A pluralidade cultural não se compadece de lógicas hierarquizantes, diz Paulo Miguez vice-reitor da UFBA

Professor Paulo Miguez avalia o carnaval como um de principais temas de pesquisa. Na imagem, a participação do Bloco Olodum no Carnaval 2017 de Salvador.
Professor Paulo Miguez avalia o carnaval como um de principais temas de pesquisa. Na imagem, a participação do Bloco Olodum no Carnaval 2017 de Salvador.

“Afinal de contas, o que estamos chamando de cultura?”, questionou o pesquisador do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Milton Santos (Ihac) Paulo Miguez, vice-reitor da  Universidade Federal da Bahia (UFBA), durante palestra realizada na disciplina Ciência e Sociedade, no dia 02 de maio. Em seguida, ele esclareceu, à luz do sociólogo britânico Raymond Williams (1921-1988), que cultura é uma das três palavras mais complexas da nossa língua, por isso a necessidade de explorá-la inicialmente, antes de mergulhar no tema de sua aula, intitulada “Desafios da cultura na contemporaneidade”.

É muito comum, observa Miguez, a confusão entre arte e cultura, da qual “temos que nos afastar”. Quando se fala da cultura, costuma-se pensar em artistas, “mas nós, professores, por exemplo, somos o pessoal da cultura também, no sentido que cultura é algo mais amplo que isso”. Cultura não é sinônimo de arte: “Cultura é regra, arte é exceção. Todos nós expressamos cultura, mas somos poucos os que fazem arte”. Visitando ainda outros sentidos do termo cultura, lembrou que o senso comum também sugere o uso de cultura como sofisticação, sabedoria – ‘fulano é muito culto’ – ou ainda afirmações infelizes usadas de modo pejorativo, a exemplo de ‘aquele povo não tem cultura’, ou ainda, ‘tem uma subcultura’”.

Miguez, que é pesquisador do Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura (Cult/Ihac/UFBA), afirma que “cultura não pode ser usada, em hipótese nenhuma, para classificar, hierarquizar, discriminar indivíduos, povos, etnias, sociedades”, pois a utilização imprópria da palavra como ferramenta de discriminação exclui aqueles que são diferentes. “Nosso país é uma expressão muito clara dessa hierarquização ao longo de sua história. O que a colonização fez com as culturas indígenas, os povos que foram escravizados, que foram trazidos para cá, é claramente a utilização da ideia de cultura de forma equivocada”, lamentou.

“A pluralidade cultural não se compadece de lógicas hierarquizantes. Não existem culturas superiores e não existem culturas inferiores. Essa é uma questão fundamental”. Para Miguez, portanto, “a diversidade cultural da espécie humana é algo incatalogável, simplesmente porque ela é maravilhosamente múltipla, rica. Então como conciliar essas coisas? Como é possível que sejamos tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes? A cultura é elemento importante para enfrentarmos essa questão.”

Nesse sentido, Miguez indica alguns pontos consensuais na definição de cultura. “Primeiro, a recusa firme do determinismo biológico. Do ponto de vista cultural, filho de peixe não necessariamente será peixe”. Para exemplificar, ele afirma que ninguém é brasileiro ou baiano por herança. A geografia também não é determinante: “Fatores geográficos são muito importantes, mas a cultura age seletivamente sobre o meio ambiente. No frio, diferente do animal que não tem cultura, tem instinto, que costuma se preparar para enfrentar o frio ou comendo ou desenvolvendo do ponto de vista de sua estrutura física o pelo. Nós não, nós inventamos o casaco, a casa, nós dominamos o fogo. Nós não agimos casualmente no meio ambiente, sabemos enfrentá-lo por causa da imersão cultural”.

Miguez explica que “a cultura é sempre um conjunto dinâmico, plural, mutável. E são sempre transmitidas, aprendidas, socialmente. É fundamental a vida em sociedade para que a cultura se constitua e possa pôr a sociedade em movimento”. Sendo assim, a cultura é um conceito que ajudaria a traduzir o mundo e a vida social, citando o conceito descrito na Declaração Universal Sobre a Diversidade Cultural e Plano de Ação de 2001: “A cultura é o conjunto dos traços distintivos espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou um grupo social e que abarca, para além das artes e das letras, os modos de vida, os direitos fundamentais do ser humano, os sistemas de valores, as tradições e as crenças.”

Paulo Miguez, que tem o carnaval um de seus principais objetos de estudo, também falou sobre a relação da cultura e economia. Sobre a culturalização da mercadoria, ele explicou que “vale mais a distinção que determinado produto favorece, o prestígio que ele garante, do que efetivamente o serviço em si. Ninguém compra um carro porque ele se desloca do ponto A para o ponto B. Cada carro quer significar alguma coisa”, de modo que “cada vez mais o valor é determinado pelo design, pela marca”.

Esse fenômeno tem impacto na mercantilização da cultura, avalia. Ao descrever a indústria do entretenimento americano e brasileiro, Miguez contou que a propriedade intelectual em seis setores (televisão, livro, música, cinema, software, jornais e revistas) movimenta 11,59% do PIB norte-americano, o que equivale a US$ 2,2 trilhões, segundo dados de 2017 – números expressivos e que não abrangem todo o setor cultural, deixando de fora do somatório os museus, parques temáticos, show business, entre outros. “O total é 9,4% maior que o PIB brasileiro”, que, no mesmo ano, somou US$ 2,1 trilhões.

Ciência e Sociedade

A disciplina Ciência e Sociedade já reuniu mais de 22 com pesquisadores de destaque em suas áreas, em palestras disponíveis no canal do Youtube do Grupo de Pesquisa em química e quimiometria (GRPQQ). “Passeamos pelo campo da saúde, do gênero, das humanidades, das exatas, das letras, da literatura”, afirma Sérgio Luís Costa Ferreira, pró-reitor de Pesquisa, Criação e Inovação e responsável pela disciplina, vinculada ao Departamento de Química Analítica do Instituto de Química da UFBA.

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