Rio de Janeiro: Favela do Jacarezinho surgiu como quilombo, lutou contra a ditadura e hoje é refém da violência

Nos anos 1990, a favela do Jacarezinho sofreu as consequências do desemprego e da falta de políticas sociais.
Nos anos 1990, a favela do Jacarezinho sofreu as consequências do desemprego e da falta de políticas sociais.

A operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro aconteceu em um lugar que já foi um “quilombo urbano”: a favela do Jacarezinho.

A região na Zona Norte do Rio de Janeiro abrigou negros fugitivos durante a escravidão, fez parte de um grande polo industrial no século 20 e ficou marcada no decorrer dos anos pela sua efervescência cultural e sua mobilização política.

O líder comunitário Rumba Gabriel acompanhou de perto a operação que aconteceu no dia 6 de abril, quando 29 pessoas morreram.

“Ainda somos objeto, ainda somos resto”, afirma. “Foi um dia muito complicado, principalmente para mim, que estou nessa luta há muito tempo.”

Morador da comunidade desde que nasceu, há 66 anos, Rumba Gabriel é jornalista, teólogo e é uma liderança local há mais de três décadas.

Criou o site de notícias Portal Favelas e atualmente faz parte da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

A trajetória pessoal e política de Rumba se entrelaça com a história do próprio Jacarezinho e os rumos tomados pela comunidade.

De quilombo urbano a parque industrial

O pesquisador Jonas Abreu aponta no estudo “A invenção da favela industrial: pistas da história, memória e identidade do Jacarezinho” que a formação do Jacarezinho como o conhecemos hoje começou um pouco antes da década de 1920.

O território era parte da comarca do Engenho Novo, próximo do Engenho de Dentro e Engenho da Rainha. As primeiras ocupações aconteceram na parte alta do morro. Segundo Rumba, havia um motivo para isso: a necessidade de se proteger.

“O Jacarezinho cresce de cima para baixo porque aqueles primeiros moradores ainda estavam desconfiados dos capitães do mato”, diz ele.

Capitão do mato era um serviçal de fazenda encarregado de capturar escravizados que fugiam.

Rumba conta que, antes de ser uma favela, o Jacarezinho abrigou negros que haviam fugido de fazendas próximas. Por isso, pode ser considerado um “quilombo urbano”.

“Já havia negros ali antes dos anos 1920, fugidios da Serra do Mateus, lá na Boca do Mato. Quando o padre Alexandre Língua foi construir o santuário Nossa Senhora da Conceição no Engenho Novo, anos depois, muitas ossadas de escravos foram encontradas”, diz Rumba.

Mas é dos anos 1920 em diante que o Jacarezinho começa a se consolidar como uma comunidade. A área ocupada inicialmente era de posse da família de Getúlio Vargas, que cedeu as terras para aqueles moradores.

“Após a abolição, esse local foi apropriado pela família Vargas. No Brasil, a classe dominante não compra terreno, ganha. Dizem que a família Vargas doou para a favela do Jacarezinho crescer, mas como se doa algo que não se comprou?”, questiona Rumba.

Já o território para onde a favela começa a se expandir, na parte de baixo, abrigava empresas como a Concórdia e a Fábrica Unida de Tecidos, que surgiram do arrendamento de uma antiga fazenda do local.

O fluxo migratório para favelas da Zona Norte do Rio aumentou à medida que a indústria se expandiu no país.

O Jacarezinho cresceu em função de fábricas que se instalavam no entorno, como a fabricante de fósforos Cruzeiro, a gigante americana General Eletric e a Cisper, especializada em vidros, e também por causa da linha férrea que atravessava o local.

Além disso, o Jacarezinho não era distante do centro do Rio e de localidades vizinhas que também se industrializavam, como Maria da Graça e o bairro do Jacaré, o que estimulou a chegada de moradores. Primeiro, vindos do centro e da região portuária do Rio. Posteriormente, do noroeste do Estado e de cidades rurais de Espírito Santo e Minas Gerais.

No decorrer de alguns anos, a comunidade que já foi conhecida como Morro do Padre Paulo e Morro da Titica, antes de virar o Jacarezinho nos anos 1940 – e chegou a ser considerada a maior favela do Rio.

A comunidade ganhou seu nome atual por causa do rio Jacaré, que atravessa o local.

Houve ainda um novo impulso de expansão na favela em 1961, quando o então governador Carlos Lacerda decretou a criação do Complexo Industrial do Jacaré, no bairro vizinho ao Jacarezinho, incentivando a construção de mais fábricas na região.

Foi um período fértil para a favela. Os moradores tinham emprego, já que as indústrias se aproveitavam daquela mão de obra barata. Além disso, florescia uma época de efervescência política na comunidade.

Organização política

Rumba se tornou um líder comunitário nos anos 1980. Naquele momento, o Jacarezinho já era conhecido por sua organização política e social.

Ele diz que uma das primeiras famílias que chegaram no Jacarezinho trazia consigo a Tia Andreza, personagem icônica da favela. Uma “negra ousada” que chamava atenção por seu interesse social.

