Proteger patentes é ‘vírus do individualismo’, diz Papa Francisco

A retomada do encontro semanal do Papa Francisco com os peregrinos, depois de mais de 6 meses de suspensão, vai seguir os protocolos de segurança das autoridades por causa da pandemia de Covid-19. A tradicional Audiência Geral com o Pontífice, porém, não será realizada na Praça São Pedro, mas no Pátio São Dâmaso do Palácio Apostólico, dentro do Vaticano e será retomada a partir de 12 de maio de 2021.
Papa Francisco cumprimenta fiéis após receber imunização contra a Covid-19.

O papa Francisco voltou a defender neste sábado (08/05/2021) a quebra temporária de patentes de vacinas anti-Covid, pauta que ganhou novo impulso após ter sido encampada pelo governo dos Estados Unidos.

Em mensagem em vídeo para o show virtual Vax Live, que reúne dezenas de artistas para arrecadar fundos para financiar a distribuição de imunizantes contra o novo coronavírus no mundo, o líder católico afirmou que é necessário “abandonar nossos individualismos e promover o bem comum”.

Além disso, defendeu que “um espírito de justiça nos mobilize para assegurar o acesso universal a vacinas e a suspensão temporária dos direitos de propriedade intelectual”. “A pandemia colocou todos em crise, mas não se esqueçam que não saímos iguais de uma crise, saímos melhores ou piores”, disse.

Francisco também declarou que o “vírus do individualismo” não torna as pessoas “mais iguais nem mais irmãs”, porém as deixa “indiferentes ao sofrimento dos demais”. “Uma variante desse vírus é o nacionalismo fechado, que impede, por exemplo, um internacionalismo das vacinas. Outra variante é quando colocamos as leis de mercado ou de propriedade intelectual acima das leis do amor e da saúde da humanidade”, ressaltou.

O tom da mensagem é semelhante ao discurso proferido pelo Papa em sua bênção de Natal no ano passado, quando ele criticou os que colocam as “leis de mercado e de patentes de invenções sobre as leis do amor”.

O pleito pela quebra das patentes de vacinas anti-Covid é liderado pela Índia e por países da África, mas ganhou o apoio dos EUA na última quarta-feira (5), quando o governo Biden disse que “tempos extraordinários exigem medidas extraordinárias”.

A União Europeia, por sua vez, ainda está reticente e afirma que a suspensão dos registros de propriedade intelectual não é suficiente para resolver o problema da falta de doses no mundo.

“Não achamos que possa haver uma solução mágica de curto prazo sobre a propriedade intelectual”, afirmou neste sábado o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel.

Líderes da UE cobram que os EUA revoguem os bloqueios a exportações de imunizantes. “De 400 milhões de doses produzidas, exportamos 200 milhões. Fomos mais lentos com as campanhas na Europa porque fomos abertos desde o início. Os EUA, por enquanto, só exportaram 5% ao Canadá e ao México”, disse o presidente da França, Emmanuel Macron.

Até o momento, já foram aplicadas cerca de 1,26 bilhão de doses de vacinas anti-Covid em todo o mundo, segundo o portal Our World in Data, mas somente 19,7 milhões (1,7%) na África, embora o continente abrigue mais de 15% da população global.

Confira trechos da declaração do Pontífice 

Curar na raiz

O início da videomensagem de Francisco tem um toque de humor pessoal: “Recebam uma saudação cordial deste idoso, que não dança nem canta como vocês”, e continua com a eficácia de um magistério que, como sempre, abraça o planeta até seus recantos abandonados: “A injustiça e o mal não são invencíveis (…). Peço-lhes que não se esqueçam dos mais vulneráveis”.

Diante de tanta escuridão e incerteza, precisamos de luz e esperança. Precisamos de caminhos de cura e salvação. Refiro-me a uma cura na raiz, que cura a causa do mal e não se limita apenas aos sintomas. Nessas raízes doentes encontramos o vírus do individualismo, que não nos torna mais livres ou mais iguais, nem mais irmãos, mas nos transforma em pessoas que são indiferentes ao sofrimento dos outros.

O mercado que esmaga a saúde

Numa contingência pandêmica na qual as “variantes” são temidas, o Papa identifica outro tipo. Uma “variante deste vírus”, diz ele, “é o nacionalismo fechado, que impede, por exemplo, um internacionalismo das vacinas”. Mas não é a única.

Outra variante é quando colocamos as leis do mercado ou da propriedade intelectual acima das leis do amor e da saúde da humanidade. Outra variante é quando acreditamos e fomentamos uma economia doente que permite que algumas pessoas muito ricas possuam mais do que todo o resto da humanidade, e que modelos de produção e consumo destruam o planeta, nossa “casa comum”.

A justiça também é uma vacina para os pobres

“Estas coisas”, prossegue Francisco, “estão interligadas. Toda injustiça social, toda marginalização de alguém na pobreza ou na miséria também afeta o meio ambiente”. As Encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti fazem igualmente referência a diversas considerações, que desta vez apontam diretamente ao pedido em torno do qual gira o evento californiano.

Natureza e pessoa estão unidas. Deus Criador infunde em nossos corações um espírito novo e generoso para abandonar os nossos individualismos e promover o bem comum: um espírito de justiça que nos mobiliza a garantir o acesso universal às vacinas e a suspensão temporária dos direitos de propriedade intelectual; um espírito de comunhão que nos permite gerar um modelo econômico diferente, mais inclusivo, justo e sustentável.

A oração final do Papa é a Deus “para que nos conceda o dom de uma nova fraternidade, de uma solidariedade universal e para que possamos reconhecer o bem e a beleza que Ele semeou em cada um de nós, para fortalecer laços de unidade, de projetos comuns e de esperanças compartilhadas”.

8Com informações do Jornal O Globo, Yahoo Notícias e Vaticano News.

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