Trabalhadores da Saúde: 1º de maio, dia da celebração da Vida | Por Ângelo Augusto

O Hospital de Campanha de Santarém, no oeste do Pará, recebeu, nesta sexta-feira (15/05/2021), a primeira paciente transferida por transporte aeromédico para o local. Uma idosa, de 81 anos, com suspeita de covid-19, veio de helicóptero do município de Óbidos para Santarém. Ela chegou por volta de 12h30. O pouso aconteceu no quartel de Corpo de Bombeiros e, em seguida, a paciente foi levada pela de ambulância até o Hospital de Campanha.
Médicos que atuam em serviços de emergência tiveram elevada exposição ao SARS-CoV-2,

A luta do dia a dia pela sobrevivência, traçado pela guerra em um sistema desigual e desumano, é a sina da esperança de todos os trabalhadores por dias melhores. O movimento classicista ocorrido em 1º de maio de 1886, Chicago – EUA, no qual os trabalhadores grevistas reivindicavam 8h por dia de trabalho, entrou para a história mundial como o Dia Internacional dos Trabalhadores. No Brasil, somente em 1924, pelo presidente Arthur Bernardes, esse dia tornou-se feriado nacional[1]. Essa data que é uma conquista tão importante para todos os trabalhadores, traz consigo, entre a maioria das pessoas, o esquecimento dos significados da celebração e torna-se, para alguns, um momento breve de ócio e reflexões, sendo que para outros, representa um dia de alívio e repouso. Os pesares das rotinas e ocupações diárias dos trabalhadores, “afortunados” (empregados), somados as manipulações informativas, para a grande maioria dos trabalhadores, preenchem seus pensamentos, retiram suas autonomias e ocultam as reflexões desse importantíssimo dia. Em meio aos interesses diversos, destaco nesse pequeno texto, os profissionais da saúde.

De acordo com os dados da Anistia Internacional em 2020, morreram no mundo aproximadamente 17 mil Profissionais da Saúde[2]. Mortes decorrentes das exposições excessivas a um agente infeccioso de alta transmissibilidade e virulento, o Sars-Cov-2. Na tentativa de socorrer os infectados, lutando pela sobrevivência, e na maioria das vezes sem equipamentos de proteção adequados, essa classe de trabalhadores trocaram suas vidas pelo o sentimento de humanização, o qual continua sendo desconsiderado pela maioria dos gestores da saúde. Os documentos que apontam para exposição e contaminação dos profissionais da saúde, demonstram que, com um ano de pandemia, as queixas dessa classe de trabalhadores estão relacionadas aos baixos salários, trabalhos excessivos e pela falta de condições adequadas de trabalho, continuam sendo crescentes[3]. Quando se soma as histórias das lutas de classes, anteriormente travadas, esse é mais um pequeno fragmento da história a ser contada, a qual representará a desumanização e, consequente, a perda de vidas humanas.

Portanto, as conquistas trabalhistas foram sempre um processo incessante de luta. Desde que se iniciou a celebração mundial em 1º de maio, dia do trabalhador, o objetivo era destacar uma conquista pela luta de classe e que essa luta continuasse, sem perca de foco, que representasse a humanização continuada. Na contemporaneidade, os processos de desumanização e individualismo estão em crescente evolução, tendo como objetivo principal a concentração de renda e o ganho de capital. Essa data que comemora o dia dos trabalhadores de todos os setores e sua devida importância, foi destacado, pelo título desse texto, como o dia de celebração da vida, enfatizando os profissionais da saúde. O setor da Saúde em alguns momentos da história esteve em evidência, tratando-se da luta pela vida, muitos profissionais estão na batalha que determinará a vida e morte de alguns, assim como, da sua própria existência. A referência desse dia como a celebração da vida, é estendida a todos os trabalhadores por estarem vivos, em meios a tantos desafios, e pela luta contínua que garante a sobrevivência de todos. O ócio que representa esse dia é o reflexo das lutas inacabadas em prol de dias melhores pela liberdade, igualdade e justiça.

“… um dia trilharei os caminhos desconhecidos da morte, o que ela representa é um eterno desafio para minha mente limitada. Nos jogos da vida, carrego a crença potencial e existencial de dias melhores, a luta pela humanização tem que continuar…”

*Ângelo Augusto Araújo, MD, MBA, PhD ([email protected]), médico, pesquisador, doutor em saúde pública e doutorando em Bioética pela Universidade do Porto.


Referências

[1] Disponível em: http://sindpdrj.org.br/portal/v2/2014/04/30/dia-do-trabalhador-saiba-como-surgiu-o-feriado-do-dia-1o-de-maio/, acessado em: 01/05/2021

[2] Disponível em: https://www.istoedinheiro.com.br/pandemia-matou-pelo-menos-17-mil-profissionais-de-saude-no-ano-passado/, acessado em: 01/05/2021

[3] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-04/pandemia-aumentou-estresse-em-profissionais-de-saude-afirma-pesquisa, acessado em: 01/05/2021

Em 29 de março de 2020, médicos do navio hospital USNS Mercy recebiam os primeiros pacientes com a Covid-19.
Em 29 de março de 2020, médicos do navio hospital USNS Mercy recebiam os primeiros pacientes com a Covid-19.
Ângelo Augusto Araújo
Sobre Ângelo Augusto Araújo 43 Artigos
Dr. Ângelo Augusto Araujo (e-mail de contato: [email protected]), médico, MBA, PhD, ex-professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), especialista em oftalmologia clínica e cirúrgica, retina e vítreo, Tese de Doutorado feita e não defendida na Lousiana State University, EUA, nos seguintes temas: angiography, fluorescent dyes, microspheres, lipossomes e epidemiologia. Doutor em Saúde Pública: Economia da Saúde (UCES); Doutorando em Bioética pela Universidade do Porto; Master Business Administration (MBA) pela Fundação Getúlio Vargas; graduado em Ciências Econômicas e Filosofia; membro do Research fellow do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Sergipe; membro da Academia Americana de Oftalmologia; da Sociedade Europeia de Retina e Vítreo e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia; e diretor-médico da Clínica de Retina e Vítreo de Sergipe (CLIREVIS), em Aracaju, Sergipe.