Brasil, o grande laboratório humano | Por Ângelo Augusto

Banner do JGB: Campanha ‘Siga a página do Jornal Grande Bahia no Google Notícias’.
População protesta por direito à vacinação contra a Covid-19 e apoio social.
População protesta por direito à vacinação contra a Covid-19 e apoio social.

A pandemia causada pelo coronavírus vem atingindo diretamente o sentimento existencial do ser humano. Expõe a todos as fragilidades estruturais que fundamentam e edificam os conceitos de realidade. Em alguns, esses efeitos, ensejam a perda do nexo de casualidade por não entender a falta de controle da realidade vigente, a denegação[1]. O grande problema dessa perda de conexão é quando as crenças começam a impactar na vida de outrem. No Brasil, a pandemia vem deixando evidências estarrecedoras de como está sendo tratada a vida, como estão sendo estabelecidas as relações humanas, sociais, demonstrando para o mundo a nossa triste realidade, transcrita pela estatística, tornando-se, mais uma vez, o líder mundial de mortes diárias pelo coronavírus[2]. Todavia, essa triste realidade agrava-se absurdamente quando pessoas públicas, as quais têm grande influência de opinião e deveriam centrar-se na racionalidade e na ciência, emitem opiniões verborrágicas, irreflexivas, sem ponderar as consequências das ações[3]. Esses estereótipos de atitudes, primária, faz lembrar uma Ameba, um protozoário que, pela sua estrutura primitiva unicelular, reage apenas no reverbero, a qual, infelizmente, pode levar a doença, inclusive, a morte. Destacando essa classificação da vida[4], Protozoa, adentrando ao tema que remete o uso da cloroquina como uma das opções de medicação para o tratamento de uma das espécies, Plasmodium (agentes causadores da malária), com quase 1,5 ano de pandemia, ainda são debatidos o uso desse medicamento e seu derivado para o tratamento da Covid-19[5]. Para os defensores desse intento, é como que existisse uma afinidade por drogas antiparasitária, entrando nesse conjunto as drogas como a Ivermectina e a Nitazoxanida (Anitta), esquecendo que a classificação do agente etiológico infeccioso é um vírus.

No arcabouço das experiências humanas, pelo uso inadequado de medicações sem comprovações, a instituição que deveria monitorar e controlar as experimentações humanas no Brasil, por intermédio das instituições filiadas, o líder que representa o principal órgão de interesse, Ministério da Saúde (MS) – Ministro Marcelo Queiroga, em uma ação declarativa, comunicou, publicamente, que não tem o controle, documentação, do uso das medicações chamadas “Kit covid” no Brasil[6]. Esse controle é particularizado ao “médico”, ou o que se observa, até mesmo, as “farmácias” que vendem as medicações sem prescrições. Nesse pensamento, declara publicamente que, a instituição a qual deveria cuidar e vigiar da saúde dos brasileiros, não tem posse dos mecanismos de controle da pandemia, sendo assim, a proteção a vida é relevada ao “salve-se quem puder e da forma que se acredita”. O ministro da saúde assegurando-se em um parecer do Conselho Federal de Medicina (CFM), escondendo-se no descontrole, reafirma a responsabilidade e riscos aos médicos, instituindo a prescrição das medicações que lhes convém, fundamentando-se no princípio da autonomia, sendo que existem questões que contradizem o parecer do CFM[7]. Numa tentativa de livrar-se das responsabilidades que cabe ao Ministério da Saúde[8], com a saúde de todos os brasileiros, sem argumentações claras, não apresenta soluções coletivas efetivas do controle pandêmico, nem sequer de documentações referentes ao uso indiscriminado de medicações sem comprovações científicas e seus paraefeitos, estimulando o individualismo e o autocuidado, mesmo declarando-se contrário.

O controle e a notificação dos casos relacionados com a pandemia, nunca esteve claro no Brasil[9]. A baixa testagem e a subnotificação no Brasil são fatos conhecidos mundialmente[10]. A resistência de aceitar as maneiras de mitigação, também, de longe é conhecida, assim como, a preocupação exaltada com a economia, fortalecida pelos discursos que declara a fome como fator impactante da mortalidade. Quando se destaca a fome em um cenário de grande desigualdade, essa afirmativa não está incorreta[11]. Contudo, o que está incorreto é a maneira de encarar o problema. De fato, o problema existe, no entanto, não será expondo a população aos riscos, em nome dos “empregos”, fugindo das responsabilidades constitucionais e favorecendo o privilégio de poucos em prol do empobrecimento de muitos, que se resolverá os problemas. Recentemente, em pronunciamento oficial, o governo federal aventou a possibilidade de desobrigar o uso de máscaras para as pessoas que já tiveram Covid, ou foram vacinados[12]. A fundamentação psíquica que leva a ojeriza ao simples uso de máscaras conduz a lógica da denegação. Tendo em vista, que não existe, ainda, nenhum amparo fundamentado na ciência que fortaleça essa ideia, a não ser em localidades que atingiram um patamar muito elevado de imunização. Mesmo nessas localidades, existem temores de que as desobrigações, precoce, do uso de máscaras poderão causar aumento do número de novos infectados[13]. Inclusive, devido ao surgimento de inúmeras variantes virais, não se sabe ao certo se as vacinas irão contemplar todas as variantes que estão surgindo, desse modo, fecham-se as fronteiras para as localidades que estejam com a pandemia descontrolada, é o caso do Brasil.

