Capítulo XXIX do Caso Faroeste: O alinhamento de ações das desembargadoras do TJBA com os interesses do Grupo Bom Jesus Agropecuária, através dos enunciados do CNJ e de Osmar Serraglio

Nas APns nº 953 e 986 aparece na condição de réu o criminoso Júlio César, ao lado dos representantes do Grupo Bom Jesus Agropecuária e das desembargadoras delatas pelo mafioso, que, em tese, serviram aos propósitos ilícitos da empresa do agronegócio.
Nas APns nº 953 e 986 aparece na condição de réu o criminoso Júlio César, ao lado dos representantes do Grupo Bom Jesus Agropecuária e das desembargadoras delatas pelo mafioso, que, em tese, serviram aos propósitos ilícitos da empresa do agronegócio.

Ao questionar sobre ‘o que é a verdade’, Marilena Chaui (2000, p. 226), na obra ‘Convite à Filosofia’, explica que ela “é a conformidade entre nosso pensamento e nosso juízo e as coisas pensadas ou formuladas”. Então, a filósofa elabora a segunda pergunta: “Qual a condição para o conhecimento verdadeiro?” e apresenta a seguinte resposta:

— A evidência, isto é, a visão intelectual da essência de um ser. Para formular um juízo verdadeiro precisamos, portanto, primeiro conhecer a essência, e a conhecemos ou por intuição, ou por dedução, ou por indução.

— A verdade exige que nos libertemos das aparências das coisas; exige, portanto, que nos libertemos das opiniões estabelecidas e das ilusões de nossos órgãos dos sentidos. Em outras palavras, a verdade sendo o conhecimento da essência real e profunda dos seres é sempre universal e necessária, enquanto as opiniões variam de lugar para lugar, de época para época, de sociedade para sociedade, de pessoa para pessoa. Essa variabilidade e inconstância das opiniões provam que a essência dos seres não está conhecida e, por isso, se nos mantivermos no plano das opiniões, nunca alcançaremos a verdade.

A série de reportagens sobre o  ‘Caso Faroestes: a luta de José Valter pelas terras da antiga Fazenda São José’, produzida com base em relatos de fontes, documentos, elementos processuais probatórios, análises jurídicas e correlacionais, baseada no método do materialismo histórico e dialético é publicada com exclusividade pelo Jornal Grande Bahia (JGB) e narra fatos com precisão de datas, locais e personagens envolvidos, formando conjunto de vidências que permitem conclusões objetivas sobre o contexto dos acontecimentos e a implicação das pessoas nos fatos da narrativa.

Em síntese, as reportagens do JGB apresentam o contexto dos acontecimentos sobre as quatro décadas de disputa da Ação de Reintegração de Posse (Processo nº 0000157-61.1990.8.05.0081), que tiveram início no ano de 1981, com o processo interposto no Poder Judiciário da Bahia (PJBA) pelo empresário de Barreiras José Valter Dias, contra o esquema de fraudes em grilagem de terras liderados pelos Okamotos que, posteriormente, foi acrescido e liderado pelo Grupo Bom Jesus Agropecuária e outros, cuja conclusão final é sempre a mesma, qual seja, a de que as matrículas cartoriais nº 726 e 727 são resultantes de fraude.

O entendimento é baseado em levantamento técnico realizado por periciais judiciais que foram relatadas na Portaria nº 105/2015, publicada em 22 de julho de 2015, pela desembargadora Vilma Costa Veiga, que reconheceu os direitos de posse e propriedade de José Valter Dias e a validade da matrícula nº 1037, em decisão que reestabelece a cadeia sucessória adquirida dos legítimos herdeiros de Suzano Ribeiro de Souza, sobre os 360 mil hectares de terras da antiga Fazenda São José, imóvel rural situado no município de Formosa do Rio Preto, oeste da Bahia.

O Grupo Bom Jesus Agropecuária e a associação com o mafioso Júlio César

Conforme narrativa sobre o caso, com a iminência da perda das terras da antiga Fazenda São José, em decorrência das fraudes nas quais se constituem as matrículas nº 726 e 727, usadas pelos Okamotos, Grupo Bom Jesus Agropecuária e outros, uma nova frente de interferência passou a ocorrer no âmbito no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com os auspícios da corrupta Bom Jesus Agropecuária, que contou com os préstimos da assessoria jurídica do mafioso Júlio César Cavalcanti Ferreira (OAB Bahia nº 32.881), advogado especializado em negociatas envolvendo venda de sentenças e fraudes documentais.