“A principal preocupação dela era de alfabetizar. Pegava caixotes de madeiras, de feira e botava na subida da comunidade. Fez a primeira escolinha a céu aberto, antes da lei do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Ela também fundou a primeira escola de samba do Jacaré.”

Desde a década de 1940, moradores tiveram que se unir, com o apoio das igrejas da região – especialmente a Nossa Senhora da Conceição, liderada pelo padre Nelson Carlos del Monaco, e mais tarde a ordem dos padres salesianos – para não serem despejados pelas autoridades que procuravam desocupar terrenos ocupados ilegalmente.

Mas é nos anos 1960 que a movimentação política ganha mais organização. Durante a ditadura militar, o Jacarezinho chegou a ser apelidado de “Moscouzinho”.

O antropólogo João Costa Vargas, professor da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, aponta no estudo “Apartheid brasileiro: raça e segregação residencial no Rio de Janeiro” que esse apelido refletia o grande número de grupos de esquerda e organizações políticas clandestinas que operavam na área, como o MR-8.

No Jacarezinho, elas ficavam protegidas por uma vantagem geográfica fruto da topografia ondulada, que proporcionava fácil vigilância dos pontos mais altos da comunidade. Além disso, o labirinto de ruas estreitas tornava o acesso difícil aos carros da polícia, o que é realidade até hoje.

Foi esse contexto que estimulou lideranças comunitárias a se lançarem no jogo político.

“No período que antecedeu a redemocratização, tínhamos uma presença intensa de ativistas políticos e trabalhadores sindicalizados. Durante a ditadura, havia aqui um aparelho que abrigava revolucionários e uma presença muito intensa de sindicatos. Nessa época, o território cresceu muito e ficou rico na politização, gente que saía para o enfrentamento com o objetivo de trazer projetos pra cá”, conta Rumba.

Mas toda essa organização na comunidade foi se perdendo ao mesmo tempo em que o Brasil se redemocratizava.

“O Jacarezinho chegou a abrigar diretórios do PDT e do PT. Mas quando esses partidos adentraram o poder, a maioria dos militantes e dos sindicalistas foram embora. Como se dissessem: chega de lutar, estamos dentro do poder. Foi um erro clássico, um abandono, ficamos órfãos disso. A educação, que já não era boa, foi sucateada, assim como a saúde. O Jacarezinho se tornou um território de analfabetos didáticos e políticos.”

Chegada do tráfico, embates com a polícia e desemprego

Nos anos 1970 e 1980, o Jacarezinho viu também a expansão do tráfico de drogas. Segundo João Costa Vargas, jovens chefes do tráfico detinham poder de vida e morte no local e desafiavam abertamente a polícia e o Estado. No caso do Jacarezinho, foi a facção criminosa Comando Vermelho que tomou conta da área.

“Em um primeiro momento, havia uma política de assistencialismo. Isso fez com que os moradores até vissem os bandidos com outros olhos. Mas, quando chegou o tráfico de cocaína, começou o verdadeiro desastre da favela”, diz Rumba.

Esse contexto também faz crescer o aumento nos embates do tráfico com a polícia, o que degradou ainda mais a situação da comunidade.

O tráfico de drogas e a violência na comunidade, assim como em outras regiões pobres do Rio, cresce junto com o desemprego nos anos 1980.

A historiadora Cristiane Muniz Thiago aponta na dissertação de mestrado “Memória e trabalho no bairro do Jacaré” que uma série de empresas no entorno do Jacarezinho foram à falência ou reduziram drasticamente seu quadro de funcionários nesse período.

É o caso da General Electric, que empregava a maior parte dos moradores da favela que faziam parte do mercado de trabalho formal. A empresa fechou em 2008, após mais de 20 anos de declínio.

Líder em período de abandono

Rumba Gabriel começou sua trajetória tendo como principal objetivo expor a cultura da favela do Jacarezinho.

“A cultura negra no Jacarezinho é muito forte. Chegamos a ter mais de 30 terreiros nesse território. Havia muitos compositores, tínhamos ladainha e gurufins, como eram chamados os velórios dos mortos nos barracos. As famílias reunidas cantavam samba e depois transportavam os corpos para o cemitério”, conta.

O pai era pedreiro e ladrilheiro, profissão de grande parte dos trabalhadores na época, e também um grande compositor. “Parceiro de Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça e Zé Ketti”, diz. Foi dele que Antônio Carlos Gabriel, nascido em 1954, herdou o apelido de Rumba, um estilo de dança caribenho semelhante ao jeito como seu pai rebolava.

Sua atuação política começou na segunda metade dos anos 1980, após uma experiência trabalhando como mensageiro no Jornal do Brasil.

“Sempre fomos um povo muito alegre. Sofredor, mas alegre. Mas nunca aceitamos esse desprezo que o Estado nos dá. Por isso, decidi fundar o Centro Cultural do Jacarezinho, em 1992. Depois, em 1999, fiz uma cooperativa de trabalhadores, porque não adianta cultura sem trabalho”, diz.