Portanto, as experimentações humanas foram debatidas extensivamente em 1946[14], após as atrocidades cometidas na segunda guerra mundial, código de Nuremberg. Visualizando a ética principialista, os benefícios pautados terão que ser superiores aos riscos. Para que se ponderem as experimentações humanas têm-se que, no mínimo, ter as notificações, documentações, bem esclarecidas dos riscos e benefícios, discutidos sob a óptica da ponderação do princípio da melhor conduta a ser exercida no tratamento de uma determinada patologia, beneficência e não maleficência, pelo ao menos é o que está escrito no código de ética médica[15], Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos da Unesco[16] e código de Nuremberg[17]. Não se pode ponderar algo que não se tem o controle da efetividade, paraefeitos de uma conduta e que não é, determinantemente, aceito no mundo científico. No caso das medicações ditas como Kit Covid, em posse de inúmeros artigos científicos demonstrando a ineficácia, a divulgação e a persistência da indicação, conduz a algumas conclusões:

  • Ou é um processo de denegação, o qual mesmo em posse de afirmações contrária, o individuo tenta reafirmar a realidade que acredita, de forma persistente, para não se contradizer e desmoronar com a realidade que não lhe interessa (não assumir que estava errado), esse assunto deverá ser tratado como psicopatológico;
  • A outra vertente é a lógica de que essa realidade paralela promove interesses particulares, questões que estão sendo investigadas com o pedido da quebra de sigilos[18];
  • De outro modo, existem pensamentos, jocosos, sem fundamentos, os quais articulam pautas no interesse da indústria farmacêutica. Os antivirais que mostraram ações efetivas estão reservados para casos restritos, não sendo um tratamento de massa, portanto não justifica o desvio dessa conclusão. Ainda com essa argumentação, as empresas que produzem vacinas estão se beneficiando, entretanto, em medicina não existem profilaxia medicamentosa de massa para vírus que não sejam as vacinas. Graças a primeira vacina antivaríola descoberta no século XVIII[19], é que estão sendo salvas milhares de vidas anualmente. Perguntem a população se não querem tomar a vacina para Covid, pois as indústrias farmacêuticas irão ser favorecidas.
  • E a última vertente é uma lógica infantilizada, que a quase totalidade do mundo científico não possui a clarividência dos poucos médicos e políticos brasileiros, “os descobridores dos 7 mares”. Aos quais nas suas conclusões, os países não foram perceptivos o suficiente, ficaram de joelhos para uma “gripezinha”, a qual poderia ter sido “tratada” com medicações de baixo custo.

   Em realidade, desconsiderando as subnotificações, o Brasil encontra-se com quase 500 mil mortos, dos quais nunca saberemos quem morreu de complicações decorrentes da Covid, quem morreu pela falta e má assistência e quem morreu decorrente aos paraefeitos de medicamentos sem comprovações científicas. Entre os vivos, infelizmente, também, não temos os números relacionados de quem estão sofrendo pelos efeitos colaterais das medicações utilizadas, Kit Covid. O principal órgão que deveria cuidar disso tudo não tem as evidências epidemiológicas da pandemia, quanto mais controle dos usos e paraefeitos dos medicamentos.

Nota-se, infelizmente, uma tendência crescente ao negacionismo por parte dos governistas, consequentemente, está resultando em endemização da Covid e isolamento dos brasileiros[20], os quais já estão sendo visto pelo mundo com olhares preconceituosos[21]. A desobrigação precoce do uso de máscaras fortalecerá a ideia de que a pandemia acabou e está tudo sob controle, o que não é a realidade, os hospitais estão todos lotados e as taxas de contaminações são absurdas[22]. Essa atitude “palaciana” exporão os brasileiros a experiências múltiplas, infundadas e sem controle, com isso, o Brasil está sendo um grande laboratório humano, de mortos e vivos, desorganizado, descontrolado, um mal exemplo de humanização e ciência. Conclui-se que, nessa grande experiência humana:

  • Ou comprovarão que as poucas vacinas realizadas e a imunização de rebanho, atingida naturalmente, serão eficazes a custos de milhares de centenas de mortos;
  • Ou, de outro modo, mostrarão para o mundo que as mais recentes tecnologias, como as vacinas da Pfizer e Moderna, não foram suficientes para contemplar as novas variantes surgidas no Brasil.