Assessorada por Júlio César, líder de uma das mais poderosas e influentes Organizações Criminosas da Bahia, a Bom Jesus Agropecuária tomou conhecimento sobre como operava o esquema de propina no Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA) e passou a comprar e pagar os préstimos da desembargadora Sandra Inês Moraes Rusciolelli Azevedo, magistrada que foi presa pela Polícia Federal (PF) em 24 de março de 2020, durante deflagração da 5ª fase da Operação Faroeste.

Na referida Operação, autorizada pelo ministro do STJ Og Fernandes no Pedido de Busca e Apreensão Criminal Nº 10 – DF (2019/0098024-2), foram presos, também, o filho da desembargadora, advogado Vasco Rusciolelli Azevedo, além de Vanderlei Chilante, advogado da empresa agropastoril.

A investigação da PF, conduzida com base em requerimento da Procuradora-geral da República (PGR), resultou no indiciamento do produtor rural Nelson José Vígolo, diretor do Grupo Bom Jesus Agropecuária e do mafioso assessor do grupo Júlio César.

A denúncia formulada pela PGR foi aceita pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ), sob a relatoria do ministro Og Fernandes e os investigados foram transformados em réus da Ação Penal nº 953/DF.

A desembargadora Sandra Inês Rusciolelli foi afastada do TJBA. Ela e o filho conseguiram mudança no local da Prisão Preventiva e estão, atualmente, nos próprios apartamentos situados no luxuoso condomínio Le parc Residential Resort, em Salvador, usando tornozeleira eletrônica, ao tempo em que aguardam homologação da delação premiada apresentada ao Ministério Público Federal (MPF), com a finalidade de entregar os comparsas da rede de crimes.

Em 23 de março de 2021, ao pugnar pela manutenção das medidas restritivas de direito da desembargadora Sandra Inês Rusciolelli, o ministro Og Fernandes acervou:

— São crimes ligados ao exercício funcional, praticados no desempenho do cargo e com abuso dele, crimes esses que trouxeram efeito deletério à reputação, à imagem e à credibilidade do Poder Judiciário da Bahia.

— É inaceitável que a magistrada investigada, aparentemente descambando para a ilegalidade, valha-se das relevantes funções que o Estado lhe confiou para enriquecer ilicitamente, em prejuízo da Justiça que deveria fazer prevalecer diuturnamente, afastando-se do dever de reparar ilegalidades e de restaurar o império da Lei.

Destaca-se que as investigações da PGR e da PF durante a 5ª Fase da Operação Faroeste desvelaram um segundo núcleo criminoso, que operava no mesmo conflito fundiário e que fazia oposição ao núcleo liderado, em tese, por Adailton Maturino dos Santos, preso em 19 de novembro de 2019, durante a 1ª fase da Operação Faroeste.

O Grupo Agropastoril, a conexão com um parlamentar, as investidas no CNJ e o apoio de uma conselheira 

Antes destes episódios, com o apoio do, à época, deputado federal Osmar Serraglio (MDB-RS), advogado e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública do Governo Temer, o conflito sobre as terras da antiga Fazenda São José foi levado à debate, através de audiência pública ocorrida em 4 de dezembro de 2018 (terça-feira), na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados.

É através deste expediente que os pleitos da Bom Jesus Agropecuária ganham força argumentativa para convalidar a tese de interferência administrativa do CNJ em processo judicial que tramita há 40 anos no PJBA, sobre o conflito fundiário estabelecido no oeste da Bahia.

Conforme revelado no ‘Capítulo XXVIII do Caso Faroeste’, os conselheiros do CNJ e dois corregedores nacionais de Justiça tinham pugnado por não aceitar os pedidos do Grupo Bom Jesus Agropecuária para decretação de interferência administrativa em processo judicial.

Em 1º de março de 2019, através de julgamento do voto-vista da conselheira Maria Tereza Uille Gomes, a tese da empresa é aceita e o CNJ convalida, provisoriamente, as fraudulentas matrículas cartoriais nº 726 e 727, permitindo que os Okamotos, Grupo Bom Jesus Agropecuária e outros continuem explorando as terras da antiga Fazenda São José.