A questão do emprego era importante porque naquela época a indústria na região estava sendo desmantelada.

“Os trabalhadores começaram a ficar sem emprego, as suas profissões ficaram obsoletas. O avanço tecnológico estava chegando, e eles não suportaram. O que já era muito ruim para a comunidade ficou pior”, conta.

Um dos projetos mais relevantes de Rumba foi feito em 2001 e batizado de “Condomínio Favela”.

A ideia consistia em instalar na comunidade portões e câmeras, que se popularizaram em condomínios fechados à época, para vigiar a atuação do tráfico e da polícia. Esses portões ostentavam a frase irônica: “Sorria, policial. Você está sendo filmado.”

“Há uma cultura do medo instalada nas comunidades para que não haja manifestação, para que nós não mostremos o que acontece no nosso território”, explica.

“Quando você coloca uma câmera, seja onde for, ela vai mostrar a realidade. Foi justamente a câmera que fez com que o policial que matou o George Floyd, nos Estados Unidos, recebesse uma sentença de 40 anos.”

Apesar de não ter durado muito tempo, o “Condomínio Favela” gerou muitas reações na opinião pública e colocou em pauta as condições da atuação policial e do tráfico na favela do Jacarezinho.

Além disso, o projeto rendeu a Rumba um convite dos Panteras Negras, organização socialista e antirracista dos Estados Unidos, para visitar o país.

“Fui para a Universidade do Texas fazer pesquisa, aprendi com Angela Davis e outros ativistas. Eles sabiam que eu podia morrer e me chamaram para mostrar coisas que eu poderia trazer de volta pra cá.”

Um desses aprendizados foi o de que é preciso lutar junto com a comunidade.

“Não quero descaracterizar a luta dos movimentos negros do Brasil, mas aqui luta-se separado. Há uma ausência de negros que foram para a academia e depois foram embora. Pularam a cerca, já que não abrem os portões, mas ficaram lá. Não pularam de volta. Eu pulei de volta.”

O objetivo de Rumba, agora, é trazer de volta para a comunidade o mesmo apetite político pelo qual ela já foi caracterizada. “Muitos me perguntam: Rumba, por que você ainda vive assim? Não tenho carro, grana e ainda moro na favela. Mas não abandono porque sou descendente de Zumbi, não consigo ver meu povo sofrer. Não tenho medo da bala.”

UPPs e Operação Exceptis

Em 2013, foi instalada no Jacarezinho uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) com o objetivo de minimizar o controle territorial de facções e instalar projetos sociais.

De 2013 a 2019, porém, o número de mortes decorrentes de intervenções policiais no Rio de Janeiro aumentou ano a ano, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, como mostra a série histórica abaixo.

Já em 2020, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), as intervenções policiais deixaram um total de 1245 vítimas.

O número, apesar de muito alto, é menor que o total de vítimas fatais dos dois anos anteriores. Em 2019, foram 1.814, e, em 2018, 1.534.

Sobre esses dados, o ISP destaca, no entanto, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que proibiu operações policiais no Rio de Janeiro durante a pandemia de covid-19.

Rumba acredita que o projeto das UPPs não deu certo. “Cadê a política social? Como você vem com uma UPP e não vem com política social?”, questiona.

Após a operação do último 6 de maio, que deixou 28 pessoas mortas no Jacarezinho, o governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PSC) anunciou uma reformulação nas UPPs, que atuam em 28 favelas da capital, a partir do segundo semestre.

A promessa é mais uma vez fazer com que o Estado tenha uma presença maior nas comunidades.

A operação no início de abril, comandada pela Polícia Civil e batizada “Exceptis”, visava combater grupos armados que estariam aliciando crianças para o crime, segundo as autoridades.

Relatório da polícia aponta que a investigação começou a partir da apreensão de fotos de traficantes por policiais da UPP do Jacarezinho, de acordo com o Jornal Extra.

Foi um dia de profunda tristeza para Rumba. “Se morriam 5, 8… 13 como foi no Morro do Fallet, 19 como no Morro do Alemão, agora foram mais de 20”, lamenta.

Assim que ficou sabendo das mortes, ele conseguiu contato com a defensoria, com a Ordem dos Advogados do Brasil e avisou a Comissão de Direitos Humanos da Alerj, da qual faz parte.

“Eles vieram muito rápido, mas infelizmente já tinha morrido muita gente quando chegaram”, conta. A defensoria apontou “cenas de crime desfeitas” para impossibilitar a perícia.

“Com a nossa chegada, a operação parou e vimos um corre-corre para botar os corpos na viatura. Obrigaram a lavar calçadas, aquela coisa toda. A comissão que eu trouxe pra cá constatou que estava sendo desfeita a cena do crime”, relata Rumba.

A Polícia Civil do Rio de Janeiro, no entanto, nega que tenham acontecido execuções ou irregularidades na operação.

“Eles dizem: fomos recebidos a bala. E o lado de cá diz que eles entraram atirando. Queria que fosse mostrada a verdade, não a ouvida por nós, mas pela Justiça”, diz Rumba.

*Com informações de João da Mata, da BBC News.

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