Livro ‘Olhares Comprometidos Fotografia e Identidades no MST’ retrata 20 anos de transformações, desafios e alegrias de jovens membros da entidade social

Na imagem de 1977, o acampamento do MST denominado Piranema.
Livro 'Olhares Comprometidos Fotografia e Identidades no MST' aborda, da infância à vida adulta, as transformações desafios e alegrias de membros da entidade social. Na imagem de 1977, o acampamento Piranema.

Sandra Bichi lembra quando teve uma máquina fotográfica pela primeira vez em suas mãos, em 1997. “Não tinha noção de como usar”, diz ela, recordando a iniciação nas oficinas de fotografia com crianças da comunidade de Piranema, no assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no município de Fundão/ES, idealizadas por Rodrigo Rossoni, atualmente professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, onde coordena o Laboratório de Fotografia (LabFoto).

Em 1997, Rossoni chegou pela primeira vez a Piranema, ainda como estudante de jornalismo da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Participava da produção de um documentário fotográfico sobre a infância excluída, a exploração do trabalho infantil e as condições de vida de crianças em acampamentos e assentamentos do MST, como parte do seu trabalho de conclusão de curso de graduação.

Nas oficinas, realizadas em 2003, tinha uma nova proposta: de fotografadas, as crianças se tornariam fotógrafas para registrar o seu cotidiano e experiências. Sandra aprendeu a utilizar a câmera e hoje tem foto de sua autoria publicada no livro ‘Olhares Comprometidos Fotografia e Identidades no MST’, resultado de um ciclo investigativo realizado por Rossoni ao longo de 20 anos junto à comunidade. Todo esse processo está narrado na obra lançada pela Edufba, que pode ser adquirida através do site: https://olharescomprometidos.com/ . No dia 17 do mês passado, uma live no YouTube marcou o pré-lançamento do livro, com a participação da professora Moema Rebouças, da UFES, e dos professores da Universidade de São Paulo, Atílio Avancini e Wagner Silva.

Rossoni tem promovido uma série de lives com os participantes das oficinas no MST através do instagram do projeto. Em live realizada no último dia 24 de março, Sandra Bichi lembrou das dificuldades que já enfrentou com a passagem de sua família por diferentes acampamentos, ordens de despejo e conflitos com as forças policiais. Chegou ainda criança a um primeiro acampamento, quando seus pais tomaram a decisão de entrar para o movimento de conquista do direito à terra.

“Lembro com clareza quando minha mãe jogou um lençol sobre o mato e ali ficamos até o amanhecer”. O dia seguinte foi para providenciar água e iniciar a construção das barracas de lona. Sandra recordou a falta de saneamento básico e de acesso a água potável. E apontou ainda os olhares de preconceito contra os integrantes do movimento, acusados de “baderneiros” por alguns.

Por outro lado, Sandra tem muitas memórias boas, como a proximidade e afetividade desenvolvida entre os moradores do assentamento e das brincadeiras das crianças. “Valeu a pena”, disse ela, que disse ter encontrado no MST “pessoas de caráter e que tinham sonhos”. A maioria daquelas pessoas saíram de seus lugares de origem na esperança de ter o seu terreno e não precisar pagar aluguel, conta ela. Seu pai era uma das lideranças e exerceu diversas funções no movimento. “Era uma coisa organizada”, afirma, referindo-se ao acampamento que passou das barracas de lona para casas de barro e de alvenaria ao longo dessas duas décadas. “A união era algo que havia entre nós”, acrescenta.

Em dezembro  de 1997, as 65 famílias que sobreviviam acampadas às margens da rodovia BR-101, no norte do Espírito Santo, tomaram posse definitiva da terra, após um decreto presidencial ter desapropriado a Fazenda Piranema. Com o lema: “ocupar,  resistir  e  produzir”, nascia,  assim, o Assentamento Piranema.

Sobre a experiência inicial de fotografar as crianças ainda no acampamento, Rossoni considera que “a reportagem permitiu-nos colher as histórias das crianças, as suas formas de organização, seus desejos e suas expectativas em relação à conquista da terra. Documentei a falta de estrutura educacional e as precárias condições sanitárias em meio àquelas lonas pretas”, como afirma na apresentação do livro.

