Os estereótipo da eficiência da Alemanha

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As fábricas alemãs eram vistas como exemplos da eficiência alemã no século 19.
País mantém reputação de fazer as coisas de maneira eficiente apesar das evidências em contrário. Ao longo da história, atributo desempenhou um papel importante no país – embora nem sempre positivo. As fábricas alemãs eram vistas como exemplos da eficiência alemã no Século XIX.

Quando a consultora intercultural Christina Röttgers trabalha com seus alunos e clientes internacionais, ela gosta de quebrar o gelo com um jogo de associação e estereótipos. Questionados sobre como percebem a Alemanha, eles dizem que o país é eficiente e o descrevem como uma máquina, trabalhando sempre a todo vapor.

A eficiência alemã é um estereótipo internacional com poder de retenção. Ele está intimamente ligado a outros valores alemães, o que pode dificultar sua demarcação. No entanto, um olhar através da história revela as raízes concretas desta eficiência e mostra como ela – e a percepção da mesma – evoluiu ao longo do tempo.

Uma reputação centenária

Eficiência pode ser definida como o alcance dos resultados desejados com o mínimo desperdício de recursos possível. A reputação da Alemanha neste quesito remonta a séculos e suas raízes são duplas.

O historiador James Hawes, autor de The Shortest History of Germany (“A História Mais Curta da Alemanha”, em tradução livre), remete aos tempos medievais, quando o oeste da Renânia se tornou conhecido no exterior pela eficiência comercial graças à sua produção de produtos altamente especializados. “Os relojoeiros de Mainz ou os fabricantes de armaduras de Solingen eram famosos durante a Idade Média”, disse ele à DW.

A Prússia, Estado fortemente protestante do Leste da Alemanha, era considerada fonte de um tipo diferente de eficiência: administrativa e militar. Em 1750, sob o reinado de Frederico o Grande, a Prússia desenvolveu uma burocracia estatal eficiente e um forte poderio militar.

À medida que a Prússia expandia seu controle, por fim unificando o Império Alemão sob sua liderança em 1871, esses sistemas e práticas foram disseminados. Suas escolas públicas baseadas em pagamentos de impostos e seu exército profissionalizado também eram admirados no exterior por serem organizados e modernos, com algumas nações estrangeiras até mesmo buscando instituir modelos semelhantes em seus próprios territórios.

Ao longo do século 19, o Estado prussiano também cultivou, de forma estratégica, um catálogo de valores para funcionários públicos e militares que incluía pontualidade, frugalidade, senso de dever e diligência, entre outras coisas. Embora a eficiência não seja vista como um valor isolado, os valores adotados visavam apoiar o Estado de eficiência desejado.

Gravura em madeira Exercício dos Príncipes, feita por volta de 1890, mostra os filhos de Frederico Guilherme 3º: Frederico Guilherme 4º (futuro rei da Prússia), Guilherme 1º (futuro rei da Prússia e imperador alemão) e Frederico Carlos.

Esses valores passaram a ser conhecidos como “preussische Tugenden” (virtudes prussianas), embora, de acordo com o historiador Julius Schoeps, diretor fundador do Centro Moses Mendelssohn para Estudos Judaico-Europeus em Berlim, tenha demorado para eles se estabelecerem coletivamente entre a vasta maioria da população. “Essa discussão sobre as virtudes prussianas só veio mais tarde, no século 19; foi quando começou a se falar sobre elas”, disse ele à rádio pública alemã Deutschlandfunk em 2012.

Em meados do século 19, quando turistas britânicos passaram a visitar a Renânia, então controlada pela Prússia, eles levaram para casa uma imagem da riqueza e do pragmatismo prussianos. Segundo Hawes, os relatos dos viajantes costumavam ser sobre como tudo parecia funcionar: “Os trens – clássico – funcionam no horário. A alfandega é rápida. Os hotéis são limpos, a água é boa”, disse o historiador, resumindo as descrições.

As duas vertentes de capacidade econômica e Estado organizado mantiveram viva a imagem da eficiência alemã até o século 20. Na década de 1930, a ideia de “Ordnung” – uma mistura de regras e uma abordagem objetiva que pode teoricamente contribuir para a eficiência – era o cartão de visitas internacional da Alemanha. Em 1934, a revista Time chegou a colocar o então presidente Paul von Hindenburg em sua capa com as palavras “Ordnung muss sein” (É preciso ordem), enquanto o jornal New York Times já havia chamado a frase de “mundialmente famosa” em 1930.

