EUA: Ex-policial Derek Chauvin é condenado por morte de George Floyd; Foram ouvidos depoimentos de 45 testemunhas

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Morte de George Floyd, afro-americano de 46 anos, por policial branco em Mineápolis se tornou marco na luta contra violência da polícia e racismo nos Estados Unidos. Derek Chauvin é culpado pelas três acusações que pesavam contra ele.
Morte de George Floyd, afro-americano de 46 anos, por policial branco em Mineápolis se tornou marco na luta contra violência da polícia e racismo nos Estados Unidos. Derek Chauvin é culpado pelas três acusações que pesavam contra ele.

Derek Chauvin, o policial acusado pelo homicídio de George Floyd, foi considerado culpado nesta terça-feira (20/04/2021) das três acusações que pesavam contra ele, após o julgamento considerado o mais importante envolvendo um caso de violência policial nos Estados Unidos nas últimas décadas.

A morte de Floyd, asfixiado enquanto era imobilizado pelo policial, desencadeou uma série de protestos em todo o país e se tornou um símbolo da luta contra o racismo após décadas de excessos cometidos pela polícia contra as minorias.

Durante o julgamento, os 12 jurados ouviram depoimentos de 45 testemunhas, incluindo pessoas que estavam no local quando Chauvin deteve Floyd em uma rua de Mineápolis, de policiais, especialistas médicos, além de horas de evidências em vídeo.

Durante o julgamento, os parentes de Floyd, muitos dos quais vieram do Texas para acompanhar o processo, se revezavam no único assento reservado para eles no tribunal. Antes da decisão do júri, o presidente dos EUA, Joe Biden, conversou com membros da família por telefone. “Rezo para que o veredicto seja o correto”, disse o presidente.

Após dois dias de deliberações, os jurados decidiram que Chauvin era culpado pelas três acusações de homicídio não intencional.

Logo após o anúncio, centenas de pessoas que estavam próximas ao tribunal comemoraram o veredito. Multidões saíram às ruas da cidade para celebrar a condenação.

No julgamento, com o tribunal em Mineápolis cercado por barricadas e soldados da Guarda Nacional, Chauvin se declarou inocente das acusações de homicídio culposo em segundo grau, homicídio em terceiro grau e assassinato em segundo grau.

As três acusações requerem que os jurados considerem as ações de Chauvin como “fator causal substancial” da morte de Floyd, mas nenhuma delas implica que ele teria agido com a intenção de matá-lo.

“Não consigo respirar”

O júri era composto por quatro mulheres brancas, uma negra e duas multirraciais, além de dois homens brancos e três negros, de acordo com registro do tribunal. Suas identidades serão mantidas em sigilo.

Nas imagens de vídeo registradas por testemunhas, Chauvin aparece forçando seu joelho sobre o pescoço de Floyd, de 46 anos, por mais de nove minutos, enquanto ele estava algemado e deitado de bruços na rua.

“Não consigo respirar”, repetiu Floyd diversas vezes. A frase se tornou um símbolo de resistência contra a violência policial em todo o país.Ele havia sido detido por suspeita de tentar comprar cigarros em um mercado com uma nota falsa de 20 dólares, em maio do ano passado.

A defesa afirma que Chauvin teria agido como “um oficial de polícia sensato”. Os advogados tentaram gerar dúvidas quanto às causas da morte de Floyd, ao afirmarem que suas condições no momento da detenção teriam sido agravadas por problemas cardíacos ou até pela fumaça do escapamento da viatura policial, da qual estava próximo.

Mas, um médico pneumologista afirmou durante o julgamento que Floyd morreu sufocado devido aos baixos níveis de oxigênio no sangue. O especialista rejeitou enfaticamente a teoria da defesa de Chauvin de que o uso de drogas e problemas de saúde de Floyd teriam sido a causa de sua morte.

“Uma pessoa saudável submetida ao que Floyd foi submetido teria morrido”, disse o médico, que é testemunha de acusação e analisou os registros do caso.

Ele disse ao júri que a respiração de Floyd foi severamente enfraquecida pela posição em que estava e com Chauvin e outros policiais de Mineápolis pressionando seu pescoço e costas.

Chauvin foi afastado da força policial junto com os outros três agentes envolvidos na ação que resultou na morte de Floyd, em 25 de maio de 2020, quando detiveram o afro-americano por supostamente tentar fazer compras numa loja com uma nota falsa de 20 dólares.

Os outros policiais envolvidos – Tou Thao, Thomas Lane e J. Alexander Kueng – também enfrentam acusações em conexão com a morte de Floyd e serão julgados separadamente no fim de 2021.

