Pastores brasileiros da Igreja Universal do Reino de Deus recebem ordem de expulsão de Angola; Crise revela disputa entre ramo brasileiro x angolano

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Mapa apresenta sedes da Igreja Universal do Reino de Deus em Luanda, capital de Angola.

Um grupo de sete pastores brasileiros da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em Angola foi notificado, na quinta-feira (08/04/2021) à tarde, pelos Serviços de Migração e Estrangeiros (SME), para abandonar o país no prazo de 15 dias. Religiosos confirmam e dizem se tratar de perseguição da Comissão de Reforma angolana.

A diretora de comunicação da ala brasileira da IURD em Angola, Ivone Teixeira, sublinha que, na terça-feira (6), um grupo de pastores brasileiros foi notificado para comparecer aos Serviços de Migração e Estrangeiros, mas já no local, os missionários foram surpreendidos com uma nota de ordem de expulsão do país.

Representante da IURD comenta

Segundo Ivone Teixeira, a ordem, que resulta no cumprimento da resposta de uma nota da Comissão de Reforma, na qual se solicita a deportação de todos os missionários brasileiros, abrange também os familiares dos respectivos pastores.

“Realmente, um grupo de pastores brasileiros e as respectivas famílias foram notificados na manhã desta quinta-feira. O grupo de pastores deslocou-se às instalações dos Serviços de Migração e Estrangeiros para responder à notificação do dia 6 de abril. Chegando lá, foram surpreendidos com notificações de abandono, emitidas pelos Serviços de Migração e Estrangeiros, contra os missionários brasileiros e as suas famílias”, relatou a responsável do gabinete de Comunicação e Imagem da gestão brasileira da IURD.

Ivone Teixeira afirma não ter dúvidas de que o mandado de expulsão demostra uma certa forma de “perseguição religiosa”, de “xenofobia” e de “discriminação a pastores brasileiros da Igreja Universal do Reino de Deus residentes em Angola”.

“Segundo eles, esse ato resulta no cumprimento da resposta de uma nota da Comissão de Reforma, na qual se solicita, de uma forma totalmente arbitrária, a deportação de todos os missionários ligados à Igreja Universal do Reino de Deus, na qual existem várias nacionalidades”, explicou a diretora de comunicação.

Golpe liderado pela ala angolana da IURD 

A porta-voz do ramo brasileiro da Universal no país, Ivone Teixeira, afirmou que a ordem de expulsão dos sete pastores faz parte de “um golpe” liderado “pela ala angolana da IURD [Igreja Universal do Reino de Deus], que está a ser sustentada por alguns organismos” estatais. Segundo ela, está ocorrendo “perseguição religiosa” e “xenofobia”.

Teixeira disse que estão ameaçados de expulsão, além de outros 52 pastores brasileiros, mais 28 religiosos de outras nacionalidades, incluindo moçambicanos, são-tomenses, argentinos e um espanhol. Alguns deles constituíram famílias com mulheres angolanas.

“O poder executivo, no caso o INAR [Instituto Nacional para Assuntos Religiosos, vinculado ao Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente] não pode validar um processo que ainda está no fórum judicial e que ainda não foi decidido”, afirmou Teixeira. “Há muita coisa a reverter a nosso favor, porque, primeiro, tomaram de assalto as igrejas, e estão a certificar um grupo de golpistas de uma forma totalmente ilegal”, disse.

A direção anterior da Igreja Universal em Angola, vinculada a Macedo, nega as acusações feitas pelo ramo angolano e moveu processos judiciais contra os dissidentes. Anteriormente, ela já havia acusado autoridades judiciais angolanas de terem feito apreensões ilegais e atentarem contra a liberdade religiosa.

A Igreja Universal afirma ter 8 milhões de fiéis no Brasil e está presente em mais de cem países ao redor do mundo, com templos em pelo menos 12 nações africanas.

Apoio do extremista governante do Brasil

Em 2020, o presidente Jair Bolsonaro, que tem em Macedo um aliado, pediu ao presidente angolano, João Lourenço, garantias de proteção aos pastores brasileiros e ao patrimônio da Universal.

O embaixador do Brasil em Angola, Rafael Vidal, afirmou à Rede Record que entrou em contato com autoridades do país para tratar do visto de permanência dos pastores brasileiros e pediu um tratamento “equilibrado” à questão.

Ramo brasileiro x ramo angolano: acusações de castração química e racismo

O conflito na Igreja Universal em Angola foi deflagrado em novembro de 2019, quando cerca de 300 bispos angolanos romperam com a liderança brasileira, a quem acusaram de práticas contrárias à “realidade de Angola e da África” e de sonegação fiscal.

Em junho de 2020, os dissidentes assumiram o comando de mais de 80 templos na capital, Luanda, e nas províncias vizinhas. Em seguida, uma ata foi publicada pelo grupo no Diário Oficial do país, “formalizando” a destituição da liderança brasileira.

O ramo angolano, liderado pelo bispo Valente Bezerra Luís, afirma que a decisão de romper com a representação brasileira se deveu a práticas como exigência de vasectomia, castração química, racismo, discriminação social e abuso de autoridade, além de evasão de divisas para o exterior.

A Procuradoria-Geral da República do país abriu um processo penal contra a Universal e, em agosto de 2020, determinou o fechamento de todos os templos da Igreja no país africano. O órgão afirmou ter encontrado “indícios suficientes da prática de crimes como associação criminosa, fraude fiscal, exportação ilícita de capitais, quebra de confiança e outros atos ilegais”.

Em fevereiro de 2021, a ala angolana elegeu o bispo Bezerra Luís para comandar a Universal no país, e em seguida os templos da Igreja foram reabertos. Uma comissão liderada pelo mesmo bispo também recomendou a deportação dos missionários brasileiros.

O ministro da Cultura, Turismo e Ambiente de Angola, Jomo Fortunato, afirmou em março que o Estado reconhecia a nova direção local da Universal como a responsável pela Igreja. A direção anterior, ligada a Macedo, recorreu à Justiça para cancelar a assembleia que elegeu Bezerra Luís, e o processo ainda não foi concluído.

Nova liderança 

Em fevereiro, o bispo Valente Bezerra Luís foi indicado, em assembleia geral ordinária, como novo líder da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola, culminando com a abertura dos templos que estavam fechados desde setembro de 2020, na sequência de investigações de supostos crimes cometidos por bispos e pastores da igreja.

O conflito na IURD tornou-se mais agudo em junho de 2020, quando um grupo de bispos e pastores da Comissão de Reforma tomou de “assalto” algumas igrejas, acusando os brasileiros de vários crimes contra religiosos angolanos.

O caso mereceu, em julho de 2020, uma reunião entre o ministro da Justiça e dos Direitos Humanos de Angola, Francisco Queiroz, e deputados, tendo o responsável ministerial admitindo a existência de pelo menos dois processos contra pastores da IURD.

Neste momento, o Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos (INAR), um órgão do Ministro da Cultura, Turismo e Ambiente de Angola, reconheceu a Comissão de Reforma liderada pelo bispo angolano Valente Bezerra Luís.

*Com informações de Francisco Paulo, da RFI em Luanda e do DW.

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Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).