Brasil figura em 86º lugar de 151 países em ranking de qualidade das elites

Índice top 10 do ranking EQx2021. Na classificação dos BRICS, a China é a que tem o melhor desempenho.
Índice top 10 do ranking EQx2021. Na classificação dos BRICS, a China é a que tem o melhor desempenho.

O Brasil aparece na 86ª posição entre 151 países no Índice de Qualidade das Elites 2021 (EQx), um ranking internacional de economia política que fornece uma visão dos sistemas de elites nacionais. O estudo foi desenvolvido pelas universidades do Porto, em Portugal, e de Saint Gallen, na Suíça.

A segunda edição do ranking foi focada na criação de valor esperada em um mundo pós-COVID-19, com análise de dados internacionais, governamentais e de entidades como Banco Mundial e FMI. O índice baseia-se em 107 indicadores (35 a mais do que o EQx2020), em quatro áreas conceituais: poder econômico, valor econômico, poder político e valor político.

Assim como em 2020, Singapura ocupa o primeiro lugar no ranking, afirmando-se como a cidade-Estado cujas elites empresariais mais valor criam no mundo, segundo os autores. Completam o pódio a Suíça (2º) e o Reino Unido (3º). Os Estados Unidos mantêm a quinta posição, e a Alemanha caiu da 3ª, em 2020, para a 15ª, em 2021.

De acordo com os professores da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP) Óscar Afonso e Cláudia Ribeiro, responsáveis pelo estudo em Portugal, Israel obteve os maiores ganhos no EQx2021, subindo a classificação global para 7º lugar.

“Uma dimensão fundamental na atualidade é o desempenho das elites em relação à gestão da pandemia da COVID-19. No EQx2021, constata-se que elites de maior qualidade como Singapura (1º), Suíça (2º), Israel (7º), Noruega (8º) ou Nova Zelândia (13º) têm sido mais capazes de proteger o seu país dos impactos sanitários e econômicos da COVID-19”, destaca Óscar Afonso.
A partir da análise e comparação, as elites são classificadas em “muito alta qualidade” (posições de 1 a 10), “elites de alta qualidade” (de 11 a 25), “elites de qualidade” (de 26 a 75), “elites de qualidade média” (de 76 a 124) e “elites atrasadas” (posição superior a 125).

O Brasil figura no grupo das elites de qualidade média, no meio da tabela, logo abaixo do Togo (85º lugar) e do Paraguai (84º). O Brasil é descrito como um país rico com um economia política injusta, agravada pela COVID-19.

Questionada se mantinha sua percepção do EQx2020 de que as elites brasileiras, sejam políticas ou econômicas, tiram mais valor da sociedade do que criam e agregam novas oportunidades, Cláudia Ribeiro, uma das autoras, é enfática.

“Claramente que sim. No contexto dos 151 países analisados no índice de poder, o Brasil aparece na 50ª posição e, no de valor, em 120ª. Isso significa que, apesar de não concentrarem em si um poder demasiado elevado (o que justifica a 50ª posição), as elites são muito extrativas (120ª em 151)”, justifica Cláudia.

‘Pandemia piorou desigualdade no país’, diz sociólogo

O pior indicador do Brasil, que põe o país na 139ª colocação, é a participação dos 10% no topo da renda nacional antes dos impostos, o que mostra que o poder econômico continua altamente concentrado nas mãos de alguns bilionários e empresas, na análise do sociólogo Tulio Kahn, que assina o texto sobre o país.

“O que se avalia é que a pandemia piorou a desigualdade no país no último ano, uma vez que ela afeta especialmente aos mais pobres”, pontua Kahn.

Doutor em Ciências Sociais pela USP, com pós-doc na Universidade de Oxford, Kahn refere que alguns comentaristas também incluiriam a morte de centenas de milhares de COVID-19 como uma violação grave dos direitos humanos, resultante da resistência do presidente Jair Bolsonaro e da negligência no sistema de saúde. Ele destaca que dois ministros da Saúde (Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich) tiveram que renunciar por discordar das visões presidenciais.

Ele cita um relatório da Anistia Internacional como principal referência para essa percepção, assim como para o uso excessivo da força pelas polícias. Segundo sua análise, o Brasil ainda é um país atormentado por graves violações dos direitos humanos, especialmente no lotado sistema prisional, dominado por facções criminosas e confrontos entre suspeitos e policiais, que deixou centenas de vítimas em seu rastro, incluindo civis e policiais.

“As análises nacionais selecionam fatos estilizados, ressaltando o que os indicadores apontam como mais significativo no período. Mas são obviamente bastante resumidas e simples”, explica Kahn.

Entre esses fatos, o consultor sênior da Fundação Espaço Democrático enumera que, em todo o país, o sistema de saúde sofria com a falta de leitos de UTI, oxigênio, ventiladores e medicamentos. Segundo ele, essa fragilidade sistêmica explica por que o Brasil ocupa a posição 138 entre os 151 países avaliados no ranking de mortalidade da COVID-19.

Indagado se há essa leitura por parte de analistas internacionais também, Kahn sugere que sim, ainda que sob uma ótica mais macro.