Observa-se que nas eleições de 2018, Osmar Serraglio contou com apoio financeiro da Bom Jesus Agropecuária, mas não obteve êxito eleitoral, passando a advogar para grupos econômicos com terras em Formosa do Rio Preto.

Observa-se, também, que com a proximidade do fim do mandato da conselheira e ex- procuradora-geral de Justiça do Paraná Maria Uille, uma série de iniciativas da mesma tem ocorrido para garantir a interferência administrativa do CNJ, no sentido de convalidar evidente fraude em benefício dos Okamotos, Grupo Bom Jesus Agropecuária e outros, em processo judicial que tramita há 40 anos no Poder Judiciário Estadual da Bahia, conforme narrado pelo JGB nos seguintes episódios:

Capítulo XXIX do Caso Faroeste: Como o voto-vista da conselheira Maria Uille é utilizado por desembargadoras do TJBA, em benefício dos interesses do Grupo Bom Jesus Agropecuária

A reportagem revela como o teratológico voto-vista da conselheira Maria Uille é utilizado por desembargadoras do TJBA para atender os ilegítimos pleitos dos Okamotos, Grupo Bom Jesus Agropecuária e outros sobre as terras da antiga Fazenda São José,

Observa-se que a sequência dos acontecimentos evidencia uma lógica do Sistema de Corrupção Faroeste que faz remissão ao início do caso, qual seja, manter a posse ilegítima sobre terras agrícolas que possuem elevada capacidade produtiva, utilizando para este fim a violência física e procedimentos judiciais questionáveis.

Neste contexto, ao ser preso nas primeiras fases da Operação Faroeste, o mafioso Júlio César assessorava a corrupta Bom Jesus Agropecuária. Ele era e talvez permaneça como líder absoluto deste vasto império do crime que abalou os fundamentos do Sistema Estadual de Justiça da Bahia. Com o tempo, antes de ser preso, o ardiloso meliante foi acumulando gravações e documentos da relação estabelecida com os comparsas e ofereceu esses elementos de prova para que a delação fosse homologada, ao entregar os possíveis associados da Organização Criminosa (ORCRIM) que dirigia.

Neste sentido, foram homologados 30 anexos, o que enseja afirmar que serão conduzidas novas investigações pela PGR e PF e que elas tendem a perdurar por um longo período, em decorrência da extensão da rede de criminosos envolvidos com o mafioso.

Não obstante, fontes do JGB informaram que os processos nos quais Júlio César atuou de forma criminosa ultrapassam o número de 100 e que apenas uma fração ínfima dos recursos financeiros arrecadados com as práticas deletérias é que foram entregues à Justiça, através do Acordo de Delação.

Os elogios do deputado Osmar Serraglio à desembargadora TJBA Sandra Inês Rusciolelli, por decisão favorável aos interesses da Bom Jesus Agropecuária

Em 29 de novembro de novembro de 2018, a Organização Criminosa liderada pelo mafioso Júlio César consegue da desembargadora Sandra Inês Rusciolelli sentença favorável aos interesses dos Okamotos, Bom Jesus Agropecuária e outros, através de Decisão Monocrática, na classe Agravo de Instrumento, do processo nº 0028046-91.2017.8.05.0000.

Em 11 de dezembro de 2018, como efeito do resultado das ações criminosas, coube ao então parlamentar Osmar Serraglio (MDB-RS), defensor dos interesses grupo agropastoril, apresentar pronunciamento na tribuna da Câmara dos Deputados destacando a atuação da magistrada.

Segundo Osmar Serraglio, a “desembargadora Sandra Inês Rusciolelli agiu com destemor no combate a atos ilegais observados em decisões do Poder Judiciário Estadual da Bahia”.

Infere-se que faltou ao deputado dizer, também, que o que motivou a atuação da magistrada contra os interesses de José Valter Dias foram os milhões de reais que estava recebendo em propina do Grupo Bom Jesus Agropecuária. Fato desvelado durante a prisão da mesma, ocorrida em 24 de março de 2020, com a deflagração da 5ª fase da Operação Faroeste.

