Maria Bethânia, sua música sólida resiste | Por Ivandilson Miranda Silva

Maria Bethânia e 'a liquidez do tempo, da vida e da cultura'
Maria Bethânia em cenas do show 'Carta de Amor'.

A liquidez do tempo, da vida e da cultura

O fenômeno da liquidez dos tempos, da vida, das coisas, do SER, é descrito por Bauman (2001), sociólogo polonês, como um momento de ruptura na história.  Para este pensador, saímos de um mundo sólido, seguro, do dualismo entre o certo e o errado, o bem e o mal, capitalismo e socialismo, oito ou oitenta e do amor eterno “até que a morte os separe”, para um mundo líquido, inseguro, incerto, da multiplicidade de possibilidades, do hibridismo que mistura praticamente tudo, da instabilidade, da valorização da imagem e descrédito do conteúdo, da vontade do agora e despreocupação com o futuro, da morte da metáfora que na verdade nem conseguiu nascer, pois a língua foi reduzida, reconstruída, redesenhada, “refeita” e o que era poesia se reinventa num jogo de palavras que não se cruza, mas acaba fazendo algum sentido para alguém em algum lugar da rede.

Como a música de Maria Bethânia se relaciona com tudo isso? O que posso dizer é que a música sofre influências das mudanças político-econômico-culturais que acontecem no mundo e que o fenômeno da liquidez, também, ocorre na produção musical brasileira. Bethânia, ao contrário, dessa liquefação musical, se mantém firme na sua missão de explorar aquilo que há de mais poético e criativo na nossa composição.

Não se pode afirmar que toda a música é líquida, superficial, imagética, carente de sentido, mas uma parte significativa dessa produção artística vive esse momento e serve obviamente aos interesses da indústria cultural que acaba levando e impondo para as rádios populares, televisões, internet e suas redes um produto que se dissolve muito rápido no ar, caindo no esquecimento com a mesma rapidez que surgiu. Não vou “fulanizar”, mas façam suas conexões que logo irão perceber o que estamos chamando de música líquida.

Bethânia, “Abelha Rainha” [2]

Maria Bethânia Viana Teles Veloso, natural de Santo Amaro, Bahia, nascida em 18 de junho de 1946. Nesse ano, completa 75 anos de muita dedicação ao seu ofício de compor, cantar e fortalecer a música brasileira. Chico Buarque, Chico César, Vanessa da Mata, Adriana Calcanhoto, Paulo Cesar Pinheiro, Rosinha de Valença, Gilberto Gil, Roque Ferreira, Dorival Caymmi, Almir Sater, Paulinho da Viola, Rita Ribeiro, Wally Salomão, Vinicius de Moraes, Roberto Mendes, Roberto e Erasmo Carlos e seu queridíssimo irmão Caetano Veloso, são alguns e algumas das compositoras e compositores gravados por Bethânia.

A música de Bethânia é pura poesia, qualidade, conteúdo que solidifica sua obra e faz contraste com a frágil música que ocupa muito pouco tempo no imaginário social e logo é substituída por outra novidade como provoca a banda os Titãs (2001) na música “A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana”[3].  Bethânia é permanente, não desaparece, pois, sua construção artística opta, em primeira instância, pelo conteúdo. Bethânia sempre foi muito cuidadosa com as palavras, pois seu público merece ouvir/sentir/refletir uma boa canção, um bom conteúdo. Sua solidez vem desse respeito com a palavra, respeito pela poesia e seus criadores poetas e poetisas.

Um poema pra você

Diante da sua grandeza e importância para a cultura do nosso país, permita-me um poema para comemorar a passagem dos seus, bem vividos, 75 anos.

MARIA BETHÂNIA, MÃE SENHORA

Mãe Senhora da música, és tu!

Mãe Senhora da palavra, da emoção da palavra,

Mãe Senhora das histórias cantadas,

Mãe Senhora daquilo que brota de dentro dos compositores,

a canção.

Pronúncia, verbo, tempo, fala forte,

Catarse é pouco para o misto de sentimentos que sua interpretação causa

Palavra de Mãe é sempre potente.

Bethânia, Maria, Maria Bethânia,

Filha de Oyá, de Iansã, rainha dos raios,

Mãe do entardecer, a força dos ventos te conduz,

Mãe Senhora da música, és tu!

Seu canto radiante, apaixonante,

Quebra minhas resistências,

Idiossincrasias bobas,

Fico à vontade então,

Obrigado Maria Bethânia,

Palavra de Mãe é sempre forte.

Conclusão

Parabéns, Maria Bethânia!

*Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela UNEB e professor da Unime Salvador e de Faculdade de Ciências da Bahia (Faciba).


Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

[1] . Professor da Unime Salvador  e  Faculdade de Ciências da Bahia (Faciba ). Doutor em Educação e Contemporaneidade pela UNEB.

[2] . Canção Mel. Waly Salomão e Caetano Veloso (Composição). Álbum Mel de Maria Bethânia. Gravadora PolyGram / Philips Records, Rio de Janeiro, 1979.

[3] . Titãs. A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana. Rio de Janeiro, Gravadora Abril Music, 2001.

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