“Acho que os organismos internacionais estão cientes da baixa performance do governo no combate à pandemia. Mas não entram em detalhes dos equívocos de gestão. Estes estão bem descritos nas dezenas de pedidos de impedimento do governo solicitados nos últimos meses. Há farto material documental, e os pedidos são uma boa fonte, pois são mandatários de cargos eletivos, associações da sociedade civil etc.”, aponta.

Saída de Moro do governo reduziu percepção de combate à corrupção

Se forem levados em consideração apenas os 32 países que compuseram a primeira edição do ranking (EQx2020), o Brasil subiu da 27ª para a 25ª posição. Usando somente esse mesmo grupo de nações, Índia e Paquistão, que, respectivamente, ocupavam a 25ª e 26ª posições em 2020, cairiam para a antepenúltima e a última posições neste ano.

Kahn acredita não ser possível comparar os dois anos, pois outros 119 países e 35 novos indicadores foram incluídos nesta edição de 2021. No entanto, ele não descarta que a inclusão de novos indicadores tenha beneficiado a classificação do Brasil este ano em alguma medida.

“Em teoria, quanto maior o número de indicadores, mais justa é a avaliação do país no ranking, pois diminui o risco de influência de algum indicador particularmente bom ou ruim”, compara.
No poder político. alguns pontos destacados por Kahn são a baixa participação das mulheres (96º lugar), os ataques a jornalistas críticos do governo e à imprensa (83º) e o esfriamento do combate à corrupção (74º) após a saída do ex-juiz Sergio Moro do Ministério da Justiça. Ele cita como exemplos a paralisação da investigação sobre Flávio Bolsonaro por um suposto esquema para desviar dinheiro enquanto era parlamentar no Rio de Janeiro e a presença de militares nos mais altos escalões do governo federal.

No que diz respeito aos indicadores EQx de Captura do Estado (52º) e Captura Regulatória (91º), o sociólogo aponta que o prometido programa de privatização de empresas estatais avançou muito pouco, e as intervenções do governo nestas empresas têm causado instabilidade no mercado e prejuízos aos acionistas minoritários. Além disso, observa, a tão esperada reforma do sistema tributário também não avançou.

O especialista acrescenta que 2020 também foi marcado por um crescimento significativo na taxa de desmatamento no Brasil. Segundo ele, essa política deliberada equivale à extração de recursos das gerações futuras e se reflete no desempenho do país no Índice de Desempenho Ambiental (49º lugar).

Kahn ressalta que milhares de pequenas empresas fecharam as portas em 2020 (47º) e que apenas o setor agrícola manteve algum ímpeto durante a pandemia devido aos seus laços estreitos com a economia chinesa. Ademais, o desemprego aumentou para 14% da população total (98º), com cerca de 18% dos jovens brasileiros sem estudar nem trabalhar (125º).

China fica em 26º, melhor desempenho entre os BRICS

Em sua análise, o Brasil já tem uma das taxas globais de homicídio mais altas (95º, com 27 por 100 mil habitantes), tem sérios problemas de abuso de substâncias ilícitas, particularmente com cocaína (120º), e é um centro importante na exportação de drogas para os Estados Unidos e a Europa. Com o crescimento do teletrabalho e do uso da Internet, o país também se tornou um dos epicentros do crime cibernético (70º).

Ainda de acordo com Kahn, 2020 agravou a crise fiscal do país, já sobrecarregada com gastos com funcionalismo e seguridade social. A dívida do governo brasileiro como percentual do PIB é de 89,3% (116º). No entanto, as taxas de juros e inflação permaneceram sob controle em níveis baixos (12º e 66º, respectivamente).

“Por outro lado, é digno de nota que o governo federal criou um bom sistema de ajuda emergencial aos mais pobres durante a crise. O defeito é ter sido demasiado curto e agora estudam retomar o auxílio emergencial, enquanto durar a pandemia”, pondera.
Entre os pontos positivos, ele cita o aumento da digitalização dos serviços, com o surgimento de vários “unicórnios” brasileiros (19º). Apesar de considerar o orçamento altamente concentrado no nível federal, ele assinala que muitos serviços públicos e obrigações de fornecer segurança, saúde e educação às populações locais são de responsabilidade ou corresponsabilidade das autoridades estaduais ou municipais (15º).

“A riqueza do Brasil e a engenhosidade de seu povo ainda podem levar o país a uma trajetória de criação de valor a qualquer momento. A probabilidade de tal transição ocorrer, em última análise, depende da qualidade de sua liderança política de elite”, conclui.
Em 26º lugar, a China é a que tem melhor desempenho entre os BRICS, com um EQx2021 tão alto quanto o de nações avançadas que têm quase três vezes sua riqueza per capita. A Rússia, em 65º, também fica à frente do Brasil. África do Sul (100º) e Índia (118º) completam o grupo, com a ressalva dos autores de que devem se envolver mais profundamente com transformações de modelos de negócios de elite sustentáveis.

Na classificação dos BRICS, a China é a que tem o melhor desempenho

“No período pós-COVID, a criação de valor pelas suas elites impulsionará o crescimento da China e do mundo, durante pelo menos uma década, se não mais” preveem os professores da FEP.

Portugal surge na 28ª posição, abaixo da média da União Europeia (14ª posição entre os 25 países avaliados da UE).

*Com informações de Lauro Neto, da Sputnik Brasil.

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