As conexões entre o CNJ e a desembargadora do TJBA Ilona Márcia Reis; Magistrada foi presa durante a 6ª e 7ª fases da Operação Faroeste

Além da comparsa da Orcrim desembargadora Sandra Inês Rusciolelli, outros magistrados e magistradas foram entregues pelo delator.

No contexto da Colaboração Premiada do mafioso Júlio César, cujas informações estão reunidas no Inquérito nº 1258/DF, conduzido na PGR pela subprocuradora-geral da República Lindôra Maria Araujo, foi presa, em 14 de dezembro de 2020, durante a 6ª e 7ª fases da Operação Faroeste, as desembargadoras do TJBA Ilona Marcia Reis e Lígia Maria Ramos Cunha.

O delator Júlio César apontou evidências nas quais a desembargadora Ilona Marcia Reis atuou, em tese, como um dos tentáculos da rede de crimes do Grupo Bom Jesus Agropecuária, decidindo a favor dos interesses da Organização.

Para evidenciar o enunciado, em 30 de abril de 2019, a desembargadora tomou decisão teratológica na qual beneficiava os interesses do Grupo Bom Jesus Agropecuária em sede de agravo de instrumento 8008018-92.2019.8.05.0000, suspendo os efeitos de decisão do juízo da Comora de Formosa do Rio Preto que bloqueava as matrículas nº 726 e 727 e as dela decorrentes.

Houve recurso de Agravo Interno de nº 8008018-92.2019.8.05.0000.1.Ag contra a referida decisão, que tem como parte José Valter Dias contra a empresa do agronegócio. A ação judicial foi motivada pela Bom Jesus Agropecuário com o intuito de criar um incidente processual e, com isso, postergar decisões definitivas que lhe retirassem das terras da antiga Fazenda São José.

O caso tem início com a Ação Declaratória de Inexistência de Sentença (Querela Nullitatis) movida por José Valter Dias e Ildeni Gonçalves em face de David Czertok e Alberto de Lemos Bloisi, onde se determinou o bloqueio e suspensão da eficácia das matrículas nº 726 e 727, emitidas pelo Cartório de Registro de Imóveis de Formosa do Rio Preto, bem como a manutenção da validade e eficácia da matrícula 1.037, emitida pelo mesmo Cartório de Registro.

A ação interposta por José Valter Dias buscava anular o inventário fraudulento de Suzano Ribeiro, uma vez que fora aberto por David Czertok com base em uma certidão de óbito falsa, conforme capítulos anteriores desta série.

Sendo assim, considerando que até o CNJ havia sedimentado que as matrículas nº 726 e 727 tinham como fundamento uma certidão de óbito falsa, feita mais de 70 anos depois da morte de Suzano Ribeiro de Soua, o pedido de José Valter foi acolhido pelo juiz de primeiro grau, o qual determinou a suspensão da eficácia e validade das matrículas nº 726 e 727 emitidas pelo Cartório de Formosa do Rio Preto.

Contra a decisão do juízo de primeiro grau, a Bom Jesus Agropecuária interpôs Agravo de Instrumento junto ao Tribunal de Justiça da Bahia, cuja relatoria coube a desembargadora Ilona Márcia Reis, que decidiu, às 19 horas, de 30 de abril de 2019, da seguinte forma:

— Outrossim avançando no exame das peculiaridades que permeiam o feito em tela, importante gizar que, ainda que reste comprova nulidade da sentença, como requerido pelos autores, ora agravados, da instrução processual, a nulidade do ato de registro de matrícula junto ao Cartório de Registro de Imóveis não pode, a princípio, prejudicar terceiros de boa-fé Este é o entendimento.

Ou seja, a desembargadora Ilona Marcia Reis trata como empresa de boa-fé, a corrupta Bom Jesus Agropecuária, em um caso onde as evidências de fraude na elaboração do falso atestado de óbito e fraudulento inventário de Suzano Ribeiro de Souza são concretos, por conseguinte, são fraudulentos os registros cartoriais de nº 726 e 727.

Defesa de José Valter Dias recorre

Por meio do recurso de agravo interno Agravo Interno de nº 8008018-92.2019.8.05.0000.1.Ag, a Defesa de José Valter Dias recorre da decisão prolatada pela desembargadora Ilona Marcia Reis que beneficiava os interesses da Bom Jesus Agropecuária.