Sendo assim, o mundo deverá manter o Brasil isolado até que possa repensar em novas práticas de profilaxia e reintegralizações dos brasileiros. No passado, atitudes como essas foram julgadas nos fóruns de direitos humanos internacionais.

*Ângelo Augusto Araújo, MD, MBA, PhD ([email protected]).


Referências

[1] INDURSKY, Freda. Polêmica e Denegação: Dois fundamentos discursivos da negação. Cadernos de estudos lingüísticos. Campinas, SP. N. 19 (jul./dez. 1990), p. 117-122, 1990.

[2] Disponível em: https://www.worldometers.info/coronavirus/, acessado em: 12/06/2021

[3] Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/v%C3%ADrus-verbal-frases-de-bolsonaro-sobre-a-pandemia/g-54080275, acessado em: 12/06/2021

[4] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Protozo%C3%A1rio, acessado em: 12/06/2021

[5] Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/06/11/cpi-da-pandemia-comeca-a-investigar-defensores-da-cloroquina, acessado em: 12/06/2021

[6] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=AqHsz2NSGes, acessado em: 12/06/2021

[7] DA SILVA ARAÚJO, Ângelo Augusto; SILVA, José Rodrigo Santos. Hidroxicloroquina e Covid-19, parecer do CFM: Principiologia, Contradições e Complexidade. Research, Society and Development, v. 10, n. 5, p. e28610515005-e28610515005, 2021

[8] Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2021-06-08/obstinado-em-permanecer-ministro-queiroga-expoe-na-cpi-as-barreiras-impostas-por-bolsonaro-no-combate-a-pandemia.html, acessado em: 12/06/2021

[9] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/04/brasil-e-covid-19-uma-historia-de-cegueira-epidemiologica-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 12/06/2021

[10] Disponível em: https://www.nytimes.com/article/brazil-coronavirus-cases.html, acessado em: 12/06/2021

[11] Disponível em: https://www.globalpolicyjournal.com/blog/21/12/2020/between-two-epidemics-coronavirus-and-inequality-brazil-conversation-ggf-2035, acessado em: 12/06/2021

[12] Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2021-06-11/saiba-por-que-e-preciso-ignorar-bolsonaro-e-continuar-a-usar-mascara-mesmo-vacinado-contra-a-covid-19.html, acessado em: 12/06/2021

[13] Disponível em: https://time.com/6049612/cdc-mask-guidance-mistake/, acessado em: 12/06/2021

[14] SHUSTER, Evelyne. Fifty years later: the significance of the Nuremberg Code. New England Journal of Medicine, v. 337, n. 20, p. 1436-1440, 1997

[15] Disponível em: https://portal.cfm.org.br/images/stories/biblioteca/codigo%20de%20etica%20medica.pdf, acessado em: 12/06/2021

[16] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2020/05/hidroxicloroquina-e-covid-19-aspectos-bioeticos-e-riscos-de-implicacoes-juridicas-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 12/06/2021

[17] Idem 14

[18] Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/06/cpi-da-covid-quebra-sigilo-de-pazuello-ernesto-e-integrantes-do-gabinete-paralelo-de-bolsonaro.shtml, acessado em: 12/06/2021

[19] Disponível em: https://www.bio.fiocruz.br/index.php/br/perguntas-frequentes/69-perguntas-frequentes/perguntas-frequentes-vacinas/213-como-surgiram-as-vacinas, acessado em: 12/06/2021

[20] Disponível em: https://www.jornalgrandebahia.com.br/2021/01/brasil-e-a-covid-19-geracao-de-novas-variantes-exportacao-isolamento-e-risco-de-maior-catastrofe-humana-por-angelo-augusto-araujo/, acessado em: 12/06/2021

[21] Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/04/brasileiros-sao-alvo-de-discriminacao-na-europa-devido-a-variante-do-virus.shtml, acessado em: 12/06/2021

[22] Disponível em: https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2021/06/06/hospitais-lotados-e-251-na-fila-por-leitos-faz-ms-mandar-pacientes-graves-com-covid-19-para-sp.ghtml, acessado em: 12/06/2021

População protesta por direito à vacinação contra a Covid-19 e apoio social.
População protesta por direito à vacinação contra a Covid-19 e apoio social.
Sobre Ângelo Augusto Araújo 48 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.