O material fotográfico deu origem a uma exposição que circulou por cidades do Espírito Santo e da Bahia em 1998. Mas, conforme revela o professor, a experiência das mostras suscitou um conjunto de questionamentos e um misto de desencanto, frustração e impotência. Decidiu que não queria mais documentar mazelas da comunidade, mas, ao contrário, resgatar as  multiplicidades de acontecimentos que pulsavam naquele espaço-tempo. Assim, sentiu a necessidade de retornar ao assentamento para desenvolver um outro trabalho com aquelas mesmas crianças. “Precisava voltar para fazer algo diferente, que respeitasse a dignidade delas e que, de fato, contribuísse de alguma forma para o seu desenvolvimento educacional”.

Rossoni conta que, além de simplesmente registrar o cotidiano das crianças, sua relação com a comunidade se aprofundou, com a realização de práticas educativas, oficinas de fotografia, exposições fotográficas e projetos de pesquisa. Foram desenvolvidas oficinas para o compartilhamento de diversas técnicas para a produção fotográfica com máquinas analógicas e máquinas construídas com latinhas de leite em pó e outros materiais de maneira artesanal, a fotografia com pinhole [câmera artesanal que pode ser feita com uma caixa qualquer], além da revelação do filme fotográfico e ampliação da imagem.

Participaram das atividades 34 meninos e meninas, as mesmas crianças que haviam sido fotografadas no primeiro momento, que passaram a compartilhar os seus próprios olhares e impressões, resultando em 1.188 imagens, que traduzem um cotidiano de lutas e conquistas e contribuem para preservar a memória da comunidade. Esse material foi base de análise para a pesquisa de mestrado de Rossoni sobre os modos de construção de identidade de crianças do MST, e também para a realização de novas exposições fotográficas, no ano de 2005.

Aquelas crianças já haviam se tornado jovens adultos em 2017. Foi quando o professor Rossoni, em seu projeto de pós-doutorado na Universidade de São Paulo, passou a investigar a relação dos jovens adultos com as novas tecnologias digitais. Piranema vivia uma nova realidade tecnológica, e os smartphones conectados às redes 4G permitiam outras formas de linguagens e identidades. O trabalho reflete sobre as formas atuais de produção, considerando os sistemas de armazenamento, circulação e exibição das fotografias, bem como o conteúdo e o destino das imagens. “Os aparelhos eram extensão dos corpos, uma simbiose que possibilitou aos jovens da zona rural o poder de ver, de ser visto, de encenar, de dialogar, de inventar e de se reinventar. As selfies são as grandes protagonistas das suas produções”, destaca Rossoni.

Outra participante das oficinas, Ariane Rodrigues, que esteve presente ao evento virtual do dia 24 de março, afirma que o livro e as exposições permitem conhecer melhor a história de Piranema e seus moradores, e fala de milhares de pessoas no mundo que acampam em busca de conquistar a sua própria terra. Através das fotografias, é possível acompanhar as diferentes fases de estruturação do acampamento, o reconhecimento do assentamento, a divisão dos terrenos e a preparação da terra para a agricultura.

“A gente teve muitas dificuldades, mas também teve muitos momentos felizes”, afirma Ariane, que lembrou da liberdade que as crianças tinham na zona rural e dos encontros com as amigas na escola local. Sobre a participação nas oficinas de fotografias, diz: “Era novidade para a gente. Até então, a gente nunca tinha usado máquinas (…) A gente guardava [as câmeras e fotos] com muito cuidado”. Para ela e suas amigas, tornou-se uma diversão fotografar o cotidiano dos moradores e produzir imagens que mais tarde abririam portas. As novas imagens levaram a comunidade a expor sua produção fotográfica no município de Fundão e na galeria de arte da Ufes.

“Fotografávamos o que achávamos mais importante na nossa vida”, disse ela, que tem sua foto publicada no livro com uma cama retratada no centro do quarto. Conforme explicou, representava uma fase de vida melhor, com mais conforto para dormir. Hoje, Ariane agradece por ter a sua terra, de onde saem muitos frutos e todas as suas conquistas. E se alegra de poder dar uma alimentação adequada aos seus filhos, após ter enfrentado a falta de alimentos na infância.