No recurso, a defesa de José Valter Dias conseguiu evidenciar que havia um vício processual insanável de maneira que não poderia a Bom Jesus Agropecuária interpor quaisquer recursos isoladamente.

Neste sentido, o grupo agropastoril foi admitido no juízo de origem como assistente simples dos réus, e não na condição de assistente litisconsorcial como pretendia. Porque faltava legitimidade para atuar de maneira isolada, pois a atuação do assistente simples no processo judicial é subordina à atuação daqueles que assistem e que, até o momento, não haviam interposto qualquer recurso.

Em 27 de junho de 2019, ao ter exposto o grosseiro erro, a desembargadora Ilona Márcia Reis revisão a decisão anterior, para negar a liminar que havia concedido em favor da Bom Jesus Agropecuária, isso, porque a referida empresa não tinha legitimidade para recorrer.

A retratação da decisão de Ilona Marcia Reis fez com que a decisão de primeiro grau voltasse a ter validade, razão pela qual se determinou a suspensão da matrícula nº 726 e 727, em clara contrariedade aos interesses da Bom Jesus Agropecuária.

O jurista consultado pelo JGB informa que a desembargadora Ilona Márcia Reis apenas reformou a decisão porque não haver qualquer viabilidade ou fundamento na manutenção jurídica da mesma. Não se tratou de uma reforma feita para “prejudicar” a Bom Jesus ou “favorecer” José Valter, mas apenas um recuo provisório do evidente intento criminoso.

A seguir, será demonstrado como o apoio do teratológico voto-vista e dos pronunciamentos da conselheira Maria Uille são utilizados pela desembargadora Ilona Marcia Reis para garantir a ilegítima posse dos Okamotos, Grupo Bom Jesus Agropecuária e outros sobre as terras da antiga Fazenda São José.

A desembargadora Ilona Márcia Reis e o voto-vista da conselheira do CNJ Maria Uille como fundamento dos ilegítimos interesses da corrupta Bom Jesus Agropecuária

Em 26 de novembro de 2019, diante da questionável pressão da conselheira Maria Uille, sobre a atuação de magistrados em processos judiciais que dizem respeito a grilagem de terras no oeste da Bahia, a desembargadora Ilona Márcia Reis diz que existe ingerência do CNJ sobre atos jurisdicionais, ao argumentar na sentença o seguinte:

— Vejam, que a proba conselheira Maria Tereza Uille Gomes, no pedido de informações a esta desembargadora, deixou expresso que o exercício da jurisdição em processos envolvendo litígios sobre os objetos retromencionados, cujos resultados contrariem o quanto determinado pelo CNJ no âmbito registrário, implicará em responsabilização na esfera administrativa, com abertura de processo disciplinar, e incursão no âmbito criminal, como resultou do processo em curso  perante o STJ.  E o aviso da eminente Conselheira em seu despacho direcionado a esta relatora, foi bastante contundente, verbis:

— “Por oportuno, reforço a necessidade de atenção do Corregedor  acerca das circunstâncias e matérias jornalísticas divulgadas na data de 19/11/2019 a respeito do Superior Tribunal de Justiça que  afastou magistrados do TJBA por ‘suspeita de venda de  sentenças e também determinou a prisão de 4 suspeitos e o  bloqueio de R$ 581 milhões em bens em investigação sobre  legalização de terras no oeste baiano’, que, em última análise,  reforçam o entendimento de possível atuação ilícita do Poder  Judiciário com o fim deliberado de esvaziar a atuação do CNJ.”

— Tais ações obstaculizam a livre atuação jurisdicional da magistrada investida de jurisdição, e autorizam, por certo, o justo receio desta julgadora de ser atingida, ainda que por via oblíqua, pelos fragorosos acontecimentos que dardejam sobre a corte baiana.  Tecidas estas considerações, só resta uma única forma de se decidir juridicamente no presente feito, qual seja, a suspensão da decisão proferida pelo Juízo primevo, de modo a alinhar-se ao entendimento abraçado pelo Conselho Nacional de Justiça.

— Feito este relato, que entendo necessário para se compreender o quanto aqui discutido, concluo, de maneira excepcional, pela suspensão de ofício, da decisão proferida na instância de origem, nos autos da Ação Declaratória de Inexistência de Sentença (Querela Nullitatis) movida por José Valter Dias e Ildeni Gonçalves em face de David Czertok e Alberto de Lemos Bloisi, tornando sem efeito as decisões proferidas anteriormente no Agravo Interno, restabelecendo, por conseguinte, aquele provimento exarado nos autos do recurso instrumental.

