Não haverá Frente Ampla | Por Luiz Holanda  

Carlos Lacerda na capa da obra autoral ‘Cartas 1933-1976’.
Carlos Lacerda na capa da obra autoral ‘Cartas 1933-1976’.

A oposição brasileira está tentando formar uma frente de partidos para evitar a reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Esse gesto trouxe de volta a lembrança do movimento criado por Carlos Lacerda para impedir a continuidade dos militares no poder nos idos de 1966. Tratava-se da Frente Ampla de Lacerda, Juscelino e Jango, antigos inimigos políticos, mas que Lacerda, que queria ser presidente da República a qualquer custo, não se incomodou em procurá-los.

Lacerda idealizou a Frente Ampla após não conseguir fazer seu sucessor no governo da Guanabara. Sendo, na época,  o maior líder civil do movimento militar e um dos maiores líderes da União Democrática Nacional (UDN), apoiava o regime militar vitorioso.. Com e edição do Ato Institucional nº 2, publicado no mesmo ano, Lacerda sentiu que suas chances de chegar à presidência da república diminuíram muito, pois o Ato baixado pelos militares modificou o critério de escolha dos candidatos para o cargo, tornando as eleições indiretas.

Os partidos até então existentes foram extintos. Em seu lugar criaram a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Parte dos amigos de Lacerda foi para o MDB. Apesar das dificuldades na formação da Frente (JK e Jango se encontravam no exílio), ela foi oficialmente criada em outubro de 1966 quando Lacerda assinou, sozinho, o manifesto de lançamento. A adesão de Jk veio no mês seguinte,  e a de Jango,  dez meses depois. Tudo estava dividido à época; até a Igreja. Em Diamantina, cidade de Minas Gerais, o bispo dom Geraldo Proença Sigaud, da direita, se apresentava contra as reformas pretendidas pela oposição. Pela esquerda se destacavam a figura de dom Helder Câmara e os “padres das passeatas”, sempre contestando o governo e pedindo liberdade e democracia.

A Frente foi um fracasso. Como a história se repete, é bem possível que Lula, que está tentando recriá-la, tenha o mesmo destino de Lacerda. Depois que o STF anulou as suas condenações e devolveu seus direitos políticos, Lula imagina criar uma nova Frente Ampla contra Bolsonaro, unindo todos os partidos e blocos, inclusive o Centrão.

O problema é que, mesmo com a absolvição implícita, a imagem de Lula está abalada. Não se pode esquecer que muitos dos seus antigos amigos o abandonaram. O ex-diretor da Petrobrás, Renato Duque, por exemplo, disse que ele “tinha pleno conhecimento de tudo, tinha o comando” do esquema. Outros disseram a mesma coisa, o que significa que nem ele nem o PT têm condições de encampar um movimento de tamanha envergadura, pois para se  formar uma frente dessa natureza os obstáculos são praticamente intransponíveis.

Mesmo com a decisão do Supremo, boa parte da imprensa acusa o PT de organizar um esquema bilionário de pilhagem da coisa pública. Isso certamente será lembrado por ocasião das eleições. O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, indignado com a corrupção existente no país, disse que “Não é possível esquecer que o país não tenha vontade política e determinação para mudar. Nós nos acostumamos a ser conduzidos pelos desonestos”.

Por outro lado, é quase impossível deixar de lembrar o que ocorreu no Brasil nesses últimos anos.  As pesquisas demonstram que o presidente Jair Bolsonaro permanece competitivo para as eleições de 2022, e que tem uma boa reserva para ir ao 2ºturno. Não vai ser fácil repetir a façanha de união dos partidos de oposição. Naquela época havia razoável consenso sobre a necessidade de uma política econômica rotulada de heterodoxa. Foi considerada a era de ouro dos economistas nacionalistas, defensores do papel do Estado na economia. .

Com a assunção de Sarney, tudo veio a baixo. De lá para cá a oposição jamais se uniu. Hoje, boa parte dos que desejam criar uma frente ampla está aninhada no Estado. Observem que, por ocasião de um segundo turno, jamais os candidatos derrotados se uniram para apoiar um dos ficaram para disputá-lo. A divisão é natural e tradicional.

Qualquer tentativa de frente será frustrada, pois seus arquitetos sequer sabem aproveitar uma obra que a história provou ser errada. Toda frente ampla formada antes das eleições se rompe logo após o resultado. Sempre se acompanha o vencedor, pois, do contrário, ninguém ocupa os milhares de cargos existentes no governo, nem também desfruta da coisa pública com certa regalia. Política não é para amadores, nem Frente Ampla é para ressentidos,

*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.

Sobre Luiz Holanda 371 Artigos
Luiz Holanda é advogado e professor universitário, possui especialização em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (SP); Comércio Exterior pela Faculdades Metropolitanas Unidas de São Paulo; Direito Comercial pela Universidade Católica de São Paulo; Comunicações Verbais pelo Instituto Melantonio de São Paulo; é professor de Direito Constitucional, Ciências Políticas, Direitos Humanos e Ética na Faculdade de Direito da UCSAL na Bahia; e é Conselheiro do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/BA. Atuou como advogado dos Banco Safra E Econômico, presidiu a Transur, foi diretor comercial da Limpurb, superintendente da LBA na Bahia, superintendente parlamentar da Assembleia Legislativa da Bahia, e diretor administrativo da Sudic Bahia. E-mail para contato: lh3472@hotmail.com.