Procurador da República Deltan Dallagnol armou para que substituto do juiz Sérgio Moro fosse aliado da força-tarefa do Caso Lava Jato

Conversas reveladas na Operação Spoofing demostram que juízes e procuradores da República agiam em conluio, formando, em tese, uma espécie de ‘Aliança do Crime’, com a finalidade de alinhar magistrados e membros do MPF em interesses espúrios.
Conversas reveladas na Operação Spoofing demostram que juízes e procuradores da República agiam em conluio, formando, em tese, uma espécie de ‘Aliança do Crime’, com a finalidade de alinhar magistrados e membros do MPF em interesses espúrios.

Novos áudios de celular identificados pela defesa do presidente Lula, e enviados nesta segunda-feira (15/04/2021) ao Supremo Tribunal Federal (STF), mostram que o procurador da República Deltan Dallagnol fez uma intensa articulação para que o juiz que ocuparia a vaga deixada por Sergio Moro na 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba tivesse o “perfil” da Lava Jato.

Como já está mais que provado, a Lava Jato atuou como um partido político para, de forma ilegal, prender o presidente Lula, tirando-o das eleições de 2018, e ajudar candidatos de linha “liberal” a se eleger. Para executar tal plano, foi fundamental garantir que os casos de Lula fossem julgados em Curitiba, por Sérgio Moro (mesmo que o ex-juiz não tivesse competência para isso, o que acabou levando à anulação de todas as ações na semana passada).

Por isso, quando Moro deixou de ser juiz, no fim de 2018, para se tornar ministro de Jair Bolsonaro, todo o esquema poderia ir por água abaixo. Para continuar sua perseguição a Lula, o primeiro passo da Lava Jato foi pressionar a juíza Gabriela Hardt, que assumiu o posto de Moro de maneira provisória. A pressão deu certo e Hardt condenou Lula em tempo recorde no caso do sítio em Atibaia. O segundo passo era garantir que o juiz definitivo fosse simpático à Lava Jato. E a articulação para que isso acontecesse foi intensa, mostram os novos áudios.

“Ótimo para nós”

Em um dos áudios, Deltan explica a um colega a intrincada articulação: “O que a gente precisaria fazer seria convencer o Nivaldo ou o Danilo a ir pra vara, pra 13ª vara. E aí isso ajudaria inclusive nas remoções, porque se o Danilo vai pra lá, é, a Bianca Arenhart quer ir pra uma vara criminal e ela tá numa previdenciária. Aí a Bianca iria pra criminal, o Danilo vai pra 13ª, a Bianca vai pro lugar dele pra criminal e o Julio iria pra previdenciária e todo mundo ficaria feliz”. Adiante, completa: “Vamo continuar atento e vamo pros próximos passos”. Ouça:

No segundo áudio divulgado nesta segunda-feira, fica claro que muitos agentes entraram em campo para que Moro não acabasse substituído por um juiz que discordava do método criminoso da Lava Jato. Para isso, convenceram Luiz Antonio Bonat, que tinha preferência, a aceitar o cargo na 13ª Vara, o que acabou acontecendo em março de 2019.

“Ontem, os juízes preocupados (…) conseguiram convencer o número um da lista, que é ótimo pra nós, assim, simbolicamente, aceitar o desafio de ir pra pra 13ª (Vara)”, conta Dallagnol no grupo de mensagens. Em seguida, ele deixa claro que trabalhava para que Bonat tivesse ajuda para continuar o verdadeiro projeto político da Lava Jato: “Agora, a estratégia é tentar buscar um apoio pro Bonat. Porque ele colocou ali o nome dele por amor à camisa. Então, a gente tem que conseguir um apoio. A ideia talvez seria ter de ter juízes assessores ali designados junto a ele. É isso que o Marcelo vai tentar e é isso que a gente precisa que o Welter e que o Januário advoguem lá no tribunal”. Ouça:

Segundo os advogados de Lula, os áudios são evidência de que, para os procuradores de Curitiba, “havia a necessidade de manter a fusão entre a força-tarefa e o órgão julgador para viabilizar o projeto de poder” da Lava Jato. Ainda segundo eles, “era fundamental para a força-tarefa que o novo juiz titular da 13ª Vara Federal Criminal desse continuidade aos ‘projetos’ que a ‘lava jato’ havia construído”.

De onde vêm as mensagens?

As mensagens de celular que a defesa do presidente Lula tem analisado foram apreendidas, segundo a Polícia Federal, na Operação Spoofing, de 23 de julho de 2019. Nela, foram presos hackers que invadiram o celular de autoridades, inclusive os do ex-juiz Sergio Moro e dos procuradores da Lava Jato.

A defesa de Lula obteve autorização do STF para analisar as mensagens relacionadas às ações contra o presidente. À medida em que descobrem novas provas do conluio ilegal da Lava Jato contra o presidente, os advogados enviam essas provas para o Supremo Tribunal Federal.


Referência

Operação Spoofing revela Aliança do Crime

As mensagens apreendidas pela Polícia Federal (PF) durante deflagração da Operação Spoofing, ocorrida em 23 de julho de 2019, com o objetivo de investigar as invasões às contas de Telegram de membros da força-tarefa do caso Lava Jato em Curitiba e do, à época da Operação, ministro Sérgio Moro, então juiz federal encarregado do caso, revelaram possível conluio com procuradores da República, cujos protagonistas usaram linguagem vulgar, cuja tipicidade é de facínoras e se encontram distante do que se espera dos mais bem remunerados servidores da República. O que levanta a hipótese de que uma espécie de ‘Aliança do Crime’ parece ter operado através da força-tarefa do Caso Lava Jato, no Ministério Público Federal (MPF), em conluio com juízes federais, policiais federais e membros da Receita Federal.

A tese de formação e operação do ‘Aliança do Crime’ ganhou verossimilhança processual durante julgamento da 2ª Turma do STF, ocorrido em 9 de março de 2021 (terça-feira), na qual foi analisada o Habeas Corpus (HC) interposta pela defesa do ex-presidente Lula, quando o presidente da Turma, ministro Gilmar Mendes, passou a ler e comentar a troca de mensagens entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol, à época, chefe da força-tarefa do Caso Lava Jato em Curitiba, com os demais membros do esquema, identificando hierarquia e comando persecutório partindo do juiz, que atuou em conluio com os procuradores da República.

As digressões analíticas do ministro Gilmar Mendes foram apoiadas pelo ministro Ricardo Lewandowski, que comprovou a autenticidade e veracidade das mensagens apreendidas durante a Operação Spoofing e demonstrou estupor diante do elevado índice de corrupção protagonizado pelos membros do que pode ser avaliado como uma sofisticada Organização Criminosa (ORCRIM), cujos efeitos nefastos afetaram os direitos civis do ex-presidente da República, com reflexos sobre a vida política e econômica do país.

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