Um genial mendigo enlouquecido | Por Joaci Góes

Arthur Bispo do Rosário Paes (Japaratuba (SE), 1909 – Rio de Janeiro (RJ), 5 de julho de 1989) trancado num quarto-forte da então Colônia Juliano Moreira, hospício carioca, criou, ao longo de 50 anos, um mundo novo como miniaturas, mantos e estandartes.
Arthur Bispo do Rosário Paes (Japaratuba (SE), 1909 – Rio de Janeiro (RJ), 5 de julho de 1989) trancado num quarto-forte da então Colônia Juliano Moreira, hospício carioca, criou, ao longo de 50 anos, um mundo novo como miniaturas, mantos e estandartes.

Para o talentoso casal de artistas e queridos amigos, Márcia Magno e Juarez Paraíso!

Hoje são poucos, brevemente serão muitos, os que sabem quem foi Arthur Bispo do Rosário Paes, o sergipano, nascido em Japaratuba, a 54 kms de Aracaju, entre os anos de 1909 e 1911, que viveu no Rio de Janeiro, onde morreu no dia 5 de julho de 1989, deixando uma obra plástica feita com restos de lixo que o eleva, segundo alguns, a merecer o cognome de Van Gogh das ruas. Entre a genialidade e a loucura, Bispo do Rosário, que passou a maior parte de sua vida na Colônia Juliano Moreira, é um caso emblemático a despertar o interesse dos que estudam a eugenia, o preconceito e os socialmente decaídos, logo classificados como anormais ou indesejáveis, entregues, na prática, ao próprio destino.

Em 1925, ele ingressou na Marinha do Brasil, de onde saiu para ser boxeador e biscateiro. Entre 1933 e 37, trabalhou no Departamento de Bondes do Rio de Janeiro, de onde saiu para ser empregado doméstico da família do advogado Humberto Magalhães Leone, no bairro de Botafogo, entre o Flamengo e Copacabana. Em fins de 1938, despertou, certa manhã, com alucinações que o levaram a deixar o emprego para se apresentar na Igreja da Candelária. Depois de perambular pelas ruas, terminou chegando ao Mosteiro de São Bento onde se anunciou aos monges como enviado do Senhor, para julgar os vivos e os mortos. Poucos dias depois, a polícia o deteve e o fichou como um negro indigente, sem documentos, internando-o no Hospício Pedro II, na Praia Vermelha, o mesmo onde também foi internado Lima Barreto (1881-1922), pela primeira vez, em 1914.  Um mês depois, ele foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, onde foi diagnosticado como portador de esquizofrenia paranoide. Aí, passaria o resto da vida, alternando as ruas e o manicômio como morada.

Meio a esse desassossego rotineiro, Bispo do Rosário passou a compor novos objetos, a partir do que selecionava das latas de lixo e das sucatas. Suas criações, uma vez reunidas, foram consideradas obra vanguardista, de padrão Marcel Duchamp  (1887-1968), poeta, pintor e escultor francês-americano, cuja obra foi batizada como ready made, constante do transporte de objetos da rotina diária para o mundo das artes. As composições de Bispo do Rosário resultaram em navios, preito à sua experiência na Marinha, estandartes cívicos, faixas de misses e variados objetos domésticos, como a biografar as dores e alegrias de vidas passadas. Sua obra prima é o Manto da Apresentação, vestido no qual, dizia, se apresentaria no dia do Juízo Final.   A crítica passou a considerá-lo como criador de relevo da arte contemporânea brasileira.

Em 2018, Bispo do Rosário foi homenageado no Carnaval do Rio, pela Escola Acadêmicos do Cubango, de Niterói, com o enredo “O Rei que bordou o mundo”, merecendo louvores da crítica especializada. Antes, nos carnavais de 1997 e 99, ele fora homenageado,  respectivamente, pelas escolas Porto da Pedra e Tradição.

A boa notícia é que cresce o interesse do mundo das artes plásticas sobre a fascinante obra de Bispo do Rosário. O Ministro aposentado do STF, Carlos Ayres Brito, sergipano como Bispo, enviou-me o parecer abaixo do honesto escritor Uruguaio Eduardo Galeano, cuja festejada obra As Veias Abertas da América Latina continua a ser citada por desavisados, como se atual fosse, apesar de haver o autor reconhecido, antes de morrer, as inconsistências nela existentes, fruto, disse, de sua imaturidade intelectual:

“No inventário do artista Bispo do Rosário, feito pra entregar a Deus, ele colocou: vidros quebrados, vassouras, calças, chinelas caminhadas, garrafas bebidas, lençóis dormidos, todas viajadas, bandeiras vencidas, cartas lidas, palavras esquecidas e águas chovidas.

Ele havia trabalhado com o lixo. Porque todo o lixo era vida vivida, e do lixo vinha tudo o que no mundo era ou tinha vivido. Nada de intacto merecia aparecer. O intacto tinha morrido sem nascer. A vida só latejava no que tinha cicatrizes”.

*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário e ex-deputado federal constituinte.

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