Mineápolis viveu um clima de forte tensão nos dias que antecederam o anúncio do veredito. Muitas lojas e edifícios no centro da cidade cobriram suas fachadas com tapumes, temendo a repetição de violentos protestos de rua ocorridos no ano passado após a morte de Floyd, quando ocorreram vários confrontos entre manifestantes e a tropa de choque da polícia.

Na semana passada, novos protestos ocorreram em Brooklyn Center, um subúrbio de Mineápolis, após uma policial matar a tiros o jovem negro Daunte Wright, durante uma fiscalização de trânsito. Ela teria confundido seu taser – arma de descarga elétrica – com sua arma de fogo, e atirou no jovem enquanto ele tentava fugir dos policiais.

Reações

Após o veredito, o presidente Biden telefonou novamente para a família de Floyd. Segundo afirmou, ele e a vice-presidente Kamala Harris estão “aliviados” com a conclusão do julgamento.

Um advogado da família divulgou um vídeo com o telefonema. Biden disse que “nada fará com que tudo melhore, mas, ao menos agora, houve justiça”. “Este é um dia de justiça”, reiterou Harris à família Floyd.

Mais tarde, em pronunciamento na Casa Branca, Biden disse que o veredito é um avanço rumo a uma melhoria nos direitos civis no país. Ele elogiou o papel dos jurados e disse que o veredito deixa claro que ninguém está acima da lei.

“É preciso confrontar diretamente o racismo sistêmico e as desigualdades”, afirmou, prometendo mais ações por parte do governo federal. “Este pode ser um momento de mudanças significativas.”

O ex-presidente Barack Obama comemorou a condenação de Chauvin, mas disse que este foi apenas um passo na luta por justiça nos EUA. Em nota, ele afirmou a verdadeira justiça virá quando a população entender que os “negros americanos são tratados de modo diferente todos os dias”, e que milhões ainda vivem com medo da violência policial.

Obama disse que o país precisa seguir o caminho aberto pelo veredito e adotar medidas concretas para diminuir a desigualdade no sistema criminal americano, além de redobrar os esforços para expandir as oportunidades econômicas para todas as comunidades marginalizadas.

“A verdadeira justiça exige ainda muito mais. Eu e [a ex-primeira-dama] Michelle enviamos nossas preces para a família Floyd, e permanecemos ao lado de todos aqueles que estão comprometidos em garantir a cada americano toda a extensão da justiça, a qual foi recusada a George e a tantos outros”, disse o ex-presidente.

A líder da Câmara dos Representantes do Congresso americano, Nancy Pelosi, agradeceu Floyd por “sacrificar sua vida pela justiça”. O líder da maioria democrata no Senado, Chuck Schumer, disse que os parlamentares devem continuar a trabalhar em leis que possam “trazer mudanças significativas” nos departamentos de polícia do país.

A União das Liberdades Civis (ACLU), destacou que esta foi a primeira vez que um policial foi condenado pela morte de um afro-americano no estado de Minnesota. A entidade, contudo, alertou em comunicado que “o sistema que permitiu que George fosse morto e que o arrancou de sua família e da comunidade que tanto o amava continua completamente intacto”.

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, também exaltou a decisão dos jurados. “Fiquei chocado com a morte de George Floyd e felicito esse veredito. Meus pensamentos estão com a família de George Floyd e seus amigos”, afirmou.

Principais pontos do julgamento

1. Testemunhos carregados de lágrimas e arrependimentos

Alguns dos testemunhos mais impactantes ocorreram nos primeiros dias de julgamento.

Darnella, que tinha 17 anos no dia da morte de Floyd, é autora do vídeo que viralizou em todo o mundo mostrando a violenta detenção. Ela disse ao júri que depois, houve muitas noites em que não conseguiu dormir, pois ficou “pedindo desculpas a George Floyd por não ter feito mais, por não ter intervindo fisicamente e por não ter salvado sua vida.”

“Quando vejo George Floyd, vejo meu pai. Vejo meus irmãos, primos e tios. Porque eles são todos negros”, disse a jovem.

Charles McMillian, 61, também se emocionou ao dar seu testemunho — ele foi um dos primeiros a chegar à cena em maio de 2020, tentando convencer Floyd a entrar na viatura. A polícia foi acionada depois que Floyd usou uma nota falsa em uma loja de conveniência.

McMillian caiu em prantos ao assistir às imagens da detenção, dizendo que se sentiu “desamparado” à medida que os eventos aconteceram naquele dia. McMillian acrescentou que confrontou Chauvin depois que Floyd foi levado em uma ambulância porque “o que assistiu estava errado”.

