Conflito no Oriente Médio mostra como eixo político palestino está mudando

Há um descontentamento crescente entre os palestinos com as lideranças moderadas, como a que controla a Cisjordânia. O radical Hamas pode sair dos atuais combates com Israel ainda mais fortalecido.
Há um descontentamento crescente entre os palestinos com as lideranças moderadas, como a que controla a Cisjordânia. O radical Hamas pode sair dos atuais combates com Israel ainda mais fortalecido.

Até poucos dias atrás, as coisas estavam relativamente calmas na Cisjordânia. A escalada atual de violência havia começado em Jerusalém Oriental, onde os moradores palestinos do bairro de Sheikh Jarrah foram ameaçados de despejo em favor de colonos judeus.

Então, o Hamas, organização que controla o outro território palestino, a Faixa de Gaza, começou a disparar foguetes contra Israel. A Força Aérea israelense, por sua vez, iniciou bombardeios em retaliação.

Ao mesmo tempo, dentro de território israelense, se multiplicavam os confrontos violentos entre judeus e a minoria árabe.

“Parecia, de Ramallah, que você estava em uma posição de observador”, diz Steven Höfner, diretor do escritório da fundação alemã Konrad Adenauer (KAS), no centro administrativo da Cisjordânia.

Isso mudou na última sexta-feira (14/05/2021), dia da semana em que os confrontos já são, por si só, uma ocorrência regular após as orações. Manifestações cada vez mais violentas aconteceram em vários locais da Cisjordânia, inclusive em torno de Ramallah, Hebron, Nablus e Jenin.

No lado palestino, bombas caseiras e pedras foram jogadas contra as forças de segurança, que responderam com gás lacrimogêneo, balas de borracha e até com munição de verdade. Ao fim daquela sexta-feira, o Ministério da Saúde palestino relatava dez manifestantes mortos e cerca de 150 feridos.

Observadores consideram os tumultos atuais os mais graves desde a Segunda Intifada – a segunda grande revolta civil palestina contra Israel, que começou em 2000, se estendeu por cinco anos e terminou com cerca de mil israelenses e 3.500 palestinos mortos.

A disputa política palestina

Na Cisjordânia, a liderança política está desempenhando um papel moderador. No poder está o partido Fatah, que pertence à Organização de Libertação da Palestina (OLP). Ela coopera com Israel em muitas áreas e também tem conexões internacionais.

Seu líder, Mahmoud Abbas, adiou repetidamente as eleições. Ou seja: governa basicamente sem legitimidade democrática há uma década. Mas o experiente político, de 85 anos, ainda é o primeiro ponto de contato palestino para diplomatas. No último sábado, por exemplo, o presidente americano, Joe Biden, falou ao telefone com o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, e com Abbas.

Abbas cancelou as eleições planejadas para 22 de maio, oficialmente por causa do conflito em Jerusalém Oriental. O Fatah estava ameaçado de derrota: de acordo com pesquisas, as chances de vitória estavam com o Hamas, um grupo considerado terrorista por EUA e UE, que nega o direito de Israel de existir e que mantém o poder na Faixa de Gaza desde 2007.

Mas observadores não davam uma maioria absoluta para o Hamas como certa, e uma tomada de poder na Cisjordânia não era de fato algo iminente, como diz Höfner. “A ameaça ao Fatah era sobretudo interna. Três blocos teriam dividido os votos”, diz o observador alemão.

Na disputa política, a escalada da situação de segurança desde o fim de semana continua prejudicando o Fatah: “Desde a escalada do conflito, especialmente na Faixa de Gaza, há um apoio crescente ao Hamas, especialmente em solidariedade ao Hamas para se impor contra as políticas israelenses. E isso está ganhando força também na Cisjordânia”, comenta Höfner.

Para o Fatah, comenta o observador alemão, pode se tornar um perigo “que o protesto não seja dirigido apenas contra Israel, mas também contra sua própria liderança”. A liderança do Fatah tentará, segundo ele, manter os protestos pequenos e continuar a cooperação de segurança com Israel.

Deterioração crescente nos territórios palestinos

A população da Cisjordânia tem um padrão de vida melhor do que a de Gaza. Mas mesmo sob a liderança do Fatah, houve pouco progresso econômico ao longo dos anos. A situação se deteriorou rapidamente quando Donald Trump cortou a ajuda para os territórios palestinos em 2018. Seu sucessor, Biden, quer retomar os pagamentos. A economia no território é, além disso, fortemente dependente de Israel.

A Cisjordânia está muito longe de um verdadeiro governo autônomo palestino. Embora a autonomia tenha sido consagrada nos Acordos de Oslo de 1995, ela foi apenas para uma parte do território. Dele, 61% foram declarados “Área C”, na qual Israel detém total controle sobre questões administrativas e de segurança. Isso inclui não apenas postos de controle, estradas e assentamentos judaicos, mas também quase todo o Vale do Jordão, que é geopoliticamente importante para Israel.

“As chances de um palestino obter uma licença de construção na Área C, mesmo em um terreno privado, são poucas ou nenhumas”, escreve a ONG israelense B’Tselem em seu site. Ao mesmo tempo, segundo a entidade, a chegada de colonos judeus, frequentemente ortodoxos e nacionalistas, tem aumentado acentuadamente nos últimos anos.

Frustração entre os jovens

Há frustração a esse respeito, especialmente entre a geração de jovens adultos. Um dos atuais grupos de protesto, segundo Höfner, são “os jovens palestinos decepcionados com a liderança política do Fatah, porque não há estratégia e nenhuma visão de como alcançar a independência ou uma melhoria nas condições de vida”. Com as eleições adiadas várias vezes, diz o observador alemão, mesmo pessoas na faixa dos 30 anos na Cisjordânia nunca foram autorizadas a votar.

Há uma “completa desconexão” entre esta demografia e a política, diz Höfner: “Os jovens são ativos sobretudo no Facebook, mas serviços como TikTok e Instagram também estão ganhando força. A liderança, no entanto, especialmente a elite mais antiga do Fatah e da Autoridade Palestina, não está presente ali de forma alguma. Como de costume, eles tentam chegar à população através de declarações públicas na imprensa ou meios próximos a eles. Mas eles não se relacionam com a população jovem em particular”, afirma.

O Hamas, por outro lado, está ativo nas mídias sociais, e a situação cada vez pior dos árabes israelenses também está se espalhando rapidamente – em ambos os lados das barreiras que separam Israel e a Cisjordânia. Se as incontáveis publicações nas mídias sociais também levarão a uma maior mobilização na Cisjordânia, ninguém pode estimar no momento.

Em Ramallah, entretanto, o chefe de gabinete da KAS, Steven Höfner, afirma: “Quanto mais tempo durar o conflito, mais forte se tornará o Hamas – porque o Fatah também não tem nenhuma contraestratégia própria e não oferece nenhuma alternativa para o confronto.”

*Com informações do DW.

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