Ex-governador Wilson Witzel diz que extremista Jair Bolsonaro deixou gestores estaduais “à mercê da desgraça que viria”; Depoimento foi prestado à CPI da Pandemia do Senado Federal

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Em sessão tensa da CPI da Pandemia, ex-governador do Rio de Janeiro diz que passou a ser perseguido pelo presidente por causa do caso Marielle. Depoimento foi interrompido após Wilson Witzel fazer uso de habeas corpus concedido pelo STF. Ex-aliado do clã Bolsonaro, Witzel perdeu o cargo de governador em abril de 2021.
Em sessão tensa da CPI da Pandemia, ex-governador do Rio de Janeiro diz que passou a ser perseguido pelo presidente por causa do caso Marielle. Depoimento foi interrompido após Wilson Witzel fazer uso de habeas corpus concedido pelo STF. Ex-aliado do clã Bolsonaro, Witzel perdeu o cargo de governador em abril de 2021.

Em uma sessão tumultuada, o ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel afirmou nesta quarta-feira (16/06/2021) à CPI da Pandemia que o presidente Jair Bolsonaro “deixou os governadores à mercê da desgraça” que viria durante a crise sanitária gerada pela covid-19.

Inicialmente, Witzel foi convocado para esclarecer denúncias de que ele teria se beneficiado de um esquema de corrupção no início da pandemia. Senadores governistas, que vinham pressionando pela presença de chefes de executivos estaduais também esperavam que a presença do ex-governador pudesse ser explorada para tirar o foco da criticada gestão federal da crise sanitária.

Mas Witzel, um ex-aliado do clã Bolsonaro, acabou aproveitando o depoimento para lançar ataques ao governo federal e se pintar como uma figura perseguida. O ex-governador perdeu o cargo em abril, após sofrer um processo de impeachment.

Witzel também chegou a a acusar Bolsonaro de retaliação, segundo ele, por causa da investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco. Ele ainda relatou que vem sofrendo ameaças de morte e ainda se comparou ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirmando que ainda vai ser “inocentado” como o petista. Em uma etapa da sessão, Witzel, que se elegeu com uma plataforma ultraconservadora e agora se pinta como um adversário do “extremismo”, afirmou que o governo Bolsonaro é um “chavismo de extrema direita”.

A sessão teve momentos de tensão, com senadores governistas tentando interromper o ex-governador nos momentos em que ele lançou acusações contra Bolsonaro. O senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente, liderou alguns dos tumultos durante a sessão, como já havia ocorrido em outros depoimentos problemáticos para o governo.

O Supremo Tribunal Federal havia concedido ao Witzel o direito de não comparecer ao Senado, após a isenção concedida ao governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC). Mesmo assim, o ex-governador optou por comparecer. Após quatro hora de depoimento, Witzel decidiu evocar o direito enquanto enfrentava questionamentos de senadores governistas e encerrou seu depoimento mais cedo do que o previsto.

O ex-governador foi denunciado pelo Ministério Público Federal por participação em um esquema de desvios de recursos na área da saúde, que seriam aplicados no combate à pandemia de covid-19. Ele é réu em processo que apura corrupção e lavagem de dinheiro, em tramitação  no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Rompimento com Bolsonaro

Witzel foi eleito em 2018 como apoio da família Bolsonaro, da qual acabaria se tornando um desafeto alguns meses após assumir o governo do estado, quando manifestou a intenção de concorrer à Presidência em 2022. Os desentendimentos se ampliaram durante a pandemia, enquanto Bolsonaro criticava as medidas de isolamento social adotadas pelos governadores para conter as transmissões da doença.

Witzel afirmou à CPI que Bolsonaro se voltou contra ele por causa das suas ambições presidenciais. Ele chegou as afirmar que recebeu um recado de Bolsonaro enviado pelo então ministro da Justiça Sergio Moro.

“Eu achei estranho. Quando eu cheguei na sala do ministro Moro, ele não quis tirar foto comigo, ele não quis anunciar o meu nome e disse que ele não poderia estar dando publicidade à minha presença no Ministério da Justiça. Eu cheguei lá, o ministro Moro disse o seguinte: ‘Ô, Witzel, o chefe falou para você parar de falar que quer ser presidente. E, se você não parar de falar que quer ser presidente, infelizmente, a gente não vai poder te atender em nada, né?’”, contou Witzel.

Em outro momento, Witzel afirmou que Bolsonaro se voltou contra ele por causa do caso Marielle, que é investigado pela Polícia Civil do Rio.

“Tudo isso começou porque eu mandei investigar sem parcialidade o Caso Marielle. Quando foram presos os dois executores da Marielle, o meu calvário e a perseguição contra mim foram inexorável”, disse.

Em um momento tenso da sessão, Witzel, ao ser interrompido pelo senador Flávio Bolsonaro, afirmou: “Senador, o senhor pode ficar tranquilo que eu não sou porteiro. Não vai me intimidar, não”. Foi uma referência ao caso que envolveu o porteiro do condomínio em que Jair Bolsonaro tem uma casa no Rio. Em 2019, o porteiro afirmou à polícia que os assassinos da vereadora Marielle Franco teriam se dirigido à casa do presidente na noite do crime, mas posteriormente ele recuou dessa versão.

“O presidente me chamou de estrume, ditador, leviano, fez várias afirmações inaceitáveis, que eu jamais faria em relação a ele. Infelizmente, a postura do presidente foi de isolamento em relação a mim. Ele não me recebeu no Palácio do Planalto. Ele disse que o Governador do Rio tem que ser mais humilde. O que ele queria, que eu me ajoelhasse: ‘senhor soberano, me atenda'”, contou Witzel.

Omissão do governo

Nesta quarta-feira Witzel disse à CPI que o presidente Jair Bolsonaro “deixou os governadores à mercê da desgraça que viria. O único responsável pela 450 mil mortes que tem aí tem nome, endereço e tem que ser responsabilizado”, disse Witzel.

Segundo Witzel, Bolsonaro decidiu que repassar aos governadores o ônus das medidas de distanciamento social. Seria uma estratégia do presidente para se eximir de responsabilidade sobre as consequências econômicas. “O governo federal, para poder se livrar das consequências do que viria na pandemia, criou uma narrativa estrategicamente pensada”, disparou.

“O que ficou claro é que a narrativa construída pelo governo federal foi para colocar os governadores em situação de fragilidade, porque os governadores tomaram as medidas necessárias de distanciamento social, porque isso tem consequências econômicas”. Segundo Witzel, Bolsonaro adotou um “discurso de perseguição ao governadores” ao acusá-los de “aproveitaram a pandemia para roubar”.

O ex-governador se queixou várias vezes da falta de diálogo do presidente com os governadores. “Não tínhamos diálogo com o presidente. O presidente não queria dialogar comigo”, afirmou.

O vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), pediu a realização de uma sessão sigilosa com Witzel. O governador disse que vai comparecer, mas pediu tempo para se preparar.

“Nessa reunião eu faço questão de apresentar elementos para iniciar uma investigação contra pessoas que estão desvirtuando a atuação funcional e nós vamos descobrir quem está patrocinando investigação contra governador, quem está patrocinando essa questão criminosa e o resultado é um só: 490 mil mortes”, afirmou.

*Com informações do DW.

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