A defesa do policial argumentou que a presença de outras pessoas influenciou as ações de Chauvin. O tribunal ouviu de um policial de Minneapolis, Peter Chang, que a multidão estava “muito agressiva com os policiais”, enquanto Nicole McKenzie, que treina a polícia local para emergências de saúde, afirmou que a presença de transeuntes pode dificultar que policiais percebam sinais preocupantes em pessoas detidas.

2. Menções à dependência química

Outro forte depoimento foi o de Courteney Ross, namorada de Floyd por três anos.

Ela lembrou do primeiro encontro deles, em um abrigo para pessoas sem teto, onde Floyd trabalhava como segurança. A namorada também destacou o quando ele ficou devastado pela morte da mãe em 2018.

Ross também disse ao tribunal que ela e o namorado sofriam de dores crônicas, o que levou a uma constante luta contra a dependências de opioides.

“Ficamos viciados e tentamos muito parar”, contou.

Um dos argumentos da defesa é que Floyd morreu principalmente pelas consequências do uso de opioides e de metanfetamina, detectados no corpo dele após o óbito, além de problemas cardíacos.

O advogado de defesa, Eric Nelson, afirmou que o histórico de “uso de substâncias controladas por Floyd é significativo”.

“Não é um problema de caráter — milhões de americanos sofrem com a crise dos opióides”, disse Nelson.

Mas, acrescentou o advogado, a dependência deveria colocar em questão o fator toxicológico de sua morte.

Promotores, por outro lado, argumentaram que foi a falta de oxigênio — e não o uso de drogas ou doenças cardíacas — a principal causa da morte de Floyd.

3. As falas dos médicos

A causa da morte de Floyd foi uma questão central para o julgamento, no qual a acusação sustentou que ele morreu de asfixia, enquanto a defesa apontou para o uso de drogas e problemas de saúde em geral.

Martin Tobin, médico especializado nos pulmões, usou imagens de vídeo para explicar o que aconteceu com a respiração de Floyd durante os nove minutos e meio em que ele ficou deitado sob o joelho de Chauvin.

Mesmo “uma pessoa saudável, submetida ao que o Sr. Floyd foi submetido, teria morrido”, disse o médico.

Uma testemunha chave para a defesa, o patologista forense David Fowler, disse que a causa da morte deveria ser classificada como “indeterminada” em vez de homicídio, porque havia “muitos fatores diferentes” em jogo.

Complicadores incluem o uso de drogas por Floyd e a possível intoxicação por monóxido de carbono do escapamento da viatura, acrescentou Fowler.

No entanto, durante o interrogatório, o médico concordou que Floyd deveria ter recebido assistência médica imediata quando teve uma parada cardíaca, pois ainda havia chances de salvar sua vida.

4. Avaliações técnicas do uso da força

Outra questão importante no julgamento foi se Derek Chauvin violou normas da polícia ao se ajoelhar no pescoço de George Floyd por nove minutos e meio.

Chefe da polícia de Minneapolis, Medaria Arradondo disse ao tribunal que o agente deveria ter parado de aplicar “aquele nível de força” no momento em que Floyd parou de apresentar resistência.

“Não faz parte do nosso treinamento e certamente não faz parte da nossa ética ou valores” manter tanta força, disse ele, responsável pela demissão de Chauvin no dia seguinte ao ocorrido.

Já Barry Brodd, testemunha de defesa e especialista em segurança, afirmou que as ações de Chauvin foram “justificadas” e que o policial agiu “com razoabilidade objetiva” por conta da “ameaça iminente” que Floyd representou ao resistir à prisão.

No entanto, ele admitiu os perigos da asfixia posicional — quando uma pessoa é impossibilitada de respirar em uma determinada posição — são bem conhecidos por policiais.

5. Acusado escolheu ficar em silêncio

No tribunal, Derek Chauvin confirmou ao juiz que não testemunharia.

“Eu invocarei o privilégio da Quinta Emenda hoje”, disse ele, referindo-se ao direito constitucional de permanecer em silêncio para evitar a autoincriminação.

Chauvin se declarou inocente nas três acusações.

Ele foi demitido, junto com outros três policiais que o acompanhavam na detenção de Floyd, no dia seguinte à morte. J. Alexander Kueng, Thomas Lane e Tou Thao também foram acusados judicialmente, por auxílio e cumplicidade no homicídio, e devem ser julgados em agosto.

*Com informações do DW e da BBC Brasil.

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