Também participou da live Kaíque Santos, que falou sobre as técnicas de revelação que aprendeu nas oficinas e as fotos que o levaram para diferentes lugares. “Foi a primeira vez que saí do acampamento para Vitória. Foi magnífico”, afirma, recordando a viagem para expor na Ufes, quando as crianças do MST também puderam ir ao cinema e ao planetário, muitas delas pela primeira vez. A convivência com os companheiros e as professoras na escola do assentamento, em Piranema, está entre as suas melhores memórias.

No entanto, estudando na escola municipal de Fundão, Kaíque lembra dos preconceitos que enfrentou por ser uma criança sem terra. De acordo com ele, parte da população pensava que os integrantes do movimento não tinham direito àquela terra, desconsiderando o processo de desapropriação feito pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Essa relação foi melhorando aos poucos e, atualmente, o time do Assentamento Piranema disputa o campeonato local, tendo inclusive conquistado o título da competição, segundo Kaíque, que brinca que agora os Sem-Terra têm “título e terra”. “É muito bom chegar onde chegamos”, analisa Kaíque, que destacou o exemplo de seu pai, falecido no ano passado, que foi uma das lideranças do movimento e permanece como grande inspiração.

Tanto Kaíque quanto os demais participantes do evento virtual ressaltaram o papel fundamental da escola na sua formação e acreditam que as escolas do campo devem ser capazes de preservar as origens e conhecimentos sobre o trabalho com a terra e a produção de alimentos saudáveis, com a qualificação dos professores para atender a demandas específicas. “Dalí podem sair agricultores, agrônomos, técnicos agrícolas, etc”, destacou Sandra, que hoje é mãe de um casal de filhos e deseja “que a educação melhore como um todo no Brasil”. Ela costuma contar tudo o que viveu para as suas crianças, por entender que é importante valorizar a sua história de luta e transmitir os ensinamentos. “Um bom lutador não foge à luta”, finalizou.

Em uma abordagem comparativa entre as fotografias dos três momentos distintos, Rossoni afirma que “de fotografadas por um olhar estrangeiro, em 1997, passando a sujeitos da produção identitária do MST, em 2003, a um olhar para si mesmas, sob suas éticas e estéticas, em 2017, a pesquisa suscitou reflexões sobre estética fotográfica, formas de construção de identidades e gestão de imagem.”

“Em 2003, as imagens são totalmente antagônicas às de 1997. São coloridas, têm alegria, afeto, produção agrícola e forte referência às perspectivas identitárias da terra e do MST. A atribuição de sentidos a esses elementos ficou evidente por sua recorrência e prevalência no conteúdo da produção fotográfica”, afirma o professor, observando que os mesmos sujeitos, em três abordagens, produziram imagens de si tão distintas umas das outras.

“Reencontrar crianças que conheci em 1997 e que hoje são adultos, pais e mães de novas crianças, completou um ciclo investigativo que é imagético. A terra, de fato, mudou suas vidas. Deu-lhes casa, trabalho, escola, segurança e ampliou sua dignidade. Mas a fotografia digital, entretanto, possibilitou-lhes uma nova experiência. [Assumir] o protagonismo da sua produção, edição e compartilhamento garantiu-lhes algo que, até então, parecia óbvio para qualquer cidadão brasileiro, menos para integrantes de movimentos sociais e moradores de espaços populares: o domínio e a gestão da sua própria imagem”, afirma Rossoni.

“Ao se apropriarem da sua própria imagem e circularem nos amplos espaços de sentidos contemporâneos, não estão expostos em jornais como notícia policial, nem em exposições de galerias como exóticos ou oprimidos. Ao contrário, circulam pelas redes com seus afetos, intimidades, fantasias e práticas sociais. Dividem espaço com as demais imagens da sociedade, em que não é mais possível separar o sujeito do não-sujeito, o humano do não-humano, o cidadão do criminoso, independente de etnia, classe, credo ou gênero”, avalia o autor sobre os recursos das novas tecnologias digitais.

“Por conta dessas possibilidades, eles deixam de ser marginalizados? Esta inclusão tecnológica basta para eles?”, questiona Rossoni na parte final do livro. E ele mesmo responde: ” É óbvio que não. A solução para estas questões parece ainda distante. Há um longo caminho a ser percorrido para que as injustiças sociais sejam equacionadas, as desigualdades diminuídas, a concentração da renda melhor equilibrada e a cidadania seja, de fato, uma conquista concreta”.

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