Observa-se que ao prolatar a decisão, a desembargadora Ilona Márcia Reis é categórica ao afirmar que o que estava sendo proferido tinha como fundamento a atuação da conselheira Maria Uille, em ingerência a atos jurisdicionais que estão fora da competência do CNJ.

O jurista consultado pelo Jornal Grande Bahia, analisando os autos do processo, informou que a conselheira Maria Uille interferiu tanto no processo originário da Ação Declaratória de Inexistência de Sentença (Querela Nullitatis) quanto no Agravos de Instrumento e recursos internos que estavam sob a relatoria da desembargadora Ilona Márcia Reis.

Assim, tendo em vista que o CNJ decidiu pela validade administrativa das matrículas nº 726 e 727, mesmo diante da falsidade do óbito de Suzano Ribeiro, a conselheira Maria Uille requereu que os desembargadores prestassem esclarecimentos sobre o teor das decisões proferidas quando favoráveis à José Valter Dias.

Em tese, após entregar a “sentença encomendada” pelo Grupo Bom Jesus, a desembargadora Ilona Márcia Reis decidiu pela suspeição e afastamento do caso, o que acabou por favorecer a Orcrim liderada por Júlio César.

Conclusão

Na avaliação do jurista, o que se observa, portanto, é que a conselheira do CNJ Maria Uille extrapolou a atuação administrativa para interferir diretamente em processos judiciais em curso há 40 anos no Poder Judiciário Estadual da Bahia, arbitrando fora da competência que a Constituição Federal de 1988 outorgou ao CNJ, em claro conflito com o Devido Processo Legal.

O jurista finaliza as avaliações técnicas do conflito judicial questionado a falta de base material probatória que convalide a defesa que a conselheira do CNJ Maria Uille faz para legitimar os interesses dos Okamotos, Bom Jesus Agropecuária e outros, com base nos fraudulentos registros cartoriais de nº 726 e 727.

Próximo capítulo

No Capítulo XXX do Caso Faroeste, que narra ‘a luta de José Valter pelas terras da antiga Fazenda São José’, será revelada a reação do TJBA às investidas da conselheira do CNJ Maria Uille sobre o Processo Judicial de Reintegração de Posse (Processo nº 0000157-61.1990.8.05.0081), que está sub judice há 40 anos no PJBA e que diz respeito sobre a disputa de terras em Formosa do Rio Preto.

Referência

*CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. Ed. Ática, São Paulo, 2000.

Leia +

Capítulo XXX do Caso Faroeste: O CNJ, a conselheira Maria Uille, o senador Luis Carlos Heinze e as conexões com Osmar Serraglio, Aprochama, Okamotos, Grupo Bom Jesus Agropecuária e as desembargadoras Sandra Inês Rusciolelli e Ilona Reis, ambas pressas pela PF

Capítulo XXVIII do Caso Faroeste: O debate sobre os limites de atuação do CNJ e o voto-vista da conselheira Maria Uille que beneficiou a corrupta empresa Bom Jesus Agropecuária na manutenção das ilegalidades sobre as terras do oeste da Bahia

Em 26 de novembro de 2019, a desembargadora do TJBA Ilona Márcia Reis decide em favor dos interesses do Grupo Bom Jesus Agropecuária, proferindo sentença pela manutenção da grilagem de terras no oeste da Bahia.
Em 26 de novembro de 2019, a desembargadora do TJBA Ilona Márcia Reis decide em favor dos interesses do Grupo Bom Jesus Agropecuária, proferindo sentença pela manutenção da grilagem de terras no oeste da Bahia.
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Carlos Augusto é Mestre em Ciências Sociais, na área de concentração da cultura, desigualdades e desenvolvimento, através do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB); Bacharel em Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo pela Faculdade de Ensino Superior da Cidade de Feira de Santana (FAESF/UNEF) e Ex-aluno Especial do Programa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Atua como jornalista e cientista social, é filiado à Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, Reg. Nº 14.405), Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ, Reg. Nº 4.518) e a Associação Bahiana de Imprensa (ABI Bahia), dirige e edita o Jornal Grande Bahia (JGB).