdez de Ludwig von Beethoven pertenceria à mesma linhagem da auto-inveja. López-Corvo, apoiado em abundante casuística psicanalítica, aceita que apenas uma percentagem desses casos seja atribuída ao destino ou ao acaso. Não residiria aí a explicação dos conflitos mentais experimentados por ilustres alcoólatras, drogados, suicidas ou portadores de outros sentimentos autodestrutivos, como Van Gogh, Baudelaire, Coleridge, Poe, Lord Byron, Robert Louis Stevenson, Conan Doyle, Schumann, Virginia Woolf, Aldous Huxley, Hemingway, Vinícius de Morais, Baden Powell, Noel Rosa, Nelson Rodrigues, João Ubaldo Ribeiro, Maradona, Heleno de Freitas, Steve Jobs, Garrincha, Bjorn Borg, e tantos outros?

Em outras palavras: a auto-inveja resultaria do ataque agressivo e direto de impulsos invejosos, incessantemente desferidos por uma parte narcísica, contra a parte boa e criativa do ‘eu’. Os gregos simplificaram o entendimento desta multifária vocação individual, atribuindo aos indivíduos várias almas, cada uma delas responsável por uma tendência. Dante, refletindo o pensamento católico, condenou, na Divina Comédia, “aquela errônea crença que afirma haver em nós uma alma dentro de outra alma embutida”.

Em suma: a auto-inveja seria atributo de uma gang mafiosa, integrada por maus sentimentos, cujo propósito central é o de controlar as partes boas do ‘eu’, tiranizando-as através de ameaças, coerção, manipulação, sedução, fraude ou logro, conduzindo à autodestruição. É o grande obstáculo que os indivíduos criativos precisam superar para serem felizes. A esse desejo inconsciente de morrer e de autodestruição a psicanálise clássica denomina “pulsão de morte” e “neurose de fracasso”.

Essa longa digressão vem a propósito de tentar compreender o que se passa com o Presidente Bolsonaro. Protagonista de uma histórica vitória, de exclusiva aliança com o desejo popular, montou brilhante equipe ministerial e deu sequência a um programa administrativo capaz de desenvolver o País, reduzindo nossas ingentes desigualdades e colocando de joelhos as forças do atraso que se lhe opõem, capitaneadas pela grande mídia e políticos tradicionais viciados no “jeitinho brasileiro”. Para estupefação geral, porém, o Presidente passa a atuar como se oposição ao seu próprio governo fosse, não do ponto de vista substantivo, mas do ponto de vista formal, numa sucessão caleidoscópica de golpes contra si mesmo, dificultando, a ponto de impedir, a percepção, pela população, dos aspectos benfazejos de sua ação, aumentando o sentimento de insegurança geral, produzido pela Covid-19.

Como ninguém tem sido capaz de explicar a causa, pergunta-se: seria auto-inveja?

*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário e ex-deputado federal constituinte.

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