Editorial: No Brasil, os idólatras da elite opressora

Atos 'Fora Bolsonaro' chegam a mais de 200 cidades e 14 países. População protesta contra governo opressor de extrema direita e reafirma direitos sociais como bens tangíveis a todos os brasileiros.
Atos 'Fora Bolsonaro' chegam a mais de 200 cidades e 14 países. População protesta contra governo opressor de extrema direita e reafirma direitos sociais como bens tangíveis a todos os brasileiros.

O Brasil atual é resultado de séculos de domínio de uma elite escravocrata, mercantil, industrial e comercial violenta. Observe que cada conceito vai revelar um período histórico de dominação da elite e que, em comum com estes períodos, existe a violência de classe. Desta forma, temos o Brasil Colônia, Império, Velha República, Ditadura e Nova República.

Por um breve período, 13 anos, um partido de base trabalhista e ideologia socialista governou o país.

Neste curto interregno de tempo, o povo pode acreditar que existia uma mudança paradigmática. Mas a elite violenta, que sempre dominou, continuava a dominar muitos setores da sociedade e da economia política e estava ávida por voltar a ter o controle sobre o Governo Central.

Na Bahia, ao fim de 40 anos de domínio do Magalhismo, os resultados socioeconômico e educacional do Estado eram extremamente negativos.

O Estado apresentava baixo indicadores de nível educacional, cumulado com significativo número de analfabetos.

As palafitas eram o símbolo de uma capital desgovernada.

Observe que este período é marcado pela intensa dominação da elite do país e da família Magalhães no poder.

O ápice da dominação foi negar ao próprio povo o direito de escolher o supremo mandatário do Brasil, determinando, inclusive, interventores. Aliada a essa opressão política, manter deseducada a população e subordinar ao domínio midiático da Rede Globo favoreceu imensamente a continuidade desse poder tirânico até os dias atuais.

Mas, 4 anos após a eleição do líder trabalhista Lula como mandatário do país, o povo elegia Jaques Wagner governador da Bahia, outro político oriundo do trabalhismo. Eles foram sucedidos pelos líderes trabalhistas Dilma Rousseff e Rui Costa, respectivamente.

De 1 universidade, a Bahia foi para 5 universidades.

De 1 escolha técnica, foram implantadas mais 32.

200 mil brasileiros foram mandados para estudar por dois anos nas melhores universidades do mundo. Muitos escolhidos eram filhos da classe operária e ou subproletariado superexplorado da Bahia.

A falida rede de saúde da Bahia foi recuperada e modernos hospitais e unidades públicas de saúde foram construídos.

O mais amplo programa de moradia subsidiada da história do Brasil foi implantado e a Bahia recebeu milhares de novas habitações.

Recursos financeiros foram destinados aos mais pobres. Esses recursos ajudaram a economia dos municípios e contribuíram para a melhoria dos indicadores sociais, inclusive com redução da criminalidade.

Não existiam presídios federais no país e foram construídos.

Um programa federal com recursos destinados aos policiais estaduais Civil e Militar foi implantado. Equipamentos modernos foram entregues as forças de segurança.

Muitas foram as conquistas deste período. Um relatório do Banco Mundial as sintetizou.

Mas, ainda assim, as marcas do colonialismo escravocrata estão na psique coletiva do brasileiro.

Os idólatras da elite opressora admiram o perfil da elite e sonham ser a elite. Então, adotam o discurso da classe dominante e elegem quem os oprimem. É como um loop temporal de eterno regresso a relação revelada pela obra ‘Casa Grande e Senzala’, de autoria de Gilberto Freyre.

São contra os partidos de esquerda e, lamentavelmente, se quer sabem diferenciar os conceitos elementares da teoria política de Norberto Bobbio entre Esquerda e Direita.

Odeiam o comunismo e adoram o liberalismo, mas não conhecem as diferenças conceituais entre ambos.

Ao fim, odeiam a si mesmos, porque são membros de uma comuna, ou seja, comunidade.

Desconhecem que a ideologia do individualismo foi construída para manter a alienação. Individualismo e alienação são categorias teóricas cujos conceitos possuem complexidade de compreensão e requerem tempo de leitura.

Leem pouco e o pouco que leem os mantêm desinformados. Porque, a exemplo dos membros da mítica Caverna de Platão, estão acorrentados aos preconceitos e vendo as sombras do sistema projetados pelo aparato ideológico de dominação capitalista [ver teoria de Ralph Miliband] acreditam que conhecem e têm capacidade de crítica sobre as forças que os dominam. Mas, ao fim, agem como idólatras dos que os acorrentam.

Acreditam que os Estados Unidos da América (EUA) são um modelo de sociedade a ser seguido. Então as elites copiam o pior da sociedade estadunidense e os entrega aos adoradores brasileiros da classe dominante.

O resultado no Brasil é o mesmo que o dos EUA, ou seja, um elevado contingente de presos e uma imensa população de pessoas narcotizadas. Outros tantos estão e vão continuar excluídos do processo produtivo, porque o Capitalismo mantém o exército de reserva como forma de auferir maiores taxas de Mais Valia.

Os filhos da classe média, para usar um termo weberiano, alimentam o crime em meio ao subproletariado superexplorado que habita as favelas e subúrbios das cidades.

O dinheiro com o qual adquirem as drogas corrompe, ainda mais, o Estado. A violência de classe, que antes usava das sutilezas do poder, passa a adotar o extermínio como solução social. Mas, ao fim, o Modo de Produção Capitalista produz um exército bem maior de excluídos do que o sistema é capaz de eliminar.

A guerra é a eliminação do outro e é anticristã, porque nega a vida.

O cristianismo é uma ideologia religiosa de esquerda, porque coloca a dignidade humana e o respeito ao meio ambiente no centro das decisões de poder como um fim em si mesmo. É isto que ensina o principal líder católico do mundo, o Papa Francisco, nas encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti. Mas, certamente, os idólatras da direita nunca às leram, embora se julguem bons cristãos.

Os que seguem esse protestantismo rasteiro, transmitido por pessoas com tão baixa formação intelectual como os que às escutam, terminam por se narcotizar em palavras vazias que apenas os colocam em um estado de torpor que os mantêm em alienação mental vegetativa.

E o resultado de toda essa alienação é o ódio, o ódio ao outro, ao que pensa diferente, por poder observar o mundo com a luz do conhecimento filosófico, científico, cristão, humanista e preservacionista.

Ao fim, como dito anteriormente, os idólatras da elite opressora odeiam a si mesmos, porque forjam as correntes que os aprisionam e as enrijecem com os preconceitos cotidianos que expressam, cuja base é a antítese da episteme.

Em conclusão, não será um partido, pessoa, ou governo, mas o povo, tomando para si o próprio destino, colocando no centro os princípios que libertam das correntes do sistema é que será possível sair deste estado de dominação violenta. Enquanto essa revolução não vier, é possível fazer escolhas que retomem a ideia de uma sociedade justa, igualitária e solidária.

*Carlos Augusto, cientista social e jornalista.

Sobre Carlos Augusto 9514 Artigos
Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).