Uma eficiência terrível

Em 1982, o político social-democrata Oskar Lafontaine disse que, com os valores prussianos propagados também pelo então chanceler da Alemanha Ocidental, Helmut Schmidt – senso de dever, previsibilidade, viabilidade e constância – uma pessoa “também pode dirigir um campo de concentração”.

De acordo com o historiador Schoeps, o partido nazista de fato cooptou certas virtudes ditas prussianas: “A confiança se tornou arrogância, a ordem se tornou pedantismo mesquinho e a execução de deveres se tornou pura desumanidade”, disse ele. No final das contas, as chamadas virtudes prussianas podem ter ajudado a manter o Estado totalitário sob o domínio nazista, assim como suas matanças sistemáticas.

Franklin Mixon, professor de economia especializado em organizações trabalhistas e industriais na Columbus State University, é autor de A Terrible Efficiency: Entrepreneurial Bureaucrats and the Nazi Holocaust (“Uma Eficiência Terrível: Burocratas Empresariais e o Holocausto Nazista”, em tradução livre). O livro mostra como o comportamento eficiente foi incentivado e recompensado dentro da grande burocracia nazista, muitas vezes de forma direta e informal – um contraste com a ideia passiva de “apenas cumprir ordens” que ainda domina fortemente as percepções de como foi conduzido o Holocausto.

“O que eles [os nazistas] estavam aproveitando era o incentivo, espremendo o esforço discricionário dos membros da burocracia, um esforço desmedido que não fazia parte da descrição do trabalho”, explicou Mixon.

‘Um valor muito alemão’

Imediatamente após o fim da Segunda Guerra Mundial, os alemães, como povo, foram vistos como possuidores de “uma espécie de desumanidade inacreditável”, conta Hawes.

Ainda assim, quando a economia decolou nas décadas de 50 e 60, no que é conhecido como “Wirtschaftswunder” ou “milagre econômico”, a Alemanha Ocidental se tornou admirada por sua indústria e seus produtos passaram a ser valorizados por sua qualidade. Esse boom de produção reforçou a reputação de eficiência alemã – indiscutivelmente ofuscando fatores como redução da dívida, reforma monetária e mão de obra barata que a sustentavam.

Hoje, depois de sobreviver à crise econômica dos anos pós-reunificação, a Alemanha continua sendo estimada por uma produção de ponta, e a eficiência continua sendo algo que é buscado e valorizado – na indústria, no governo, nos caixas dos supermercados e até mesmo na seleção de futebol.

“Há um valor muito alemão no centro disso tudo: eficiência”, disse Sigmar Gabriel, proeminente ex-membro do Partido Social Democrata da Alemanha (SPD) em uma entrevista à Fundação Hans Böckler em 2009 sobre uma economia mais ecológica.

Eficiência: um valor e um estereótipo

No entanto, embora a eficiência possa ser valorizada, ela está longe de ser dada como certa na Alemanha de hoje. Os exemplos de ineficiência abundam, desde o árduo trabalho de nove anos para construir o novo aeroporto de Berlim a uma burocracia que é notoriamente dependente do papel e de máquinas de fax e às recentes dificuldades enfrentadas pelo país na condução de testes de covid-19 e num lento processo de vacinação.

Andreas von Schumann, consultor de política sênior da GIZ, agência de desenvolvimento da Alemanha, não se surpreende que o estereótipo de eficiência tenha conseguido persistir internacionalmente em face de tais contraexemplos. Nos últimos 10 anos, ele ajudou a conduzir três estudos sobre a percepção da Alemanha ao redor do mundo e, portanto, sabe que os estereótipos têm uma vida longa – mais longa do que imaginamos: “Eles mudam muito, muito lentamente”, disse à DW.

Segundo ele, um estereótipo só desaparece quando os exemplos que o sustentam são tão poucos e distantes entre si que as pessoas já não conseguem mais ver em que ele se baseia: “Isso pode enfraquecer [um estereótipo] muito mais do que um contraexemplo.”

*Com informações do DW.

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